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Sociedade vícios em profusão
Mal-estar contemporâneo
Drogas, bebida, jogo, trabalho, exercício, sexo, comida. Nos tempos atuais, há cada vez mais pessoas viciadas nas mais diferentes possibilidades de adicção. Mas o que há por trás de tamanha compulsividade?
por MARA FIGUEIRA

Problema em números
Já fizeram uso de qualquer droga, sem contar álcool e tabaco

Em 2005, a Secretaria Nacional Antidrogas realizou, em parceria com o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo, o Segundo Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil. Para que pudesse ser estimada a prevalência do uso de drogas lícitas e ilícitas no País, foram realizadas 7.939 entrevistas em 107 cidades de todo o território nacional com mais de 200 mil habitantes, além de Palmas, capital do Tocantins. O universo estudado correspondeu ao da população brasileira residente em municípios desse tipo, com faixa etária entre 12 e 65 anos de idade. A seguir, alguns dos dados obtidos.

Drogas mais usadas nas 108 cidades pesquisadas

O percentual da população pesquisada que já fez uso de drogas na vida (22,8%), exceto tabaco e álcool, corresponde a uma população de quase 11 milhões de pessoas. Em pesquisa semelhante realizada nos Estados Unidos, em 2004, essa porcentagem atinge 45,4% e, no Chile, 17,1%.

O percentual para uso na vida de maconha (8,8%) é bem menor que o registrado em países como Estados Unidos (40,2%), Reino Unido (30,8%), Dinamarca (24,3%), Espanha (22,2%) e Chile (22,4%), mas superior à Bélgica (5,8%) e Colômbia (5,4%). Surpreendentemente, o uso na vida de orexígenos (medicamentos utilizados para estimular o apetite) foi de 4,1%. Vale lembrar que não há controle para venda desse tipo de medicamento.

Dependentes de drogas nos municípios pesquisados*

O percentual de dependentes de álcool (12,3%) e de tabaco (10,1%) corresponde a populações de 5.799.005 e 4.700.635 de pessoas, respectivamente. *Os critérios adotados neste trabalho para diagnosticar dependência são menos rigorosos que os adotados pela Organização Mundial da Saúde, o que pode ter inflacionado os números.

Na faixa etária de 12 a 17 anos, foram apresentados relatos de uso das mais variadas drogas, bem como facilidade de acesso a elas e vivência de consumo próximo. Quase 8% dos jovens relataram já terem sido abordados por pessoas querendo vender droga. Um terço da população masculina com idade entre 12 e 17 anos declarou já ter sido submetida a tratamento para dependência de droga.

Trabalhar demais é um dos vícios que tendem a ser mais "aceitos" do que outros, embora isso não exclua o componente do sofrimento presente em qualquer tipo de dependência ou compulsão

TANTO É QUE há até mesmo alguns vícios que tendem a ser mais "aceitos" do que outros, embora isso não exclua o componente do sofrimento, sempre presente em qualquer tipo de dependência ou compulsão. Um workaholic, por exemplo, pode ser admirado pelo chefe e até obter prestígio e dinheiro por meio de seu vício. No entanto, seus relacionamentos com a família e os amigos tendem a se deteriorar com o seu isolamento no mundo do trabalho. Ainda assim, toda a sua dedicação pode não ser suficiente em um mundo de competição cada vez mais acirrada, que gera muita insegurança, por conta dos altos índices de desemprego e precarização do trabalho.

Da mesma maneira, um viciado em exercícios físicos pode ter status e poder de sedução com o seu corpo, mas sua vida emotiva pode estar em frangalhos, apesar da boa aparência física. Justamente por conta dessas múltiplas facetas, abordar a questão da dependência e dos vícios pelo âmbito da Sociologia é essencial para combater um problema carregado de estigmas e preconceitos, mas que pode atingir qualquer pessoa.

"Livrar-se dos tabus impostos pela sociedade é essencial para resgatar a condição humana daqueles que padecem de vícios e trazer essa questão para o debate público de forma racional", afirma Mota. "Embora não disponha de formação clínica, o papel do cientista social na análise, e até mesmo na intervenção nesta área, é fundamental. Aliás, quem ainda acredita que o aumento desses vícios não se constitui um sintoma social?"

 

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