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Sociedade vícios em profusão
Mal-estar contemporâneo
Drogas, bebida, jogo, trabalho, exercício, sexo, comida. Nos tempos atuais, há cada vez mais pessoas viciadas nas mais diferentes possibilidades de adicção. Mas o que há por trás de tamanha compulsividade?
por MARA FIGUEIRA

Atualmente, podemos dizer que eles se apresentam como um reflexo da insegurança endêmica que assola a sociedade contemporânea. Se as pessoas não podem mais prever sua rotina, ao menos o vício oferece alguma segurança por meio da repetição do comportamento compulsivo", explica Mota. Sob essa perspectiva, a questão do vício não deve ser vista de maneira isolada, mas como parte de um malestar contemporâneo que também fica evidente por outros problemas psiquiátricos, como a depressão, o transtorno obsessivo-compulsivo, a síndrome do pânico, a anorexia, a bulimia, etc. Existem, ainda, vários fatores envolvidos no surgimento de um vício: há os biológicos, os psicológicos e os sociais, dependendo do caso.

Entre esses últimos, por exemplo, está a disponibilidade de drogas, a pobreza, a cultura permissiva em relação ao uso de substâncias químicas em um círculo de amizade, a ausência de políticas sobre álcool, tabaco e drogas, além de mudanças sociais abruptas, dentre muitos outros. "Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos com usuários de substâncias, semanas após o atentado de 11 de setembro de 2001, por exemplo, revelou aspectos interessantes sobre a relação entre consumo de drogas e estresse social. A pesquisa verificou que houve um aumento de quase 30% no consumo de álcool, maconha e tabaco nas primeiras semanas posteriores ao atentado ao World Trade Center, entre indivíduos que residiam nos arredores das torres gêmeas", relata Mota.

"Na clássica obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, Friedrich Engels (1820- 1895) já documentava o aumento dramático do alcoolismo entre os trabalhadores explorados da Inglaterra do século XIX. Portanto, existe uma relação entre o meio social e os vícios, sendo que muitas outras pesquisas atestam este componente da etiologia das dependências."

Armas no combate ao vício

No Brasil, existem enormes limitações relacionadas ao tratamento da dependência química, segundo Leonardo Mota. "Muitas instituições que oferecem esses serviços carecem de recursos humanos e materiais. Boa parte da população só vê a solução do problema das drogas pela via da repressão policial, o que já se mostrou ineficaz", explica o pesquisador.

Clínicas particulares são opções apenas para pessoas de classe média alta e muitos dependentes químicos pobres não conseguem vagas para internação. Além disso, os profissionais que trabalham nessa área recebem baixos salários, suas condições de trabalho são precárias e a qualificação técnica deixa a desejar. A atual legislação brasileira sobre drogas, porém, contempla várias ações do poder público para mudar essa realidade. Falta, no entanto, fazê-la acontecer.

 

 

APESAR DE o vício ser o resultado de múltiplos fatores - inclusive sociais, como mencionado -, é interessante notar que, por vezes, é o discurso médico ou psicológico - e não o das ciências sociais - que ganha um destaque maior na hora de interpretar esse fenômeno. Da mesma maneira, a responsabilidade por um indivíduo ter se tornado dependente de alguma substância ou atividade é, muitas vezes, colocada sobre a família, mas não compartilhada com a sociedade em geral. Entender a razão pela qual isso tudo ocorre também nos auxilia a compreender de forma mais ampla a questão.

"O discurso médico tem um enorme poder em nossa sociedade por causa do prestígio da profissão e de seus vínculos com a indústria farmacêutica. A indústria de bebidas alcoólicas também se beneficia da noção de que o alcoolismo depende somente de uma predisposição orgânica inerente ao indivíduo. Além disso, existe um reducionismo psicológico que coloca tudo em termos das relações familiares, como se a família não fosse afetada pelos atuais problemas sociais (embora muitos psiquiatras ou psicólogos reconheçam as limitações das "ciências do singular" e uma pessoa só se recupere de um vício por meio de uma decisão individual). É justamente aí que entra a imaginação sociológica, para nos dizer que não existe um indivíduo isolado de suas contingências sociais", explica Leonardo Mota.

O aumento dos comportamentos compulsivos, dentre eles o vício em compras, sexo e exercícios, estaria associado a um processo de destradicionalização da sociedade

Ainda hoje o vício é visto pelo prisma da moralidade, sendo atribuído à falta de caráter ou fraqueza

Médicos, psicólogos e sociólogos, porém, enfrentam um problema comum ao lidar com a questão da dependência ou compulsão: o fato de, ainda hoje, esse problema ser visto pelo prisma da moralidade, atribuído à falta de caráter ou fraqueza de personalidade da pessoa envolvida. "Apesar dos esforços da comunidade científica em reverter essa apreciação do problema, ela permanece e somente piora o acesso dos dependentes a um tratamento conivente com a dignidade humana", alerta Mota.

Imersos em uma sociedade que, por um lado, estimula o uso de bebidas, de tabaco ou de estimulantes, assim como a prática de exercícios físicos, o consumo ou a competição no trabalho, dentre outras possibilidades, os indivíduos são também, paradoxalmente, desqualificados no meio social quando se tornam dependentes.

"Normalmente, a mesma sociedade que estimula o uso desqualifica a pessoa quando ela fica viciada", sintetiza Mota. É o viciado em compras que iniciou sua trajetória de consumo graças ao crédito fácil. Ou, no bar, o que viola as regras do "bom bebedor", em que eventuais pileques são permitidos e incentivados, mas a decadência social e financeira em consequência do alcoolismo é altamente condenada.

É claro que, como Leonardo Mota lembra, o comportamento de uma pessoa viciada em álcool e drogas geralmente causa uma série de danos interpessoais, provocando ressentimentos entre seus familiares e na comunidade. Portanto, as condenações a que são submetidos os dependentes químicos - ou mesmo os de outra natureza - não surgem ao acaso.

"Por outro lado, a sociedade sempre precisará de bodes expiatórios para escamotear suas próprias contradições e os dependentes químicos são ideais para esse tipo de produção de sentido. Trata-se de um fenômeno complexo que abarca muitos pontos de vista", afirma o pesquisador.

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