Sociólogos & Sociologia Socióloga do mês Fátima Freitas por LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO
A docência em Sociologia é um dos maiores campos de atuação dos sociólogos brasileiros. No entanto, diversos colegas vêm se destacando em trabalhos como técnicos de secretarias estaduais e municipais de educação, contribuindo na elaboração de normas, programas de ensino, treinamento de professores, seleção pública e elaboração de livros didáticos. Nesta edição, vamos conhecer o trabalho da socióloga Fátima Freitas, consultora do Livro Didático Público de Sociologia da Secretaria da Educação do Paraná.
| Cursou Ciências Sociais na UFPR, tendo realizado especialização e mestrado em Antropologia Social na mesma Universidade. Foi pesquisadora da Secretaria de Estado da Cultura entre 1987 e 1994, tendo atuado nas áreas de Patrimônio Cultural e como pesquisadora do Museu da Imagem e do Som. Foi do quadro de magistério da Secretaria da Educação do PR. Lecionou na Universidade Tuiuti e desde 2001 é professora da Unibrasil. Fátima foi consultora do livro didático de Sociologia da SEDUC/PR. É Conselheira da Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba para os editais do Mecenato, e multiplicadora do Curso de Gênero e Diversidade na Educação pela Genus: pesquisa, assessoria e estudos. |
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Por que você decidiu fazer Ciências Sociais?
Por um desejo profundo de compreender como e por que das injustiças sociais, pelo menos num primeiro momento. Há, com a entrada no curso, descobertas bonitas como, por exemplo, a capacidade humana de produzir e viver diferentes experiências culturais e dar respostas diferentes em tempos e lugares distintos. Sem esquecer que preconceitos e desigualdades devem ser combatidos. A identificação com as lutas travadas pela esquerda brasileira sempre me seduziu muito. Eu fiz parte de grupos ligados à teologia da libertação quando era adolescente e venho de uma família de trabalhadores, pai operário, mãe costureira, ambos com um passado rural no interior do Paraná.
A primeira vez que li A caminho da cidade, da Eunice Durham, foi como se o universo social de minha procedência estivesse sendo descortinado. E foi muito bom. Quando ingressei no curso, eu sabia o que queria e, principalmente, que de alguma forma eu transformaria em profissão o meu desejo de entender como as relações sociais são produzidas no interior da sociedade. A leitura da Tenda dos milagres, de Jorge Amado, me despertou, ainda no ensino médio, um grande interesse pela Antropologia. Entrar para o curso foi a realização de um projeto de vida.
Como você vê o processo de luta pela instauração da disciplina de Sociologia no ensino médio, entre 1997 e 2008?
Considero a luta dos professores de Sociologia e demais profissionais envolvidos nessa batalha, que hoje é uma vitória de todos, uma das bandeiras mais legítimas em favor de uma educação cidadã. Entendo que agora há outras lutas a serem travadas. É necessário que ela se transforme em um instrumento de crítica na escola. Acredito que precisamos de concursos ou processos seletivos para obter profissionais qualificados.
Qual a importância do ensino da Sociologia à nossa juventude?
Tem muita importância. Uma disciplina que contribui para desvendar o mundo e a lógica (às vezes perversa) das relações sociais, só pode ser trabalhada com seriedade. Acredito que deve ser pensada e praticada com muito respeito pelas experiências que os alunos nos trazem de suas vidas, que devem ser consideradas em nossa prática docente.
Conte a experiência da Secretaria da Educação do Paraná desde o início do estabelecimento da disciplina.
Não participei de todo o processo de instauração da disciplina na SEED/ PR. A secretaria possui um quadro de técnicos responsáveis para isso. Meu papel foi como consultora. O professor Jairo Marçal foi quem coordenou a concepção e estabelecimento do projeto Livro Didático Público. Foi um trabalho coletivo, com os técnicos da Secretaria, corpo docente das escolas públicas e os respectivos consultores. Foram realizados vários encontros e simpósios temáticos, os conteúdos a serem trabalhados no livro foram discutidos com os docentes das escolas públicas e o Departamento de Ensino Médio.
O Paraná tem uma experiência única com a produção de um livro didático elaborado pelos próprios professores. Conte como foi esse trabalho.
Foi exatamente pelas características do projeto que me envolvi com a sua realização. A ideia de uma produção coletiva, realizada por docentes de Sociologia das escolas públicas do Paraná, e principalmente o fato de que os livros seriam disponibilizados para todas as escolas, além de serem consultados por meio eletrônico, constitui uma política pública importante. O projeto gráfico foi todo concebido pela SEED, mas parte do material iconográfico ficou a cargo dos autores.
A Sociologia é uma disciplina que contribui para desvendar o mundo e a lógica das relações sociais
No caso da Sociologia, o material fotográfico foi de João Urban (conhecido fotógrafo paranaense), que tem como tônica de seu trabalho os movimentos sociais. Outro ponto importante do livro são as atividades propostas. Tivemos o cuidado de incluir músicas, filmes e sugestões de pesquisa para tornar a sua realização um momento de aprendizado e descobertas.
Em termos de currículo, conteúdos, carga horária, metodologias adotadas, como se encontram esses debates hoje na SEDUC/PR?
Para não cometer injustiças, devo dizer que a SEED/PR mantém uma equipe muito competente que trabalha para que todas as escolas públicas ensinem Sociologia. Mesmo antes da obrigatoriedade nacional, o Paraná, em 2004, já havia realizado concurso público para docentes de Sociologia.
Quanto às metodologias adotadas, uma das qualidades do trabalho da SEED é considerar que a realidade da docência está sempre em construção. Nesse sentido, continuam os encontros, simpósios e seminários para discussão tanto das metodologias, quanto das dificuldades do exercício da docência de Sociologia.
Que conselho daria aos estudantes de Ciências Sociais, para que sejam bons sociólogos?
Considero que buscar uma boa formação teórica é fundamental, aliada à compreensão de que o exercício de nosso ofício envolve compromisso ético e responsabilidades. As possibilidades de atuação são amplas, mas é importante saber o que se busca ao escolhermos um caminho, e esta é a parte mais difícil. É uma cobrança que se faz à juventude, e isso me preocupa. A cada ano vejo os estudantes ingressando na Universidade, e cada vez mais sendo cobrados pelas famílias, pela sociedade e também pelas próprias escolas.
As escolhas não podem ser feitas em termos de uma lógica de mercado ou do quanto se vai ter de retorno com o investimento. Eu diria aos estudantes ou futuros estudantes: se você acredita, gosta e tem uma profunda vontade de entender o mundo atual, o ser humano e tudo que o torna tão interessante, este é o caminho. Se diante de uma injustiça, da pobreza, do capitalismo, da geração de miséria e violência você se pergunta como e por que isto acontece com os humanos e, sobretudo, reconhece que estas questões são historicamente produzidas por eles próprios, então há uma grande possibilidade de você vir a ser um sociólogo.
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LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). Possui diversos livros e artigos científicos publicados sobre a profissão. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br |
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