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Sociedade vícios em profusão
Mal-estar contemporâneo
Drogas, bebida, jogo, trabalho, exercício, sexo, comida. Nos tempos atuais, há cada vez mais pessoas viciadas nas mais diferentes possibilidades de adicção. Mas o que há por trás de tamanha compulsividade?
por MARA FIGUEIRA

MARA FIGUEIRA é jornalista e escreve para esta publicação.

Mil e cem cigarros. Entre 1999 e 2002, essa foi a quantidade média consumida pelos brasileiros, por ano, no País, segundo dados da Secretaria da Receita Federal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e da Secretaria de Comércio Exterior. Um número que, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, é até animador. Afinal, em 1986 o consumo atingiu a taxa recorde de quase 2 mil unidades, durante uma fase de expansão econômica. Tabagismo em declínio, eis o que os números revelam.

Apesar disso, não há muito mais a comemorar - sobretudo quando o leque de possibilidades que podem levar ao vício é aberto, apresentando cada vez mais opções. Segundo estudos do Conselho Federal de Farmácias, por exemplo, existe no Brasil um estabelecimento para cada 3 mil habitantes, ao passo que o sugerido pela Organização Mundial de Saúde é de apenas uma farmácia para cada 10 mil habitantes. Para especialistas, a estatística indica o uso indiscriminado de medicamentos pela população, um tipo de abuso, aliás, que já virou até tema de livro.

Em Tarja preta, personalidades como Jorge Mautner e Pedro Bial reuniram-se para contar histórias fictícias protagonizadas por personagens assumidamente dependentes de remédios de uso controlado. Porém, além de uso em excesso de tabaco e de medicamentos como Valium e Prozac, o Brasil - como muitos outros lugares do mundo - apresenta também consumo abusivo de álcool, drogas e muitos outros estimulantes.

Na modernidade, quando as garantias de segurança são enfraquecidas, os vícios se proliferam

Se pelo menos 1 milhão de pessoas, em São Paulo, são alcoólatras, segundo dados do Ministério da Saúde, e 1,2% da população entre 12 e 65 anos de 108 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes pôde ser definida como dependente de maconha (de acordo com o Segundo Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, realizado em 2005), não há estatísticas para definir quantos são os viciados em trabalho, em exercícios, em sexo. Cada vez mais, no entanto, eles são retratados em matérias jornalísticas e fundam grupos de ajuda mútua, lançando questões: será esse fenômeno típico da modernidade? O que há por trás no aparente boom de dependentes e compulsivos?

Segundo o sociólogo Leonardo Mota, autor dos livros A dádiva da sobriedade: a ajuda mútua nos grupos de Alcoólicos Anônimos e Dependência química: problema biológico, psicológico ou social?, a noção de vício, nas últimas décadas, ultrapassou a questão do álcool e das drogas ilícitas, embora o seu modelo ainda seja inspirado nesse tipo de dependência. Para ele, existem alguns fatores que indicam que o número de pessoas viciadas, na sociedade moderna, tem aumentado se comparado a períodos históricos anteriores.

"Nos Estados Unidos, existe uma grande indústria em torno do tratamento de vícios, com uma enxurrada de propostas terapêuticas e clínicas de reabilitação para os mais diversos tipos de vícios: sexo, compras, exercícios, internet, drogas, celular, trabalho, dentre outros. Ultimamente, a partir da proliferação de artigos e reportagens na mídia sobre vícios, não creio ser um exagero dizer que os comportamentos compulsivos aumentaram em sua prevalência. Outro indicador é o significativo aumento de vários grupos de ajuda mútua baseados no modelo de Alcoólicos Anônimos, para tratar diversos vícios, compulsões, neuroses e outros problemas emocionais", explica o pesquisador, que recentemente defendeu tese de doutorado intitulada Pecado, crime ou doença? Representações sociais da dependência química, na Universidade Federal do Ceará. Mas o que estaria favorecendo, na sociedade atual, esse tipo de comportamento compulsivo? Leonardo Mota explica que, segundo o sociólogo britânico Anthony Giddens, o incremento dos vícios está associado a um processo de destradicionalização da população.

Nas sociedades pré-modernas, a tradição oferecia um apoio que estava ligado às rotinas da conduta cotidiana que raramente se modificavam. "Na modernidade, quando as garantias de segurança são enfraquecidas, os vícios se proliferam em virtude da ansiedade inerente a este cenário, o que fez surgir essa "sociedade compulsiva". No passado, é claro que existiam vícios, mas não na intensidade em que eles se apresentam hoje.

A imaginação sociológica diz que não há um indivíduo isolado de suas contingências sociais

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