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Clássico e moderno
O pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu é uma das melhores fontes para a compreensão dos fatos sociais
por Tatiana Martins Alméri

Em um interessante artigo, o sociólogo Loiq Wacquant, professor da Universidade de Berkeley, definiu da seguinte forma a trajetória do sociólogo francês Pierre Bourdieu: “Bourdieu ilustrou brilhantemente e desmentiu enfaticamente suas próprias teorias sociais com uma vida repleta que, por meio de improváveis conversões e mudanças bastante sinuosas, ancorou-se em um fiel compromisso com a ciência, com o institution-building intelectual e com a justiça social. De um ponto de vista sociológico e acadêmico, Bourdieu teve uma trajetória improvável. Como Raymond Aron gentilmente lembrou, Bourdieu foi uma exceção às leis de transmissão do capital cultural que ele mesmo estabeleceu em seus livros iniciais” (WACQUANT, 2002, p. 96).

Referência da sociologia moderna, Pierre Bourdieu trouxe preceitos de Émile Durkheim na construção dos fatos sociais para que fosse possível configurar um objeto de estudos, preparando um quadro de referências, com questões adequadas que possam dar abertura a respostas compreensíveis. “Os conceitos primários formulados e aperfeiçoados por Bourdieu são o de habitus e o de campo. A estes se agregam outros, secundários, mas nem por isso menos importantes, e que formam a rede de interações que orienta a sociologia relacional, a explicação, a partir de uma análise, em geral fundada em estatísticas, das relações internas do objeto social. A teoria do habitus e a teoria do campo são entrelaçadas. Uma é o meio e a consequência da outra (Vandenberghe, 1999:61). Para seguir os passos do processo investigatório de Bourdieu é essencial compreender estes conceitos tanto separadamente quanto na forma como se articulam” (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 32).

Dentro do contexto de campo, a busca foi a separação entre os opostos objetivismo e subjetivismo fundamentados na coletividade, a qual está permeada por um sistema de relações estruturais praticamente invisíveis aos olhos dos dominados. “O social é constituído por campos, microcosmos ou espaços de relações objetivas, que possuem uma lógica própria, não reproduzida e irredutível à lógica que rege outros campos. O campo é tanto um “campo de forças”, uma estrutura que constrange os agentes nele envolvidos, quanto um “campo de lutas”, em que os agentes atuam conforme suas posições relativas no campo de forças, conservando ou transformando a sua estrutura” (BOURDIEU, 1996:50).

Para Pierre Bourdieu, “às diferentes posições que os grupos ocupam no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de diferenciação que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência” (BOURDIEU, 1983, p. 82). Essas condições de existência se configuram em uma relação de força que muitas vezes são ofuscadas pela legitimidade, o que acaba garantindo o sentimento de liberdade dos dominados.

Da construção de discussões sobre dominação, abordando temas como educação, cultura, literatura, política, mídia, entre outros, como organização social, liberalismo, globalização e até a crítica à própria sociologia prática, a obra de Bourdieu se configurou como clássico a partir do momento em que conseguiu contextualizar várias correntes que precederam aos dias atuais, em um contexto prático analítico que se baseia em uma fundamentação teórica concisa e estruturante para as próximas reflexões possíveis relacionadas às novas mudanças da sociedade. Saiu de discussões puramente macro e conseguiu configurar o micro facilitando, assim, a análise da prática social. Uma conquista que, entre outras, tornou seus livros uma leitura obrigatória.

 

Um pouco sobre Bourdieu

Pierre Bourdieu nasceu em 1 de agosto de 1930, na França. Estudou na École Normale Supérieure e cumpriu serviço militar na Argélia, experiência decisiva para sua formação pessoal e intelectual, pois acompanhou de perto o colonialismo francês na África e a luta dos argelinos pela sua independência. Graduado em Filosofia, Bourdieu enveredou para a Antropologia e a Sociologia. Foi professor de Filosofia na Sorbonne, diretor e professor de Sociologia na École des Hautes Études em Scienses Sociales e, finalmente, foi eleito em 1982 para ocupar a cadeira de Sociologia do Collège de France, o Olímpo da acadêmia francesa. Bourdieu faleceu em 23 de janeiro de 2002. Algumas das principais obras de Bourdieu: “O Poder Simbólico”, “As Regras da Arte”, “O Ofício do Sociólogo”, “A Distinção: crítica social do julgamento” e “Coisas Ditas”.

 

 

 

 

 

 

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