Entrevista Da roça para o mundo Para José de Souza Martins, compreender e expor as formas injustas de inclusão é o que se constitui na tarefa do sociólogo Por Juliana Tavares
Ele entende das complexidades do homem simples. E confessou ter decidido pela Sociologia, embora tenha flertado com a História. Professor titular aposentado do departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), José de Souza Martins foi professor titular da Cátedra Simón Bolivar da Universidade de Cambridge, Inglaterra, (1993/1994) e membro de Trinity Hall.
Durante doze anos, foi membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário das Nações Unidas contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, cargo que ocupou até dezembro de 2007. É um dos poucos sociólogos especializado em escravidão do Brasil – e por isso tem propriedade quando diz que é um equívoco dizer que, aqui, o trabalho escravo foi substituído pelo trabalho assalariado. Na ocasião do lançamento da segunda edição do seu livro A sociabilidade do homem simples, Martins cedeu esta entrevista à revista Sociologia Ciência & Vida, e nos presenteou com respostas diretas e repletas de humanidade. Leia a seguir:
Como se deu a sua escolha pela área da Sociologia?
Martins – Quando terminei o secundário, fiz o exame de admissão para o curso normal (que era o curso de formação de professores primários) com a intenção de, tornando- me professor normalista, fazer concurso para o magistério em escola rural. Eu havia morado na roça e feito o final do curso primário num grupo escolar em que boa parte dos alunos, como eu, vinha da roça. Quando ingressei no curso normal, eu tinha grande interesse em História, mas não tinha planos nem meios de ir para a universidade, pois eu trabalhava e estudava. Nesse curso, tive uma excelente professora de História e uma excelente professora de Sociologia. Fiquei dividido entre ir para o magistério rural ou tentar a universidade numa dessas duas matérias. Acabei decidindo pela universidade e pelas Ciências Sociais, influenciado pelas leituras que fiz no curso de Sociologia e, também, depois de ouvir uma conferência da professora Noemi Silveira Rudolfer, professora de Psicologia Social na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo (USP).
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Como você enxerga a Sociologia nos dias atuais? Quais são as principais dificuldades por quais a área passa?
Martins – A Sociologia não passa por dificuldades; é a sociedade que passa por dificuldades e também os sociólogos: a sociedade, porque é propria do mundo contemporâneo a sucessão de crises sociais, mais graves ou menos graves; os sociólogos, porque nem sempre têm o sentido da urgência na clareza de compreensão dessas crises. O grande desencontro entre os sociólogos e a sociedade, nos dias de hoje, especialmente aqui no Brasil, está no viés político e militante com que a Sociologia é por muitos deles utilizada. Muitos jovens sociólogos confundem o emprego e o ensino da Sociologia com trabalho missionário de difusão de idéias partidárias, o que a empobrece e mutila. Outros tendem a fazer uma espécie de sucedâneo da Sociologia que se fazia nos anos 1950 e 1960, em que os sociólogos haviam dado clara preferência ao estudo dos fatores de superação do bloqueio da mudança social. Mas o longo período da ditadura militar, a derrota, pela violência, de todos os grupos insurgentes desse período, institucionalizou o repetitivo e inibiu as transformações. Em conseqüência, os sociólogos acabaram dominados pelo interesse nas transformações, que são poucas e pouco significativas, enquanto a realidade social está dominada pela permanência e pelo repetitivo. A Sociologia não tem contribuído significativamente para a compreensão desse predomínio, e suas amplas repercussões sociais e políticas menos ainda têm contribuído para que a sociedade compreenda a difícil e complicada dialética dos processos sociais contrapostos, de mudança e repetição. No futuro, a Sociologia terá que ser menos engajada no partidário e mais engajada no propriamente social, no sentido de oferecer ao homem comum um conjunto de informações sociológicas que lhe permita administrar no dia-a-dia suas possibilidades de intervenção nos processos sociais, para não sucumbir à impotência política e ao conformismo social.
“ Muitos jovens sociólogos confundem o emprego e o ensino da Sociologia com trabalho missionário de difusão de idéias partidárias ”

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