editora Escala
 

Filosofia  
 
 
 

 

Envie para um amigo Imprimir
 
Afrodescendência
Clóvis Moura o negro na dinâmica da luta de classes no Brasil
O cientista social inovou ao explicar as diversas formas de resistência como resultado da posição social dos negros no interior da sociedade escravista
por LISANDRO BRAGA

Raio X

Clóvis Steiger de Assis Moura nasceu em 1925, em Amarante, Piauí, filho de Elvira Moura e Francisco de Assis Moura. Na Bahia, ingressou na Faculdade de Direito, porém não chegou a concluir o curso. Nos anos 1940 ingressou no PCB onde trabalhou como jornalista do jornal O momento, diário do Partido Comunista Brasileiro na Bahia. Em 1947, elegeu-se como deputado estadual pelo partido, mas teve seu mandato cassado pelo Tribunal Eleitoral que, no mesmo ano, cancelou o registro do Partido Comunista. Em 1949, Moura mudou-se para São Paulo e começou a atuar na Frente Cultural do PCB. Graduou-se em Ciências Sociais em 1953 na hoje denominada Universidade do Estado de São Paulo (Unesp). Nos anos de 1970, iniciou sua militância no movimento negro brasileiro. Faleceu em fins de dezembro de 2003, no hospital Albert Einstein, em São Paulo, aos 78 anos.

Dentre as suas principais obras, na maioria analisando o problema do negro cativo e do negro liberto - pósabolição -, destacam-se: Rebeliões da senzala - quilombos, insurreições, guerrilhas (1959); O negro: de bom escravo a mau cidadão? (1977); A Sociologia posta em questão (1978); Os quilombos e a rebelião negra (1981); Quilombos - Resistência ao Escravismo (1987); Sociologia do negro brasileiro (1988); As injustiças de Clio - o negro na historiografia brasileira (1990); Dialética radical do Brasil negro (1994); A encruzilhada dos orixás - problemas e dilemas do negro brasileiro; Os quilombos na dinâmica social do Brasil (2001) e vários outros livros e artigos.

 

ILUSTRAÇÃO: YVES SANTAELLA BRIQUET

Moura busca compreender a sociedade a partir das relações de produção e luta de classes

Ao negar a participação individual e/ou coletiva do negro na história do Brasil como sujeito histórico ativo, a historiografia oficial apresentava uma visão elitista e racista da realidade social, objetivando naturalizar e justificar a escravidão ou, quando muito, amenizar a violência das práticas escravistas apresentando o Brasil como o país construído pelo colonizador europeu que "melhor confraternizou com as raças chamadas inferiores. O menos cruel nas relações com os escravos" (FREYRE, 2000).

Com o intuito de desmistificar essas análises ideológicas sobre a história do escravo e da escravidão no Brasil é que Clóvis Moura tanto se debruçou sobre o assunto e escreveu inúmeras obras dedicadas a essa temática. Em uma de suas obras, As injustiças de Clio - o negro na historiografia brasileira (1990), Clóvis Moura dedica-se especifi- camente a analisar a historiografia brasileira sobre o negro escravo.

Nessa obra, Moura utilizará o conceito gramsciano de "intelectuais orgânicos" para afirmar que, na sociedade escravista brasileira, assim como na sociedade capitalista moderna, toda a produção intelectual estava voltada para justificar e naturalizar a escravidão com o intuito de impossibilitar a visualização de outro modo de produção possível. Portanto, "da mesma forma como, na era atual, inúmeras correntes históricas surgem para racionalizar as contradições e dilaceramentos do sistema capitalista, durante a escravidão, no Brasil, a sua historiografia era cooptada para justificar o modo de produção escravista, a sua necessidade econômica e a impossibilidade de se apresentar outro modo de produção capaz de substituí-lo" (MOURA, 1990)

O negro fugido, o quilombola, transformou-se em uma das forças que dinamizaram a passagem da escravidão para o trabalho livre. Zumbi dos Palmares (foto 1) foi um dos responsáveis pela luta dos Quilombos

Para constatar essa afirmação Moura analisa diversos "historiógrafos ou intelectuais ideológica ou economicamente subordinados" (ibid) à sociedade escravista e algumas de suas obras principais, tais como: Frei Vicente do Salvador (História do Brasil, por volta de 1627); Rocha Pita (História da América portuguesa); o inglês Robert Southey (Uma história do Brasil, entre 1810-1819) ; Francisco Varnhagen (História do Brasil, de 1854); Handelmann (História do Brasil, publicado na Europa em 1860) dentre outros.

Ainda hoje, as obras de Clóvis Moura se encontram marginalizadas no meio acadêmico

A GRANDE CONTRIBUIÇÃO das obras de Clóvis Moura para a compreensão da realidade histórico-social brasileira está na utilização do método materialista dialético (mesmo que, em algumas obras, a leitura e interpretação que ele faz desse método seja considerada por nós equivocada).

Assim, ele busca compreender uma sociedade a partir das relações de produção da vida material e das contradições e luta de classes que se acirram entre as principais classes antagônicas existentes no interior dessa sociedade.

A partir da década de 1980 é possível perceber o reconhecimento da obra de Moura a partir da releitura que diversos intelectuais passam a fazer da escravidão e do papel do escravo, mas, ainda hoje, as obras de Clóvis Moura se encontram marginalizadas nos meios acadêmico e intelectual brasileiros, que constantemente aderem aos modismos acadêmicos que, cada vez mais, optam (acredito eu que isso seja uma prática política nitidamente conservadora) por fragmentar a realidade e analisar realidades microdesarticuladas da totalidade social, isso quando não chegam ao exagero de negar qualquer possibilidade de se obter um conhecimento da realidade histórica.

REFERÊNCIAS

BRAGA. Lisandro. Escravidão negra: um confronto historiográfico. Revista Educação e Mudança. Número 11/12, janeiro/ dezembro/2003.

BUONICORE, Augusto C. Os comunistas e o problema racial no Brasil. In: www. lainsignia.org/2005/mayo/ibe_085.htm. Acessado em 5/8/2007. ___. Reflexões sobre o marxismo e a questão racial (1ª parte). Revista Espaço Acadêmico, número 51, agosto/2005. In: www.espacoacademico.com. br/051/51buonicore.htm. Acessado em 5/8/2007. ___. Reflexões sobre o marxismo e a questão racial (2ª parte). Revista Espaço Acadêmico, número 53, outubro/2005. In: www.espadoacademico.com. br/053/53buonicore.htm. Acessado em 5/8/2007.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MAESTRI, Mário. Brasil: A visão germinal de Clóvis Moura. In: www.consciencia.net/2004/ mes/01/maestri-clovismoura.html. Acessado em 12/11/2006.

MOURA, Clóvis. Os quilombos e a rebelião negra. São Paulo: Brasiliense, 1987. ___. Rebeliões da senzala. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988. ___. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Editora Ática, 1988. ___. As injustiças de Clio - O negro na historiografia brasileira. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990. ___. Dialética radical do Brasil negro. São Paulo: Editora Anita, 1994.

RUBIM, Antônio A. Canelas. Marxismo, cultura e intelectuais no Brasil. Salvador: Centro editorial e didático da UFBA, 1995.

 

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História Sociologia Psique
 
Edição nº 25
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
QUADRO NEGRO
SOCIÓLOGO DO MÊS
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS