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Antropologia
Sociologia das emoções
Mais do que uma questão meramente biológica, as emoções podem ser analisadas sob o ponto de vista socioantropológico
Por EMEESON SENA DA SILVEIRA

O sentimento como fenômeno resultante de processos sociais

SHUTTERSTOCK
Por EMERSON SENA DA SILVEIRA é antropólogo, doutor em Ciência da Religião (Univ. Fed. de Juiz de Fora - MG) e pós-doutorando em Antropologia (CNPq-PPCIR-UFJF). Autor do livro Corpo, emoção e rito: Antropologia dos carismáticos católicos (Porto Alegre: Armazém, 2008). Contato: emerson.pesquisa@gmail.com

As emoções entre as mulheres e os homens despontam nas revistas científicas e não científicas como objeto da Psicologia, da Biologia, da Neurologia e da Psiquiatria. Há muitos escritos abordando a natureza inata das emoções, o caráter genético de certos comportamentos emocionais (ódio, amor, inveja) ou, ainda, a profundidade, a manipulação ou a perversão do sentimento.

Alguns livros, oriundos da literatura erudita de autoajuda (Por que os homens mentem e as mulheres choram?), apresentam argumentos das ciências biológicas e da saúde sem o necessário debate e confronto com outras pesquisas e com as ciências sociais/humanas, repetindo, assim, ideias batidas e sem criatividade.

Paralelamente, o senso comum consagra esta divisão de tarefas emocionais: aos homens caberia a razão prática e o controle emocional, e às mulheres a emoção expandida e a paixão. Nada mais falso do que essa imagem, apesar das afirmações recentes da Psiquiatria e das ciências médicas ao "descobrirem" o poder dos hormônios ou a diferença das estruturas cerebrais.

Infelizmente, os sentimentos têm sido reduzidos a uma questão pessoal ou meramente biológica quando, na verdade, é possível falar de emoção entre classes sociais, gerações e outros agrupamentos sociais.

O sociólogo Norbert Elias (1897-1920), nos livros O processo civilizador e Sociedade de Corte, apesar de não construir uma Sociologia das emoções como campo científico, propõe no âmbito de uma "educação civilizatória", reflexões em que os sentimentos estão associados às formas civilizacionais assumidas pelas sociedades ao longo da história.

Assim, se pudéssemos transportar pessoas que viveram em outras épocas e civilizações para uma viagem no tempo, perceberíamos toda uma gama de sentimentos muito diferentes, mas intensos. Tomemos, por exemplo, o hábito, no Brasil Império, de colocar escarradeiras na sala para recolher o pigarro dos moradores e visitantes. Isso causaria nojo aos homens e mulheres contemporâneos, da mesma forma que certos hábitos atuais suscitariam horror, vergonha e ódio nos homens e mulheres do Brasil naquela época.

Dessa forma, para Norbert Elias, o desenvolvimento da noção de civilização na Europa, com toda sua sustentação social e econômica, correspondeu, simultaneamente, ao aumento do sentimento de vergonha e do nojo e da tendência de esconder, nos bastidores da vida social, a causa desses sentimentos.

A ideia de refinamento dos costumes, do autocontrole emocional e da higiene pessoal e pública surge como ideal da civilização ocidental, ampliando a fronteira entre privado e público, bem diferente dos costumes, e óbvio, dos sentimentos vividos na Idade Média.

Por isso, é possível, sem menosprezar as investigações das ciências médicas sobre o peso das estruturas biológicas e genéticas, afirmar que os sentimentos e suas formas de se manifestar são também elementos sociais, estruturantes da forma como interagimos, presentes na virulência dos preconceitos sociais ou na suavidade da ternura a dois.

Porém, a sisuda Sociologia continental ou europeia quase não deu atenção direta a esse aspecto fundamental da vida em sociedade. Não era a preocupação central de Durkheim (1858-1917), Weber (1864-1920) e Marx (1818-1883) (consagrada "trilogia" das Ciências Sociais), mas é importante notar que, apesar de não haver uma preocupação direta com as emoções, é possível ler, nas entrelinhas de seus escritos, ou até mesmo em textos "menores", reflexões bastante expressivas.

