Sociólogo do mês Roberto Bassan Peixoto
Nesta edição da Sociologia Ciência & Vida, trazemos uma entrevista com o sociólogo da Secretaria de Estado da Criança e da Juventude do Estado do Paraná, Roberto Bassan Peixoto, que atua na área de juventude e, particularmente, com a questão da violência juvenil. Identificamos nessa área, que chamamos de "Justiça, setor Carcerário ou Sócioeducativo", uma presença importante de colegas sociólogos, que ampliam o mercado de trabalho da nossa categoria.
|
Natural de Iacri/SP, residindo no Paraná há sete anos. Sociólogo graduado pela Universidade Estadual de Londrina, bolsista PIBIC/CNPq na área de Antropologia com o trabalho "A Juventude na Interface da Violência e das Drogas: vítimas e atores" fez parte do Grupo de Pesquisas "Catálogo sobre Juventudes: (Re)Conhecendo Diversidades e Desigualdades Juvenis". Foi Educador Social em Londrina, Diretor do Centro de Socioeducação de Foz de Iguaçu e Diretor Técnico do Instituto de Ação Social do Paraná, além de ser palestrante especialista em Medidas Socioeducativas, adolescentes em Conflito com a lei e Direitos Humanos. É o atual presidente do Fórum Nacional de Gestores Estaduais do Sistema Socioeducativo (FONACRIAD) e Superintendente de Políticas para Infância e Juventude, Coordenador de Socioeducação da Secretaria de Estado da Criança e da Juventude do Paraná. |
Por que você decidiu fazer Ciências Sociais?
Vislumbrava no curso de Ciências Sociais a possibilidade de ampliar horizontes de conhecimentos e não restringir a atuação profissional a recortes pré-definidos pelo sistema e mercado de trabalho. Essa pretensão se confirmou durante o curso, houve um olhar interdisciplinar, além da formação emancipatória capaz de romper paradigmas e propor enfrentamentos. É um curso atrativo e apaixonante, não se resume às cadeiras da universidade e às bibliotecas. As discussões e aprendizados, desde a graduação, vão para todos os lugares, desde as repúblicas até as rodas de bate-papo, passando pelas esquinas e sebos. Desafiador e inquietante foram as leituras e aprendizados que propiciaram condições diferenciadas para o trabalho nas mais diversas áreas.
O que significa para você atuar como sociólogo no trabalho com a juventude, no que se chama de "adolescente em conflito com a lei"? Defina isso melhor.
Atuar com medidas Socioeducativas é estar imerso em uma área que necessita de metodologia, profissionalismo e atenção privilegiada. São ações diretas com adolescentes que encontram o Estado pela primeira vez, são invisíveis socialmente, e se faz necessário imprimir uma lógica de desafio para romper uma lógica de fracasso imposta a esses jovens e ao próprio sistema de atendimento. Requer conceitos de socioeducação, área ainda pouco estudada pela academia, que traz o aprender a ser e a conviver num contexto de privação de liberdade que exige ações relativas à segurança e gerenciamento de conflitos. Significa vivenciar um campo de intervenção, onde o próprio adolescente é o protagonista, ele é quem define como vai ser a sua história, o sistema se posta como uma oportunidade, um novo olhar sobre a vida dele.
Como é o seu trabalho na Secretaria da Criança e da Juventude? Parece que o Paraná é o único ou o primeiro Estado brasileiro a criar uma secretaria específica para essa finalidade.
A Secretaria de Estado da Criança e da Juventude é uma inovação do Governo do Paraná, que congrega em uma secretaria um olhar especializado para as questões relativas à criança e juventude, sendo um diferencial para essa faixa etária, que historicamente foi segregada pelas políticas públicas. Eu atuo na Coordenação de Socioeducação que é responsável pela gestão dos 18 Centros de Socioeducação e o apoio técnico-financeiro aos programas de medida socioeducativa em meio-aberto, que nada mais é que política pública de atenção ao adolescente em conflito com a lei. Os Centros de Socioeducação executam as medidas socioeducativas de restrição e privação de liberdade de adolescentes. O cotidiano de trabalho se resume em propor ações de intervenção, formação, estudo e conhecimento, além da tomada de decisões que influi diretamente no dia-a-dia de trabalho da comunidade socioeducativa.
Há muitos sociólogos atuando na sua Secretaria? Descreva o trabalho que eles desenvolvem, se possuem plano de carreira.
Infelizmente, ainda existem poucos sociólogos que atuam em nossa Secretaria. Há alguns do quadro próprio do Estado que atuam em algumas unidades. Porém a coordenação de ações protetivas também tem um sociólogo à frente dos trabalhos. Uma boa notícia é a leitura da necessidade desses profissionais nessa área, sendo que a secretaria lançou o programa Atitude que prevê a contratação de 14 profissionais das Ciências Sociais, que atuaram em dez municípios no trabalho junto a comunidades com altos índices de violação de direitos de crianças e adolescentes.
Atuar com medidas socioeducativas requer enxergar adolescentes infratores como sujeitos de direitos
Fale um pouco das medidas chamadas socioeducativas que podem ser aplicadas a adolescentes que cometem atos infracionais. Como um sociólogo pode ajudar nesse trabalho?
As medidas socioeducativas são uma das várias ações inovadoras do Estatuto da Criança e do Adolescente. São ações destinadas à responsabilização e educação dos adolescentes que cometeram atos infracionais e vão desde a advertência, reparação do dano, passando pela liberdade assistida e prestação de serviço à comunidade, até a semiliberdade e a internação (medida que requer a privação de liberdade do adolescente). As medidas socioeducativas são um diferencial em relação à doutrina da situação irregular por colocar o adolescente como um sujeito histórico e social, como parte fundamental do processo socioeducativo. Um sociólogo pode atuar desde a identificação das causas e diagnóstico social que levam um adolescente a cometer o ato infracional, considerando ainda as relações sociais e os fatores socioeconômicos e culturais, até a atuação no próprio atendimento aos adolescentes e suas famílias, além da atuação na gestão e direção dos programas de atendimento socioeducativo.
Quais conselhos você daria para um estudante de Ciências Sociais e futuro sociólogo que queira atuar nessa área que você trabalha?
O primeiro é a necessidade de se buscar conhecimentos específicos da área de socioeducação, que infelizmente nenhuma graduação, seja ela de Direito, Psicologia, Serviço Social ou Ciências Sociais traz entre seus componentes curriculares. O segundo é ter real interesse e compromisso com a causa. Isso requer sair da lógica do senso comum que vê esses adolescentes a partir do seu ato infracional, e passar a enxergálos como sujeitos de direitos, como frutos de uma sociedade injusta e excludente, que só passa a considerá- los a partir dos enfrentamentos e quebras das normas e regras sociais e morais a eles impostas. É estar pronto para se deparar com situações limites, aprender a gerenciar conflitos e buscar novos conhecimentos. Posso dizer que é revigorar-se a cada dia, a cada toque, olhar e sorriso desses meninos, e ver em cada um deles que vale a pena acreditar nos nossos jovens.
 |
LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). Possui diversos livros e artigos científicos publicados sobre a profissão. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br
|