Entrevista Jorge González Desconstruindo as estruturas da comunicação Para os cientistas da comunicação, a "globalização" e a "era da informação" não podem ser chamadas de conceitos, por não serem oriundas de estudos científicos por Michel Nuñez fotos Mo March
Confesso que, antes de chegar ao Memorial da América Latina para esta entrevista, muitas coisas me passaram pela cabeça. Dentre elas, qual seria a dinâmica e a linguagem que utilizaria numa conversa com um "cientista da comunicação". No entanto, ao encontrar Jorge González me deparei com um sujeito alegre, vestido com calça de sarja cheia de bolsos e uma camisa de botão. Logo de cara, percebi que estava diante de um cientista moderno, muito diferente dos que costumo ver pela televisão: sérios, com cabelos brancos, trajando terno e gravata e um avental branco por cima da roupa. Porém, um detalhe me chamou muito a atenção: seus óculos, que além de redondos, como os de John Lennon, tinham lentes alaranjadas. Talvez isso fosse um presságio do que viria logo adiante.
Nesta entrevista, realizada durante o II Colóquio Brasil-México de Ciências da Comunicação, evento promovido pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Jorge González fala sobre os avanços da Ciência da Comunicação, a contribuição que essa modalidade de ciência pode trazer para a sociedade e sobre os estudos que vêm sendo realizados por cientistas brasileiros e mexicanos no segmento. Desde 2004, Gonzalez coordena o Programa de Epistemologia da Ciência e Cibercultura e o Centro de Investigações Interdisciplinares de Ciências e Humanidades, da Universidade Nacional Autônoma do México.
Confira os principais trechos da entrevista e entenda por que os conceitos que adoramos usar quando discutimos assuntos relacionados à internet e à Era da Informação se transformaram em "sem-ceitos". Pelo menos na visão do cientista.
A Ciência da Comunicação surgiu na década de 1970. O que ela trouxe de novo e qual a contribuição dela para o desenvolvimento de uma sociedade?
González Depois de décadas de estudo, chegamos à conclusão de que é possível estudar, de forma integrada, a relação comunicação- informação-conhecimento, como ponto-chave da inteligibilidade de todo o vínculo social. Com trabalho científico podemos começar a entender como se compõe, como se transforma, como se desestrutura e volta a se estruturar uma sociedade. Ao contrário do que muitos pensam, nosso foco não está na produção ou no poder dos meios de comunicação, mas, sim, na importância da relação comunicação-informação- conhecimento para a composição e o desenvolvimento de uma sociedade.
" É possível estudar a relação entre comunicação, informação e conhecimento como ponto-chave da inteligibilidade do vínculo social "
Muitas pessoas colocam esse trabalho como um meio de estudar a cultura de um povo. Isso procede?
González Na verdade, o conceito "cultura" ficou pequeno em comparação ao universo de estudos no qual estamos inseridos. A cultura por si só é uma mescla de várias culturas. Não existe cultura "pura", pois ela se recompõe sistematicamente com o passar do tempo. Hoje, estamos trabalhando um conceito chamado de "ecologia simbólica", que nos permite estudar a relação comunicação-informação-conhecimento sob o ponto de vista de produção, organização e geração de estruturas e instituições sociais. Na verdade, estamos envolvidos em estudos que dificilmente são tomados por sociólogos e antropólogos, como a memética, por exemplo. Enfim, estamos tocando em estruturas autorreferenciais que vão se transformando ao longo do tempo.
Qual o maior desafio enfrentado pelos profissionais da área?
González O maior desafio está em conseguir desvincular a Ciência da Comunicação dos meios de comunicação. Trata-se de um assunto complexo, pois nosso trabalho está focado em estudar a importância desse tripé (comunicação-informação-conhecimento) na criação, no desenvolvimento e evolução de todo e qualquer tipo de sociedade, desde a mais primitiva até a mais contemporânea. Como nossa profissão é bastante nova, precisamos, antes de tudo, construir uma base sólida que nos permita, no futuro, enxergar novos horizontes.
"Tecnologia da informação é um conceito vago. O termo correto é ´tecnologia do conhecimento´, pois por meio da tecnologia acessamos as informações"
O que chama de base sólida?
González Não há como fazer ciência sem teorias, metodologias e fontes de estudo. O que estamos tentando fazer há 30 anos é construir uma estrutura forte para, assim, realizar estudos mais claros e objetivos. Hoje, por exemplo, vemos muitas teorias de comunicação baseadas em descrições. Além de torná-las pouco compreensíveis, torna difícil criarmos estruturas de estudo, ou seja, as metodologias. Se quisermos realmente que a profissão deslanche, precisamos trabalhar com transparência e bastante objetividade, para que todos, até os mais leigos, conheçam o objeto estudado e entendam o porquê do trabalho.
Você costuma comentar em suas palestras sobre a importância de se diferenciar o objeto de estudo em vez de apenas descrevê-lo. O que isso representa de maneira prática?
González Hoje, o mundo está repleto de conceitos que, no meu modo de ver, são "sem-ceitos". Ou seja, não podem ser chamados de conceitos exatamente por não serem oriundos de estudos científicos. Dentre eles está a tal da "globalização", a "cultura de massa", a "era da informação" e assim por diante. Geralmente, quem rotula isso são os jornalistas, que se sentem na obrigação de criar algo novo.
O problema é que esses "sem-ceitos", ao serem jogados na mídia, ganham força e se tornam palavras "sexys". E como o consumidor de informação adora tudo o que é sexy, atrativo, acaba incorporando os termos ao seu discurso sem saber ao certo o que isso representa. Por outro lado, a ciência trabalha anos e anos pesquisando um objeto. Porém, esses estudos só têm validade quando os cientistas conseguem diferenciar o objeto estudado dos demais já existentes. Eu sempre uso a água como exemplo. Para a grande maioria, não importa qual a composição da água. Na verdade, poucos sabem que ao beber água estão bebendo uma porção de H2O, que é composto por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio.
Essas mesmas pessoas não têm o mínimo interesse em saber o porquê de cada nomenclatura. Porém, é conhecendo cada composição que conseguimos diferenciar o H2O do H2O2, que é um peróxido de hidrogênio, mais conhecido como água oxigenada. Esse desconhecimento, no entanto, pode levar a uma lesão extremamente grave, pois ao beber um gole de H2O2, que é um líquido altamente oxidante, a pessoa pode simplesmente destruir a garganta. Por isso, a importância de se diferenciar os objetos de estudo. Se nós, cientistas da comunicação, realizarmos estudos claros e objetivos ao ponto de conseguirmos diferenciar um estudo do outro, automaticamente construiremos categorias de estudos. Só assim daremos nossa contribuição à sociedade como um todo.
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