Afrodescendência Clóvis Moura o negro na dinâmica da luta de classes no Brasil O cientista social inovou ao explicar as diversas formas de resistência como resultado da posição social dos negros no interior da sociedade escravista por LISANDRO BRAGA
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Para Moura, a rebeldia do negro se explica pela própria dinâmica social do modo de produção escravista, marcada pelo conflito entre senhores e escravos
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O desgaste do sistema escravocrata foi a consequência na mudança da forma de produção
Ao contrário da perspectiva da maioria dos pensadores que analisaram a escravidão e o negro brasileiro a partir de Nina Rodrigues, que desprezou a luta dos escravos ou quando muito procurou explicá-las como sendo resultado da sua incapacidade em se adaptar aos padrões da cultura ocidental, caracterizando tais conflitos como sendo mera expressão de choques culturais, Clóvis Moura explicou as diversas formas de resistência negra como resultado da posição social ocupada pelo negro no interior da sociedade escravista.
Para Moura, "o problema da luta dos escravos negros ainda era considerado, na época em que iniciamos as pesquisas em arquivos e outras fontes, um tema esporádico, secundário e, quando muito, manifestações de movimentos antiaculturativos. Tirava-se, com isto, o conteúdo que produzia o dinamismo interno desses movimentos, elidia-se a contradição fundamental que os produzia - a luta de classes no sistema escravista - para reduzi-los a um mero jogo de choques entre padrões, traços e complexos culturais que os negros trouxeram da África e os da cultura ocidental que os recebeu.
Esta posição teórica e a sua continuação metodológica levavam a que sempre se procurasse uma interpretação culturalista para o conflito social que se desenvolvia em consequência das contradições do sistema escravista que se formara no Brasil (...). Transferia- se, assim, para o plano cultural, através dos conceitos de acomodação, adaptação, aculturação, assimilação e outros, os diversos níveis de consciência social do escravo e a sua consequente rebeldia. O conflito social era substituído pelos choques culturais. E com isto a escravidão ficava apenas como um pano de fundo estático onde ele se operava. Nessa posição se postaram quase todos os que escreveram sobre a escravidão moderna no Brasil a partir de Nina Rodrigues."
A CITAÇÃO ACIMA apresenta uma singularidade da obra Rebeliões da senzala em relação à maioria dos autores que analisaram a escravidão e as lutas escravas antes de sua publicação. Nessa obra, Moura mostra que a rebeldia do negro se explica pela própria dinâmica social do modo de produção escravista, marcada pela existência no seu interior de classes antagônicas - senhores e escravos - em conflito.
A historiografia tradicional/ofi- cial muito escreveu sobre a escravidão, "mas pouco ou quase nada foi salientado sobre o papel do escravo no processo histórico e coletivo de luta de classes, que veio a provocar os desgastes sociais, econômicos e psicológicos da classe senhorial e, até mesmo, do sistema escravista" (BRAGA, 2003).
Contrariando esse modelo historiográfico e suas visões da história com seus enfoques tradicionais e eruditos que visavam à apresentação de um modelo sem contradições e antagonismos sociais, Moura apresentou o escravo como o componente dinâmico e ativo que, de diversas formas, se organizou e lutou contra a opressão do sistema escravista, elaborando estratégias e ações que dinamizaram a sociedade, contribuindo assim para o seu desgaste e destruição.
Do contrário, "procurando-se sempre o enfoque chamado erudito, esquecem-se de que a apresentação de um esquema interpretativo sem a projeção das contradições estruturais da realidade significa cair-se em uma visão organicista em que tudo se ajusta porque essas contradições, nos seus diversos níveis, são descartadas para estabelecer-se a harmonia do modelo metodológico. Desta forma, os movimentos de rebeldia dos escravos, a violência usada por eles contra o sistema escravista são subestimados constantemente.
mobilidade social para o negro descendente do antigo escravo é muito pequena no espaço social
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A visão elitista e racista da realidade social tenta naturalizar e justificar a escravidão ou, quando muito, amenizar a violência das práticas escravistas
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Esquecem-se esses estudiosos de que a violência também é uma categoria econômica. Daí porque vemos tanto papel ser gasto na discussão do problema, como se o escravo não existisse no sistema escravista como sujeito coletivo atuando na dinâmica social" (MOURA, 1987).