É possível perguntar, a partir das questões suscitadas por uma Sociologia das emoções, como os autores "clássicos" resolveram a questão da subjetividade no arcabouço teórico que construíram.

Durkheim, acusado (ou elogiado) de ser o "pai" do positivismo nas Ciências Sociais, escreveu textos e livros nos quais aborda uma "Sociologia do simbólico". Dentre eles está o relativamente pouco conhecido As formas elementares da vida religiosa, um dos últimos livros publicados. A leitura desse livro relativiza o rótulo de "pai do positivismo sociológico". Durkheim, ao analisar os rituais das tribos australianas (sua dinamogenia), por meio de relatos de viajantes e missionários, coloca a emoção como parte indissociável da estrutura social. O ritual de celebração dos totens tribais teria como tarefa essencial perpetuar na memória dos homens a emoção original que os mobilizou e os fundou como sociedade. Em outras palavras, a emoção é resultante do estado de sociedade, condição sem a qual o homem não pode existir. Já no livro O suicídio, Durkheim apresenta os sentimentos, emoldurados por sua Sociologia, como fenômenos resultantes de processos sociais amplos de solidariedade e anomia, decorrentes da divisão social do trabalho.

Próximo a essa perspectiva "externalista" e estrutural, situa-se Karl Marx, para quem a individualidade psicológica e as emoções (raiva, inveja, ira) são frutos das relações de produção e das forças produtivas. As classes sociais e os conflitos decorrentes da guerra gerados entre as mesmas caracterizariam os sentimentos, determinados pela marcha histórica da "luta de classes".

A emoção deveria ser tratada sob o aspecto das diferenças entre classes sociais, gerações e outros agrupamentos

Para Durkheim e Marx, o eu individual ou o self, não existem como expressão concreta, mas como expressão de estruturas e de coletividades abstratas.

Em Weber, o austero puritano, tipo ideal que emerge das páginas da Ética protestante e o Espírito do Capitalismo, é uma figura na qual o controle das emoções é o ápice de um processo psicossociológico. O senso de frugalidade e do dever está relacionado, intimamente, à emoção e às formas de contê-la. O desfrute emocional será obtido, paradoxalmente, do esforço de autocontrole. Alguns irão dizer: "nada é mais prazeroso do que a sensação do dever cumprido". Isso é também uma forma emotiva.

Para Weber, a evolução das éticas religiosas que embasam as religiões mundiais resulta na multiplicidade de formas de explicação dos sofrimentos como o mal e a dor. Essas tentativas, chamadas de teodiceias, orientam as ações dos indivíduos. Por elas, é possível compreender, por exemplo, o porquê da serenidade de um budista diante da morte iminente, a sua extrema compaixão por qualquer forma de vida ou o orgulho triunfante do puritano ao trabalhar e buscar, na poupança e no seu reinvestimento em atividades "produtivas", respostas às suas angústias.

Poucos foram os sociólogos que, na virada do século XIX e início do século XX, dedicaram-se às pesquisas sobre as complexidades do sentimento humano. Dentre eles, citamos George Simmel (1858-1918) e Marcel Mauss (1872-1950), sobrinho de Émile Durkheim.

De Simmel (2006), temos reflexões muito interessantes no livro Filosofia do amor, uma reunião de diversos ensaios em que é analisado o papel do dinheiro na relação entre os sexos e o amor, consagrado como o mais nobre sentimento que homens e mulheres podem expressar. Com rara sensibilidade, Simmel traça uma trama conceitual em que, Sociologia e Filosofia, dialogam entre si. Simmel (2006, p. 117), dentre outras coisas, analisa os paradoxos do amor: "o milagre do amor é justamente não abolir o ser-pa-ra-si nem do eu nem do tu, fazer dele inclusive a condição que permite essa supressão da distância, esse fechar-se egoísta em si mesmo do querer-viver. Isso é algo totalmente irracional, que se subtrai à lógica das categorias habitualmente válidas".

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