Entrevista A vitória de um socialismo sem Marx Em livro recém-lançado, o jornalista brasileiro Antonio Barbosa Filho explica como, pela primeira vez, um índio chegou à presidência da Bolívia, apesar da oposição forte e rica por JULIANA TAVARES fotos PAULO BRASIL
Três meses após a posse de Juan Evo Morales à presidência da Bolívia, o jornalista paulista Antonio Barbosa Filho decidiu visitar o país. Além do carinho que já nutria pela nação por conta da beleza natural e dos vários amigos que já possuía por lá, foi a curiosidade que o levou a observar de perto a nova realidade que estava surgindo naquele pedaço da América do Sul.
A truculência da oposição que encontrou durante um comício em Santa Cruz de la Sierra, principal pólo petroquímico da Bolívia, motivou o repórter a iniciar uma ampla pesquisa bibliográfica sobre o processo político que o país estava vivenciando. Os resultados foram publicados no livro "A Bolívia de Evo Morales", recém-lançado pela editora Livro Pronto. Nascido em Taubaté, no interior de São Paulo, Antonio Barbosa Filho começou no jornalismo aos 14 anos, fazendo pequenas reportagens para as emissoras de rádio locais. Escreveu para jornais da região do Vale do Paraíba, trabalhou no jornal Tribuna da Bahia, foi correspondente da rádio Jovem Pan e, hoje, atua como freelancer para jornais da colônia brasileira na Holanda.
Para Barbosa, a vitória de Morales, o primeiro presidente indígena a governar um país na América do Sul, transformou a Bolívia. Antes havia crescimento econômico, mas os beneficiários eram apenas algumas famílias brancas, donas das terras. A partir do atual governo, Morales passou a investir em programas sociais ousados e inéditos na história do país, como o combate ao analfabetismo, a assistência médica, a reforma agrária, o pagamento de pensões a idosos e estudantes e a perseguição dos políticos corruptos. Como afirma o próprio Barbosa, é uma revolução socialista que nada tem a ver com a teoria proferida por Marx, ou encabeçada por Stalin - e que poderá trazer reflexos inclusive ao Brasil, gerando estabilidade interna e enriquecimento da integração cultural entre os países.
Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre o governo Evo Morales?
Barbosa Filho A idéia do livro surgiu há dois anos. Eu já conhecia a Bolívia, mas estava curioso sobre o processo político depois da posse de Evo Morales em janeiro de 2006. Fui para lá três meses depois da posse, apenas para passar alguns dias. Acabei me empolgando com a efervescência do momento. Decidi me aprofundar no assunto e foram tantos os artigos que fiz enquanto eu completava a pesquisa que decidi colocá-los numa obra.
É possível comparar a vitória de Morales à posse do presidente Lula no Brasil, em 2003?
Barbosa Filho Primeiramente, é preciso entender como era a Bolívia antes das eleições. O aparelho estatal e o comportamento da economia mostravam o fracasso absoluto das políticas neoliberais naquele país. A Bolívia aparecia como o país mais pobre da América Latina: 97% da população vivia na extrema pobreza. A taxa de desemprego real ultrapassava os 30% da população economicamente ativa. A receita per capita era a mais baixa da América Latina e 50% da população não conhecia os serviços básicos, como a eletricidade e a água potável. Altos índices de corrupção, falta de transparência, aproveitamento de bens públicos e acúmulo de riquezas e terras. Essa crise estatal levou o povo a procurar uma opção autônoma. Logo, a expectativa na Bolívia com relação ao governo Morales é ainda maior que a dos brasileiros ao governo Lula.
"A expectativa na Bolívia com relação ao governo Morales é ainda maior que a dos brasileiros ao governo Lula"
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