Na análise de Moura o negro/ escravo é apresentado como um componente ativo, por suas diversas formas de resistir à condição de escravo e suas inúmeras lutas contra as classes que o escravizavam, contribuindo para o desgaste do modo de produção escravista e para a consequente transição para um novo modo de produção - o capitalismo subordinado -, e novos regimes de trabalho, no qual o assalariado foi paulatinamente tomando conta.
Portanto, de acordo com Clóvis Moura, "foi o quilombola, o negro fugido nas suas variadas formas de comportamento, isto é, o escravo que se negava, que se transformou em uma das forças que dinamizaram a passagem de uma forma de trabalho para outra ou, em outras palavras, a passagem da escravidão para o trabalho livre (...)" (MOURA, 1988).
ALÉM DA RUPTURA com essa historiografia tradicional/oficial provocada por sua obra, Moura procurou destacar a importância de se levar em conta a questão racial na busca de uma verdadeira democracia no Brasil, pois, aqui, o problema da pobreza, da miséria e da opressão está intimamente relacionado, também, com o problema racial. Segundo ele, "assim como a sociedade brasileira não se democratizou nas suas relações sociais fundamentais, também não se democratizou nas suas relações raciais.
Por esta razão, aquela herança negativa que vem da forma como a sociedade escravista teve início e se desenvolveu, ainda tem presença no bojo da estrutura altamente competitiva do capitalismo dependente que se formou em seguida. Por esta razão, a mobilidade social para o negro descendente do antigo escravo é muito pequena no espaço social. Ele foi praticamente imobilizado por mecanismos seletivos que a estratégia das classes dominantes estabeleceu. Para que isso funcionasse eficazmente foi criado um amplo painel ideológico para explicar e/ou justificar essa imobilização estrategicamente montada" (MOURA, 1978).
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Os PCs brasileiros, bem como os latino-americanos, tinham dificuldades em entender a questão "raça"/classe que envolve a problemática do afrodescendente
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Para Clóvis Moura, o segmento social negro brasileiro, com suas lutas contra a escravidão na sociedade escravista e suas posteriores mobilizações na luta pela igualdade racial na sociedade brasileira - pós-abolição -, consiste em uma importante ferramenta para se pensar a superação do atual quadro de desigualdade social a que estão submetidos milhares de brasileiros. Portanto, "não se compreende a situação das classes dominadas no Brasil, hoje como no passado, sem que se leve em conta as duas dimensões essenciais da dominação, a classista e a racial. Elas imbricam-se e conferem características próprias às relações de dominação em nossa sociedade" (RUY, 2004).
A PREOCUPAÇÃO CENTRAL das análises historiográficas de Clóvis Moura em todas as suas obras sobre o negro e a sociedade escravista é a de explicar tal sociedade a partir das ações das classes sociais que se encontravam desumanizadas no seu interior. Por isso, as lutas escravas e as resistências negras pós-abolição adquirem grande importância em suas obras, pois é no ato de negar-se como escravo que o negro afirma sua humanidade, dinamiza-se socialmente e contribui definitivamente com a destruição do sistema escravista.
Para Moura, "o escravo não foi aquele objeto passivo que apenas observava a história. Não foram os escravos 'testemunhos mudos de uma história para a qual não existem senão como uma espécie de instrumento passivo', como quer Fernando Henrique Cardoso, mas, pelo contrário, um componente dinâmico permanentemente no desgaste ao sistema, através de diversas formas, e que atuavam, em vários níveis, no processo de seu desmoronamento" (1987).
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