editora Escala
 

Filosofia  
 
 
 

 

Envie para um amigo Imprimir
 
Afrodescendência
Clóvis Moura o negro na dinâmica da luta de classes no Brasil
O cientista social inovou ao explicar as diversas formas de resistência como resultado da posição social dos negros no interior da sociedade escravista
por LISANDRO BRAGA

LISANDRO BRAGA é historiador e cientista político do Núcleo de Pesquisa Marxista da Universidade Estadual de Goiás. E-mail: lisandrobraga@hotmail.com

Em 1948, aos 23 anos, o cientista social Clóvis Moura iniciou os seus estudos sobre a resistência negra no Brasil escravista. Sua primeira obra, Rebeliões da senzala, ficou concluída em 1952, quando tentou publicá-la pela principal editora de esquerda, editora Vitória, do PCB - que a rejeitou, juntamente com livros de alguns companheiros de partido, como Caio Prado Júnior e Édison Carneiro que o desaconselharam a levar adiante tal trabalho.

Que razões teriam levado o quadro de dirigentes do PCB a adotar essa postura em relação a tal obra e consequentemente ao seu autor? Para tentar responder a essa questão torna- se necessário compreender como o Partido Comunista Brasileiro, no qual Clóvis Moura militou, interpretava essa singularidade da problemática brasileira "raça"/classe.

Rebeliões da senzala foi menosprezada por não estar em sintonia com as análises teóricas do PCB

Tanto a obra Rebeliões da senzala quanto a pessoa de Clóvis Moura foram menosprezadas e isoladas pelos próprios companheiros e intelectuais do PCB por não estarem em sintonia com as análises teóricas dos quadros dirigentes do partido, da internacional comunista e do stalinismo - que não se interessava em compreender a relação existente no Brasil entre "raça" e classe. Como ele mesmo coloca, "os PCs brasileiros, bem como os latinoamericanos, tinham dificuldades em entender a questão "raça"/classe que envolve a problemática do afrodescendente brasileiro, bem como do afrodescendente latino-americano" (Moura, 1994).

O conteúdo e a preocupação central da obra não se enquadravam no modelo interpretativo exigido pelos quadros dirigentes do PCB que monopolizavam toda a análise teórica sobre a realidade brasileira da época. Logo, toda a análise contrária às suas interpretações era vetada e proibida a sua publicação pelas editoras do partido. Sobre tal prática m o - nopolizadora do PCB são esclarecedoras as palavras de Antonio Rubim na sua obra Marxismo, cultura e intelectuais no Brasil (1995) que assim afirma: "Durante longo tempo só os 'intelectuais' do partido, ou seja, seus dirigentes, têm legitimidade e reconhecimento do partido como intérpretes da realidade brasileira (...).

O (quase) monopólio do marxismo no Brasil exercido pelo Partido Comunista complementa-se desta maneira com o monopólio do uso legítimo do marxismo pelos 'intelectuais' do aparelho, que buscam adequar estas análises às interpretações táticas e estratégicas globais elaboradas e impostas pelos soviéticos. O desconforto dos intelectuais marxistas do PC termina por se expressar em variados tons: em reclamações acerca da falta de atenção dada pelo partido ao seu trabalho interpretativo, como aconteceu no depoimento de Alberto Passos Guimarães; na produção efetuada à margem e em contradição com teses do partido, como ocorre com Caio Prado Jr.; ou por uma produção só elaborada após a ruptura com o partido, a exemplo de Leôncio Basbaum e Jacob Gorender."

Clóvis Moura explicou as diversas formas de resistência como resultado da posição do negro na sociedade

Entender a sociedade da época e a cultura, principalmente a acadêmica e política, assumiu uma importância na obra de Clóvis Moura, seja inspirando- o ou fazendo-o contestar. Neste sentido, um estudo sobre o PCB e sua matriz ideológica e hegemônica tornou-se fundamental para explicitar as divergências e convergências entre o partido e Moura. Assim, é preciso ter uma visão mais ampla da sociedade e da época e, mais especificamente, do meio circundante mais próximo de Moura, no caso o PCB.

SLAVERY IN BRASIL / WIKIPEDIA
Até a chegada dos estudos de Clóvis Moura, a maioria dos pensadores procurou explicar as manifestações dos negros como sendo mera expressão de choques culturais

O SEU PRIMEIRO livro, Rebeliões da senzala, que revê a história da escravidão e do papel do negro/escravo na dinâmica escravista brasileira, só foi publicado em 1959 pela editora Zumbi. Segundo Maestri, essa era uma "microeditora fundada por militantes comunistas para publicar obras rejeitadas pela editora Vitória do PCB" (MAESTRI, 2004). Foi com esse livro que Clóvis Moura se inseriu, diga-se tardiamente, no cenário intelectual brasileiro.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História Sociologia Psique
 
Edição nº 25
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
QUADRO NEGRO
SOCIÓLOGO DO MÊS
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS