Exclusivo online A descoberta dos rendimentos potencializados A classe média brasileira tem trocado gradativamente as aplicações nas tradicionais cadernetas de poupança por investimentos em ações na Bolsa de Valores, mas a crise pode levá-los de volta aos investimentos mais seguros por Rodrigo Gallo

A mudança na forma de poupar, que pode parecer pequena, é considerada uma grande revolução na maneira como os trabalhadores administram o orçamento e decidem o destino do dinheiro. Além disso, representa a inserção das pessoas de renda mais modesta no mercado financeiro de risco, o que também modifica as relações econômicas de forma geral - principalmente em países emergentes como o Brasil, onde ainda existe certo desconhecimento desses mecanismos de rentabilidade.
Até pouco tempo, a simples idéia de entender o funcionamento do dia-a-dia da Bolsa de Valores, com as intensas discussões especulativas da atividade dos investidores, era impensável para muitas pessoas. De forma geral, o mercado de ações era incompreensível para muitos trabalhadores. Porém, hoje, os brasileiros com rendimentos mais baixos já estão se interessando pelo assunto e, com isso, inserindo-se aos poucos nas atividades de risco. Contudo, a crise econômica global pode modificar novamente essa lógica de investimento, se demorar muito tempo para terminar.
O crescimento deste tipo de aplicação é nítido há algum tempo - bem anterior ao temor de uma nova recessão em escala internacional. A prova disso é que cada vez mais empresas lançam suas ações à venda na Bolsa e sempre há uma grande demanda por esses papéis. Algumas corretoras de investimento garantem que a procura por este tipo de aplicação por parte da classe média tem crescido em média 30% por ano, com uma queda sensível de procura desde setembro (quando os efeitos da crise começaram a assustar as pessoas).
A prática de vender ações no mercado financeiro não é algo tão novo. Na realidade, o primeiro registro de oferta de papéis no mundo data do início do século XVII. Em 1602, a Companhia Holandesa das Índias Orientais instituiu a venda dos primeiros títulos em um estabelecimento "comercial", em Amsterdã, criando assim a primeira bolsa de valores da história.
Porém, a grande transformação, no Brasil, começou em 2002, quando a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lançou o programa 'Bovespa Vai Até Você', com o intuito de popularizar o mercado de investimentos de risco no país. A idéia era esclarecer as pessoas quanto às possibilidades de lucro desse tipo de aplicação, além de criar uma ferramenta mais simples para realizar as transações de títulos. O objetivo era mostrar que qualquer pessoa poderia comprar ações a qualquer momento, com o apoio de corretores.
E, em pouco tempo, descobriuse que essa proposta realmente faria sucesso, pois havia dois fatores de influência para atrair os trabalhadores à bolsa: o crescimento gradativo da renda e, ao mesmo tempo, o controle da inflação, que reduz os ganhos da poupança.
Essa dinâmica simplificada foi efetivada por meio dos clubes de investimentos, grupos formados por um total de 3 a 150 pessoas e compostos por familiares, amigos ou colegas de trabalho, sob supervisão de uma corretora de investimentos. Com isso, os interessados poderiam aplicar um valor fixo por mês na compra dos papéis e, assim, buscar rendimentos. Esse valor a ser aplicado é definido pelos próprios cotistas, mas o assessor de aplicação decide quais ações são mais interessantes para aquisição no momento.

O clube dos funcionários da Força Sindical, por exemplo, permite que as pessoas apliquem a partir de R$ 29 por mês - um valor que não pesa muito no bolso e que, ao mesmo tempo, pode representar um rendimento superior à poupança ou aos fundos de renda fixa.
O Plano Real trouxe estabilidade econômica e força à moeda nacional, que chegou a ter a mesma cotação do dólar |
O sucesso dessa iniciativa pôde ser percebido ao longo do tempo. Quando o programa começou, havia apenas 380 clubes de investimento cadastrados e aptos a funcionar. De acordo com um relatório da Bovespa, datado de 31 de agosto de 2007, este número já havia subido para 1.834: um crescimento de 382,63%. E, agora, no total, são mais de 145 mil investidores ligados a este tipo de aplicação lastreada nos grupos de amigos.
A grande facilidade é que o investidor não precisa necessariamente entender perfeitamente do mercado de ações, pois sempre há o auxílio de uma corretora de investimentos. Tanta praticidade tem levado a classe média a ingressar cada vez mais no confuso e lucrativo mercado de especulações e dos títulos e papéis. Além disso, há o atrativo da possibilidade de alta rentabilidade das ações, ante a queda dos ganhos de outras formas convencionais de aplicação, como a poupança e o dólar.
De qualquer forma, essa falta de conhecimento profundo do mercado de ações causou medo aos pequenos investidores neste semestre, por conta da crise. O problema é que, justamente por desconhecer os mecanismos da economia global, esses aplicadores correram às bolsas para vender seus papéis por preços baixos - com o temor de que poderiam sofrer mais desvalorizações.
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