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Sociólogo do mês Paulo Roberto Martins
por LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO

Os profissionais da Sociologia fazem seus estudos e pesquisas em áreas cada vez mais inovadoras. Com isso, vão alargando o campo de trabalho para futuros profissionais. A nanotecnologia é uma realidade cada vez mais presente e, de forma inédita, inauguramos a presença de nossos profissionais nessa área, com os trabalhos do colega Paulo Roberto Martins, a quem entrevistamos para esta edição.

Paulo Martins é sociólogo com mestrado em Desenvolvimento Agrícola na UFRRJ e é Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. É pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo há 22 anos e coordenador há quatro anos da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente - RENANOSOMA. No CNPq é Coordenador do grupo de pesquisa "Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente".

É membro do boarder do Comitê de Pesquisa 23 "Ciência e Tecnologia" da International Sociological Association - ISA. Faz parte da ONG "Sociólogos Sem Fronteiras Internacional", onde é seu diretor e Coordenador no Brasil. Foi Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo - Sinsesp, onde atualmente é vice-presidente.

Porque decidiu fazer Ciências Sociais e ser sociólogo?

Decidi fazer Ciências Sociais como uma opção profissional que poderia me proporcionar trabalhar com pesquisas que envolvessem as relações entre sociedade e meio ambiente. Meu primeiro estágio foi em um projeto intitulado "Pró-Mogi". Em decorrência de uma grande poluição causada pela empresa produtora de papel e celulose, então chamada Champion, localizada no município de Mogi Guaçú, que esterilizou o rio por centenas de quilômetros. O projeto visava repovoar o rio Mogi Guaçú e atuar junto às diversas comunidades de pescadores artesanais existentes na região.

O que significa para você atuar como sociólogo?

Para mim significa entender o processo de construção e de reprodução das relações sociais, suas causas e efeitos e atuar para a modificação das mesmas.

Você foi pioneiro como sociólogo na pesquisa sobre nanotecnologia no Brasil. Como foi essa experiência? O que consiste propriamente o seu trabalho.

Sim, fui pioneiro nessa área. Isto se deu em função das minhas atividades que já realizava sobre trajetórias tecnológicas e meio ambiente, estudando o caso da biotecnologia. A partir de 2002 passei também a me dedicar a trajetória tecnológica da Nanotecnologia. O meu trabalho sobre nanotecnologia tem se desenvolvido em três áreas, a saber

1. Transformá-la em um objeto de estudos das Ciências Humanas e em especial das Ciências Sociais no Brasil. Para tanto constituímos uma rede de pesquisas em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente no Brasil - RENANOSOMA que conta com 35 pesquisadores, na sua maioria doutores de 12 Estados brasileiros e de 22 Instituições de ensino e pesquisa e têm as seguintes linhas de pesquisas: a) impactos sociais, ambientais e econômicos; b) nanotecnologia e agricultura; c) ética e nanotecnologia; d) comunicação e nanotecnologia e e) nanotecnologia e saúde, segurança e meio ambiente do trabalho;

2. Realizar pesquisas sobre nanotecnologia no Brasil. Produto das pesquisas realizadas, já editamos dois livros "Revolução Invisível: Desenvolvimento recente da nanotecnologia no Brasil" e "Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente em São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal", ambos por mim organizados e editados pela Xamã Editora. Nossas pesquisas continuam. Agora estamos investigando os impactos da nanotecnologia na cadeia da soja no Brasil;

3. Realizar divulgação cientifica sobre nanotecnologia. Isso realizamos por meio do projeto que coordeno chamado "Engajamento Público em Nanotecnologia", que tem por objetivo informar e discutir nanotecnologia com o público não especializado. Fazemos isso por meio de atividades presenciais onde realizo palestras sobre este tema (já realizei mais de 40 em todo o país) e atividades virtuais pela Internet, realizando bate papos três vezes por semana. Informações disponíveis em nosso site www.nanotecnologia.iv.fapesp.br

Seja no Brasil ou em outro país, há mais sociólogos que atuam nesse campo de pesquisa?

Sim, no caso brasileiro, conseguimos aglutinar uma série de sociólogos, a saber: Gilson Lima (IPA - Porto Alegre); Marcos Antônio Mattede (FURB, Blumenau); Noela Invernizzi (UFPR); Ruy Braga (Departamento de Sociologia da USP), Ricardo de Toledo Neder (UnB), Fátima Portilho (CPDA - UFRRJ); Tânia Magno (UFS); Jonatas Ferreira (UFPE); Edmilson Lopes Jr. (UFRN), Marcelo Seráfico (UEAM). No caso do por LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO exterior temos o José Manuel Rodrigues Victoriano da Universidade de Valência, Espanha; Kenneth Gould do Brooklyn, do College Cuny, New York; Guillermo Foladori, da Universidade Zacatecas, México, são alguns exemplos.

Como vê o mercado de trabalho para o sociólogo nessa área?

Creio que seja promissor, pois aqui estamos falando de produzir conhecimentos no campo das Ciências Sociais que possam fazer com que a sociedade possa entender e se preparar para a próxima revolução industrial que a nanotecnologia carrega consigo. Estamos produzindo conhecimentos sobre os impactos ambientais, sociais, econômicos, éticos, políticos da nanotecnologia que vão afetar nossa sociedade e o meio ambiente e também a própria espécie humana, já que a possibilidade de criação de algo denominado de "pós-humano" vem sendo discutido. Portanto, aqui há um imenso espaço para o sociólogo.

A possibilidade de criação de algo denominado de "pós-humano" vem sendo discutido

Que recomendações daria aos cidadãos, em uma realidade em que a nanotecnologia já esta presente no seu dia-a-dia?

A história da introdução de novas tecnologias tem demonstrado que nem sempre a sociedade como um todo ganha. Sempre teremos grupos sociais que ficam à margem. Exemplo disto são programas governamentais de inclusão digital para parcelas da população brasileira. No futuro teremos os nano excluídos?

É preciso estar atento para o que seja meramente propaganda/otimismo inconseqüente de que a nanotecnologia vai resolver tudo, inclusive a fome no mundo, do que realmente ela possa realizar. Em princípio, realizar as mesmas coisas que já fazemos, porém utilizando menos energia e matéria prima é um grande avanço ambiental.

Mas quem irá deter estes conhecimentos? O cenário que está se construindo é que isto ficara nas mãos das 500 maiores empresas que já dominam as tecnologias hoje ditas de ponta.

As nanotecnologias já estão presentes em nosso dia-a-dia. O micro computador é exemplo disto. Sua capacidade de processamento está diretamente ligada à nanotecnologia, assim como a de armazenamento. E já são mais de 600 produtos no mercado global.

Ocorre é que recursos para se desenvolver processos e produtos existem e são imensos. Só o governo Norte Americano em 2007 investiu US$1,5 bilhão de dólares. Mas para estudos relativos a toxicologia, ecotoxicologia, impactos sociais, ambientais e éticos, os recursos investidos foram não mais de U$38 milhões de dólares. No caso brasileiro os recursos para estes estudos têm sido zero, ao longo deste século.

 

LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). Possui diversos livros e artigos científicos publicados sobre a profissão. EMAIL: lejeunemgxc@uol.com.br

 

 

 

 

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