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Quilombos contemporâneos
De lugar para refúgio de escravos fugitivos a movimento social. Qual a realidade hoje das comunidades rurais negras?
por Cathia Abreu

COM DIREITOS assegurados, os "quilombos" hoje são notados porque persistem com uma nova proposta de organização social. É o que pensa o sociólogo Dagoberto José Fonseca, do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Faculdade de Ciências e Letras, da UNESP, localizada em Araraquara, São Paulo, onde coordena o Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN). À frente também do Laboratório de Estudos Africanos, Afro- Brasileiros e da Diversidade (LEAD), do alto de sua experiência no assunto, para ele, os quilombos surgem como uma proposta alternativa notável no sistema, relevante desde o período colonial até hoje. Com uma proposta de outra sociedade - em que a terra possa ser de todos e que possa se estabelecer enquanto bem e valor comunitário, essas organizações sociais trazem a noção de subsistência segundo a qual o grupo produz excedentes que não firam a Terra. "Hoje, os quilombos são ainda comunidades símbolo de resistência, mas também se revelam enquanto dado da tradição. O quilombo não estabeleceu a ruptura com a África. Em relação à nossa sociedade, ele apareceu como resistência cultural - para a população da cidade enquanto espaço político. Para o negro urbano, o quilombo é um lugar de tradição. Mas é muito mais, é um espaço político e não só exótico", explica o sociólogo.

As comunidades remanescentes saem do ponto de vista de grupos passivos
formados somente para preservar seus antepassados

Já quando o assunto é exclusão social, Dagoberto José Fonseca traz à tona a história da formação dos quilombos, como Palmares, e revela que desde a sua formação já existiam negros, brancos e índios vivendo nesses refúgios, e diz que a constituição dessas comunidades, de certa forma, tem ligação com a segregação. "Tem sim uma relação discriminatória da época em que foram formados, como refúgio, com outra proposta que não aquela escravista. No presente, porém, ainda há discriminação em relação aos quilombos. Em alguns lugares ainda não existe, por exemplo, a presença contumaz do Estado, alguns quilombos continuam isolados. Se antes foi uma estratégia de fuga, as leis de 1988 resgataram o processo africano; e os negros trouxeram uma nova proposta de sociedade que inclui elementos outros, índios e brancos", afirma.

Portanto, para Dagoberto José Fonseca, a causa do negro no Brasil não é um projeto isolado, mas hegemônico de sociedade, que diz respeito a uma grande parcela da população, cerca de 90 milhões de brasileiros.

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