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Guerra invisível
Sempre presentes na história da humanidade, as epidemias continuam a interferir no comportamento das pessoas, trazendo medo e preconceito para dentro da sociedade. O caso da gripe A/H1N1 - ou gripe suína - é emblemático ao mostrar que é mínimo o limite entre a divulgação de informações que minimizem o dano ou potencializem o pânico
por FERNANDO SAVAGLIA

SHUTTERSTOCK
FERNANDO SAVAGLIA é jornalista e escreve para esta publicação

Nos últimos dias do mês de abril, a Cidade do México viveu um cenário digno de um filme de terror. Enquanto grande parte do comércio e inúmeras instituições públicas foram fechadas, as crianças foram proibidas de comparecer às escolas. Já os habitantes que se aventuravam a sair às ruas usavam máscaras "tapabocas" distribuídas pelo exército. A realidade da maior metrópole latino-americana apresentou contornos dramáticos. Além de ser uma das maiores cidades do mundo no que se refere à densidade demográfica, a população da capital mexicana ao longo de sua história sempre esteve frente a frente com grandes tragédias.

O anúncio em rede nacional, feito no dia 23 de abril pelo presidente Felipe Calderón, de que uma epidemia se alastrava com alto poder de disseminação entre seres humanos estarreceu a população. O agente causador, o vírus conhecido como A/H1N1 tem como hospedeiros porcos e, após sofrer mutações, passou a vitimar seres humanos. Daí a origem do apelido "gripe suína", dado à patologia.

Foram várias as recomendações dos sanitaristas mexicanos para a população, entre elas uma que aconselhava que as pessoas travassem apenas contatos indispensáveis para a comunicação, evitando apertos de mão, beijos e abraços. Poucas horas após o anúncio oficial do governo, milhares de cidadãos correram aos supermercados em busca de mantimentos para enfrentar o provável confinamento por tempo indeterminado. Testemunhas relatam que um único espirro dentro das lojas era o suficiente para o surgimento de uma histeria generalizada.

As previsões da OMS (Organização Mundial de Saúde) se concretizaram e até o fechamento desta edição, 25 países confirmaram casos, inclusive o Brasil.

Para a socióloga Paula Regina di Francesco Picciafuocco, especialista em saúde pública, um fator determinante para se lidar de modo mais efetivo com a ameaça de uma pandemia diz respeito justamente à política de saúde de uma nação. A do Brasil, segundo sua visão, desenvolveu-se rapidamente nos últimos anos. "De 1988 para cá, com o advento da nova constituição que define o que é o SUS (Sistema Único de Saúde), o desenvolvimento da saúde pública aconteceu de maneira mais visível. Principalmente porque o Estado está cada vez mais atuante na área", explica a especialista.

Ainda que admita que a população continue sofrendo com o preço dos remédios e com as confusas leis que regem a assistência privada, a socióloga viu grande avanço nos serviços de saúde pública. Para ela, hoje, os municípios definiram seus papéis. "O Estado gera a política de saúde e o município operacionaliza a gestão. A descentralização deste atendimento serviu p ara melhorar o sistema como um todo."

A pandemia aumenta o índice de audiência dos programas de TV e a indústria cultural sabe como explorar isso

Paula Picciafuocco ressalta, ainda, que um dos objetivos da Sociologia da saúde é, justamente, estudar a prevenção de epidemias como esta que se acerca do Brasil. "Acho que, com a exceção do México que teve um problema de controle, é possível se preparar para casos assim."

A antropóloga Maria Helena Villas Boas Concone, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especializada em antropologia da saúde, acrescenta que o aspecto cultural também tem importante papel nas campanhas preventivas de saúde promovidas pelos governos. "A cultura é um processo que está sempre em mudança, incorpora, perde, inova, etc. Felizmente, o uso de assistência médica e também de remédios industrializados já faz parte importante da cultura contemporânea."

Remédios
SXC.HU

Apesar da ameaça da epidemia se estender para o Brasil, nos primeiros dias de maio, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) confirmou um reajuste de 5,9% nos medicamentos em todo o País. A remarcação autorizada pelo governo foi baseada no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e nada tem a ver com o aparecimento da gripe, como atesta a economista, Maria Cristina Sanchez Amorim, especializada em saúde pública. "São movimentos com dinâmicas separadas. Um número importante de medicamentos tem o preço controlado pelo governo e, por lei, o reajuste só poderia ser feito nesta época do ano". A economista, autora do livro Para entender a saúde - 2, feito em parceria com o médico Eduardo Pirilo, acredita que não há má-fé neste fato. "Na época em que o cronograma do governo previa o aumento, coincidentemente aconteceu o aparecimento da gripe."

Já o governo brasileiro se diz preparado para o caso de uma pandemia. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, desde janeiro deste ano o País já possui condições de produzir tratamento para 9 milhões de pessoas infectadas pelo vírus influenza, o causador da "gripe suína". O Ministério da Saúde garantiu, ainda, em comunicado oficial, que vem fazendo "buscas ativas e que monitora todas as pessoas que tiveram um contato próximo com indivíduos infectados".


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