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Sociólogo do mês Reginaldo Prandi
por LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO

O mercado de trabalho dos sociólogos alarga-se a cada dia. A introdução da obrigatoriedade da Sociologia no Ensino Médio deve propiciar que milhares de jovens também se decidam pela profissão. No ensino superior, quase todos os cursos possuem a disciplina obrigatória. O entrevistado deste mês é um sociólogo renomado, professor universitário e idealizador de um dos maiores Institutos de Pesquisa de Opinião no País da atualidade, o Data Folha, sem falar no fato de que ele trabalha a Sociologia das Religiões.

Reginaldo Prandi é sociólogo há mais de 40 anos. Doutor desde 1977, é um dos maiores especialistas em religiosidade do Brasil, em particular das religiões africanas. Tem diversos livros publicados e é professor da USP. Foi pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) na década de 1970. Contribuiu para o alargamento do mercado de trabalho dos sociólogos quando ajudou na criação do Instituto Data Folha de Pesquisa, em 1982. É um grande defensor da profissão de sociólogo.

Porque decidiu fazer Ciências Sociais?

Em 1964, vim do interior para São Paulo para continuar os estudos. Fazia medicina veterinária na USP e nem tinha idéia do que eram as Ciências Sociais. Edmilson Bizelli, primo de meu pai, hoje professor de Sociologia na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), estava terminando Ciências Sociais e se preparando para ir para o Chile fazer o mestrado na escola ligada ao Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). Outra prima, Marina Ruiz, agora professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), se preparava para o vestibular de Ciências Sociais e ficara com os livros e cadernos do Edmilson. Acabei acompanhando Marina no vestibular, e juntos ingressamos na faculdade de Filosofia da Fundação Santo André, recém-criada. Gostei, deixei o curso de veterinária e assim começou tudo: sem nenhuma razão especial, por acaso. Culpa dos primos!

Projetos da faculdade permitiu-me, desde cedo, conhecer a prática da pesquisa científica

Descreva o que significa para você atuar como sociólogo?

Desde o terceiro ano de faculdade, trabalhei em grandes projetos de pesquisa em Ciências Sociais, dirigidos por professores experientes, o que me permitiu desde cedo conhecer a prática da pesquisa científica nos seus mais diferentes aspectos. Em 1969, muitos professores foram aposentados pelo regime militar e impedidos de continuar na universidade. Um grupo deles fundou o Cebrap, que veio a ser muito importante na história das Ciências Sociais na América Latina. Desde 1971, também lecionava em cursos universitários. Foi o começo de uma definição de carreira e de vida que me envolve há mais de trinta anos: pesquisar, ensinar, escrever, publicar. Atuar como sociólogo para mim implica o trabalho nessas áreas. Também tive algumas experiências profissionais não acadêmicas, que considero muito importantes na minha formação.

Você é um dos nossos colegas de maior respeitabilidade e visibilidade intelectual, seja como autor de diversos livros ou como professor da USP. Comente seu trabalho sobre a questão da religiosidade dos brasileiros, particularmente sobre as religiões de origem africana.

Tudo começou em 1971, no Cebrap, com Procópio Ferreira. Estava recém-formado. O primeiro projeto em que trabalhei era um estudo sobre as religiões brasileiras. O Cebrap se preocupava com as diferentes instituições que poderiam influir no desenvolvimento econômico e social no Brasil e demais países latino-americanos. A religião era uma delas. Havia uma divisão de trabalho na equipe de religião, e me cabiam as religiões afro-brasileiras. Anos depois, para a livre-docência, retomei os estudos das religiões de origem africana, e desde então acabei me especializando nelas. Ao mesmo tempo, me especializei em metodologia de pesquisa e escrevi também sobre educação, força-de-trabalho e subemprego, opinião pública e outros aspectos do Brasil. Meu trabalho acabou derivando para a mitologia e daí para a literatura de ficção. Mas a Sociologia continua presente.

Ainda sobre seu trabalho, historicamente você foi um dos idealizadores e fundadores do Instituto Data Folha de Pesquisa de Opinião. Conte essa sua experiência.

Em 1982, organizei junto ao comitê eleitoral do Lula, então candidato ao governo do Estado, um grupo de pesquisa. Foi quando desenvolvi um método de pesquisa eleitoral que simplificava bastante o trabalho de campo, agilizando a pesquisa, mas mantendo o rigor e a precisão científicos. Perto da eleição, Vilmar Faria, meu colega do Cebrap, e depois da USP, me apresentou ao Sr. Octávio Frias, Publisher da Folha de S. Paulo. Ele queria fazer uma pesquisa eleitoral em diversos estados do Brasil. Naquela época, a apuração dos votos, manual, demorava muitos dias. Com uma pesquisa na mão, a Folha poderia antecipar os resultados.

Sempre tive posição contrária à divisão entre sociólogos acadêmicos e sociólogos profissionais

Fui convidado para dirigir o trabalho. Fizemos os levantamentos. Pela primeira vez, um jornal brasileiro anunciou, no dia seguinte ao da eleição, o nome dos eleitos. Acertamos em cheio. Passadas as eleições, repetimos o uso da metodologia na Folha de S. Paulo em pesquisas de opinião, criando novos procedimentos metodológicos. Para montar o Data Folha, levei alunos nossos da USP e da PUC, como os sociólogos Antônio Manuel Teixeira Mendes, que dirigiu o instituto por muitos anos e hoje é superintendente da empresa que mantém a Folha, e Gustavo Venturi, atualmente professor de metodologia do Departamento de Sociologia da USP. Com o Data Folha, também tivemos a possibilidade de desenvolver novos procedimentos de informática e de análise estatística.

Como você vê em geral o mercado de trabalho para o sociólogo no Brasil atualmente, destacando alguma área específica que entende como mais concorrida?

Sempre houve certa divisão entre sociólogos acadêmicos e sociólogos profissionais. Sempre tive posição contrária a essa separação, mesmo porque trabalhei nas duas áreas ao longo de toda minha carreira. De todo modo, são nesses dois campos que o sociólogo em geral atua: como professor e pesquisador na universidade, e como pesquisador ou consultor em institutos privados. As ONGs, que surgiram com a idéia do terceiro setor, acabaram absorvendo muitos de nossos colegas. Também estão presentes em empresas de planejamento, na imprensa, nas assessorias governamentais e legislativas. Têm um lugar especial na propaganda e marketing.

Que recomendações gerais você daria para os estudantes de Ciências Sociais de hoje, que pretendem tornar-se sociólogos no futuro?

O curso de Ciências Sociais é um curso de leitura. Aluno que não lê estará fora. Hoje, uma prática formativa importante é a iniciação científica. São duas as recomendações em que sempre insisto: leitura e iniciação científica. Claro que a pós-graduação lato senso e o mestrado e doutorado se tornaram praticamente obrigatórias.

 

LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). Possui diversos livros e artigos científicos publicados sobre a profissão. EMAIL: lejeunemgxc@uol.com.br

 

 

 

 

 

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