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Juliana Tavares é jornalista e escreve para esta publicação |
Pingo nos is
Quando, em 2001, o grupo de países mais ricos do mundo se reuniu em Davos (Suíça) para realizar o F órum Econômico
Mundial e discutir as políticas que manteriam seus interesses econômicos pelo resto daquele ano, bem distante dali,
em Porto Alegre, 20 mil pessoas dos mais diferentes grupos sociais e de diversos cantos do planeta se organizavam numa operação de contracomunicação que pretendia, entre outras coisas, ser a primeira grande resposta articulada internacionalmente à política neoliberal dominante desde os governos Ronald Reagan (EUA) e Margareth Thatcher (Inglaterra).A iniciativa, batizada de Fórum Social Mundial (FSM), atraiu tanto lideranças sociais quanto intelectuais engajados e militantes de base de todo o mundo e permitiu o surgimento e a consolidação da sociedade civil como um novo ator político em escala mundial.
O congresso foi um sucesso retumbante. A sua realização e a conseqüente repercussão por todo o planeta deixaram evidente que o mundo precisava de um espaço no qual fosse possível aprofundar o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação de entidades e movimentos da sociedade civil que se opunham ao neoliberalismo. Não tardou para surgir a idéia de realizar um segundo FSM, em 2002, também em Porto Alegre e no mesmo período em que aconteceria o Fórum de Davos. Aliado a esse grande evento, outros menores, regionais e locais, aconteceriam simultaneamente em outros países. Ao todo, 50 mil pessoas participaram desta segunda edição do congresso.
"O FSM é uma tentativa de recuperar o sentimento de que o ser humano pode ser mais solidário e menos individualista e competitivo", diz o sociólogo e professor da ECA (USP), Laurindo Lalo Leal filho. Desde a primeira edição até hoje, passaram-se oito anos - e todos eles contaram com uma edição do FSM, que sempre acontece na época do Fórum Econômico Mundial de Davos. Os desafios que se seguiram para a continuidade da iniciativa não se fizeram menores. Nas primeiras edições, eram incontáveis as falhas do congresso - um problema ocasionado, sobretudo, pelo tamanho do evento ter ultrapassado as expectativas dos coordenadores.
A Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, o documento básico ao qual todos os FSM devem se reportar, também provocou resistência entre os organizadores - e até hoje não é uma unanimidade. Isso porque a carta introduziu exigências pouco habituais na ação política, como o fato de o congresso não permitir dirigentes ou dirigidos.
O FSM também se recusa a propor, ao seu término, uma declaração ou um documento final e não possui um porta voz capaz de discorrer sobre um ou vários assuntos. De um lado, isso possibilita a diversidade entre as organizações participantes - uma das principais bandeiras defendidas pelo congresso. "Um programa de ação, por mais amplo que seja, irá se chocar com concepções e ações particulares de pessoas que participam do FSM, o que poderia isolar grupos no interior do evento", explica Lalo Leal.
Mas é justamente essa característica que vem sendo apontada pelos críticos como exemplo da falta de representatividade e força do FSM. O cientista político Bolívar Lamounier, por exemplo, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo sobre o evento de 2007, comentou que o impacto inicial do FSM, por conta desta característica, teria se esvaído. "O evento é mais sintoma que solução", afirmou.
O FSM é uma tentativa de recuperar o sentimento de ser mais solidário e menos individualista e competitivo
O FATO DE o congresso de 2007 ter sido descentralizado, tal como ocorreu em 2006, tendo sido realizado simultaneamente em diversas localidades - e não concentrado em uma cidade - também foi passível de reclamações. "Quando era realizado anualmente, de maneira centralizada e unitária, se transformava num pólo no qual se encontravam milhares de pessoas do mundo inteiro. Isso fazia que ele ganhasse uma força e uma impulsão política maior do que quando se realizam, como nesses exemplos, não uma reunião, mas várias manifestações isoladas", pondera o professor titular e sociólogo do Instituto de filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Ricardo Antunes, autor de vários livros, entre eles O sentido do Trabalho e Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil (editora Boitempo). Em 2008, a descentralização foi ainda maior e objetivou integrar membros de diferentes movimen-tos, numa tentativa de garantir a participação de pessoas que não teriam condições de viajar para um encontro unificado. Ao todo ocorreram mais de 800 atividades que foram desenvolvidas em pelo menos 80 países do globo. Ferramentas on-line de comunicação, como a videoconferência, fizeram a ligação entre eventos distantes. Segundo Francisco Whitaker, membro da comissão brasileira de Justiça e Paz e representante do Conselho Internacional do FSM, na reunião de 2008, uma atividade que aconteceu em São Paulo teve conexão com programas do mesmo tipo na Alemanha, França e Palestina, graças à utilização da rede mundial de computadores. "Cada vez mais, o FSM está ganhando novas dimensões", afirma.
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