Relações raciais O debate representa hoje a retomada de velhas questões, conhecidas de todos, como: as formas de inserção do negro no mundo do trabalho, a ideologia racial que sustenta a discriminação, as desigualdades e o preconceito por CLEITO PEREIRA DOS SANTOS
Nos anos 50, os sociólogos Florestan Fernandes e Roger Bastide iniciaram uma série de estudos patrocinados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), e que tinha como objetivo verificar o suposto caráter democrático das relações raciais no Brasil. Estes estudos culminaram na modificação substancial da interpretação, até então vigente, acerca das relações raciais no contexto brasileiro. De uma sociedade tida como racialmente resolvida, passamos à constattação de que os grupos raciais se posicionam diferentemente no interior da ordem social e de que a distribuição das posições sociais está ligada ao preconceito e à discriminação racial praticada contra os negros.
A economia competitiva desenvolveu- se como conseqüência imediata da abolição da escravidão. Em outras palavras, o negro sofreu as conseqüências diretas de um processo marcado pelas desiguais condições de acesso às novas ocupações econômicas advindas da mercantilização da economia.
Isto acarretou a inserção desigual dos vários grupos raciais na economia competitiva, ressaltada por Florestan Fernandes (1978) como processo de racionalização econômica em curso, visando a constituição de um novo modelo de organização da vida econômica e social. Nesse processo, evidentemente, ainda segundo o autor, a integração do negro foi retardada, uma vez que o processo imigratório, colocado em prática pelo governo nacional, priorizou a utilização de braços europeus dentro de uma concepção, então em voga, de que os imigrantes brancos representavam o advento da civilização e da modernização da sociedade nacional.
NESTE SENTIDO, Florestan demonstra que o desenvolvimento da economia competitiva em São Paulo solapou as expectativas de negros e mulatos, uma vez que esses estratos raciais não estavam preparados, dentro de um quadro de concorrência, para enfrentar a adaptabilidade do trabalhador importado para aquelas tarefas condizentes com a nascente economia capitalista.
Dessa forma, o negro foi empurrado para os setores mais subalternos no interior da sociedade, pois o trabalho livre não lhe propiciou as condições de inserção nos setores dinâmicos da economia competitiva. Por outro lado, os trabalhadores imigrantes tiveram a seu favor amplas possibilidades de ascensão social, em função das condições sociais inerentes à economia de mercado nascente.
Evidente que o sociólogo atribui ao modo como se organizou a produção tipicamente competitiva o papel de canalizador das tensões vividas pela não incorporação do negro ao mercado de trabalho. De certa forma, ainda segundo o autor, temos a sobrevivência de arcaísmos do passado no interior de uma ordem social competitiva. A discriminação racial e o preconceito contra os negros configuram reminiscências do passado que perderiam o poder classifi- catório numa economia de mercado.
Portanto, enquanto arcaísmo do passado, a discriminação racial e o preconceito constituem elementos fundantes de uma estratificação social, segundo critérios bem definidos de cor da pele. Paulatinamente, as transformações na economia competitiva provocarão o desaparecimento desses resquícios, uma vez que a mesma está fundada em critérios racionais de competitividade, que não comportam arcaísmos de outras épocas. Dessa maneira, a interpretação fornecida por Florestan pressupõe a compreensão da ordem social capitalista como expressão exata dos valores democráticos e da igualdade das oportunidades fundados no critério racional da competência. Como podemos perceber, ele apresenta uma interpretação dinâmica da realidade brasileira e, portanto, considera a eliminação das barreiras raciais um acontecimento necessário ao pleno desenvolvimentodaeconomiacompetitiva.
O trabalho livre não propiciou ao negro as condições de inserção nos setores dinâmicos da economia competitiva
ESTA TEORIA leva à explicação do racismo, no contexto da sociedade de classes, como algo que tem sua raiz no passado. Na economia competitiva, sobrevivem elementos da organização social anterior, os quais constituem anomalias que o desenvolvimento posterior da economia de mercado tratará de corrigir, tornando o processo de ascensão-integração do negro possível nos quadros da ordem social capitalista. Nessa perspectiva, "(...) após a abolição do escravismo, argumenta Fernandes, a sociedade herdou do antigo regime um sistema de estratificação racial e subordinação do negro. (...) O modelo tradicional e assimétrico de relações raciais, perpetuado pelo preconceito e pela discriminação, é considerado uma anomalia da ordem social competitiva. Em conseqüência, o desenvolvimento ulterior da sociedade de classes levará ao desaparecimento do preconceito e discriminação raciais. A raça perderá sua eficácia como critério de seleção social e os não-brancos serão incorporados às posições "típicas" da estrutura de classes".(Hasenbalg, 1979: 75-6).
| Mercado de Trabalho e racismo |
Falar sobre o mercado de trabalho no Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, é, antes de tudo, nos reportarmos ao longo processo de constituição da ideologia racial implementado por intelectuais e pelas classes. Isso significa que, esgotada a possibilidade de continuar com o trabalho escravo, tratava-se de "branquear" o país, visando o advento de uma sociedade nos moldes ocidentais. Civilização era tomada como sinônimo de branco e europeu. Esse rumo fica evidenciado por meio da intervenção do Estado no sentido de financiar a importação de mão-de-obra da Europa para trabalhar nos cafezais e na nascente indústria no Sudeste, especialmente em São Paulo. O mercado de trabalho, estruturado de cima para baixo pelo poder estatal, privilegiava os indivíduos brancos e dificultava o acesso de outros grupos raciais, tendo em vista a crença, então em voga, a respeito da superioridade dos brancos. Nesse sentido, uma das características marcantes do mercado de trabalho brasileiro até hoje é a desigualdade de oportunidades entre os grupos raciais. As estatísticas revelam um quadro aterrador acerca da maneira como brancos e negros estão distribuídos na estrutura ocupacional (Veja quadro Estrutura ocupacional).
Podemos afirmar a existência de uma reserva de mercado em determinadas profissões que privilegia alguns indivíduos em função da cor da pele. É o que podemos constatar em amplos setores profissionais na sociedade capitalista brasileira. Enquanto algumas ocupações são deliberadamente preenchidas por brancos, onde estão situados os maiores rendimentos e as melhores oportunidades, outras abrigam aqueles indivíduos com menores possibilidades escolares e profissionais, como é o caso dos negros, auferindo rendimentos inferiores.
De acordo com os dados do Provão/ 2000-Inep/Mec, dos formandos que fizeram o provão em 2000 nos cursos de Administração, Direito, Medicina Veterinária, Odontologia, Medicina, Jornalismo e Psicologia, dentre outros, mais de 80% é constituído por brancos, enquanto apenas 2,2% dos universitários são negros. (Folha de São Paulo. 14/01/2001). (Veja quadro Desigualdade em números).
A partir das universidades, podemos ter uma visão perfeita de como estará constituído o mercado de trabalho em algumas profissões. Este funcionará como um espaço de segregação racial uma vez que, concluir o curso superior significará melhores oportunidades de trabalho para brancos, o que nos leva a suspeitar que o Estado, por meio de políticas públicas, notadamente educacionais, alimenta este processo. E, apesar da lei considerar a discriminação, crime, sabe-se que existe uma preferência por parte da maioria do empresariado capitalista em um tipo de profissional onde o quesito cor é bem significativo.
O desafio é ultrapassar o preconceito por meio de profundas mudanças culturais e sociais. No entanto, para que isso ocorra, é fundamental tomarmos consciência das marcas impressas pelo racismo (baixa estima, medo, insegurança, desconfiança, temor) para, de vez, suprimi-lo.

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