Renovação Necessidade do sagrado Movimento católico organiza grandes eventos em locais não-religiosos, como iniciativa diante de evasão gradual e demanda por experiência sensorial de Deus por EDUARDO GABRIEL
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Um provérbio bastante conhecido no Brasil diz que "mulher, futebol e religião não se discutem". A proposta de pensar o campo religioso brasileiro, para além de subverter essa tríade síntese da cultura do País, nos remete a uma enormidade de conceituações sócio-históricas que não são raras em quaisquer discussões para interpretar aquilo que foi considerado "o maior país católico do mundo", até mesmo com frases motivadoras como: "Deus é brasileiro". Ou ainda, para frear o crescimento pentecostal no estado com menor número de católicos, frases como: "O papa é carioca".
O cenário que se monta vai muito além da força do báculo papal. Temos aqui um mostruário religioso em atacado para quem procura confortos e curas espirituais no varejo. Desde a primeira missa de frei Henrique de Coimbra em solo do Novo Mundo, como nos é contado nos livros didáticos, até o desmembramento oficial entre Igreja e Estado na Proclamação da República, passando pelas construções das grandes catedrais da fé da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do bispo Edir Macedo, voltando para a retomada de fôlego carismática das novas comunidades católicas, com construções para abrigar cem mil pessoas em shows dos padres cantores, e voltando-se, ainda, para os famosos centros das religiões afro-brasileiras, cadinhos da mitologia dos orixás - candomblé e umbanda -, considerados genuínos refratários da identidade nacional.
Diante desse efusivo mar de crenças - ou pluralismo religioso, como querem algumas canônicas literaturas -, as interpretações da sociologia da religião no Brasil parecem flexionadas a apresentar o dinamismo religioso com vistas ao catolicismo naufragante, sendo o Brasil uma nação de três quartos da população declarantes católicos.
O Brasil agora é um país que já possui seu primeiro santo, Frei Galvão, da cidade de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, entre as cidades de Aparecida e Cachoeira Paulista. Ou seja, entre o santuário de Nossa Senhora Aparecida e a sede da comunidade Canção Nova, que formam o chamado Trajeto Turístico Religioso. Podemos lembrar ainda o polêmico episódio do chute na santa, quando um bispo da Igreja Universal, durante uma pregação televisiva, deu chutes na imagem de Aparecida, a padroeira do Brasil.
É preciso observar que os dados do Censo 2000 indicaram que a população que se declarava católica correspondia a 73,8% da população brasileira, enquanto em 1991 esse valor era de 83,3%, o que significa diminuição de 9,5%. A porcentagem da população que se declarava evangélica em 2000 era de 15,5%. Em 1991, era de 9,1%, portanto, aumento de 70,7%. No que diz respeito aos "sem-religião", a porcentagem registrada em 2000 era de 7%, ao passo que em 1991 esse valor correspondia a 4,8%.
É, pois, dentro desse contexto religioso, em que a perda da hegemonia da Igreja Católica é o traço mais significativo, que a Renovação Carismática Católica (RCC), hoje o principal movimento católico, tenta ser um flanco de contenção dessa paulatina evasão. Se lembrarmos os censos de 1970 e 1980, em que respectivamente 91,8% e 89% da população brasileira se declarava católica, acentua-se ainda mais esse efeito que a RCC parece se propor a exercer. Para Carranza, a RCC no Brasil "é o único movimento religioso da Igreja Católica que consegue aglutinar, através de eventos massivos, suas camadas populares" (2000, p. 50).
Do pintor brasileiro Vítor Meirelles de Lima (1832-1903), o quadro de 1861, A primeira missa no Brasil, representa a catequização dos índios e a introdução da religião no novo mundo descoberto |
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A Proclamação da República (na imagem de época) é o momento oficial de separação entre Igreja e Estado no Brasil, em 1889. Antes, o País já possuía um mostruário religioso em formação |
OBSERVANDO AS distribuições religiosas nos estados brasileiros, temos a maior presença dos católicos na região Nordeste: Piauí com 91,3%, Ceará com 84,9%, Paraíba com 94,2% e Maranhão com 83%. Em Minas Gerais, são 78,8%. A maior presença dos evangélicos se faz em Rondônia, 27,7%, Espírito Santo, 27,5%, e Rio de Janeiro, 21%. Os "sem-religião" são maioria no Rio de Janeiro (15,5%), em Pernambuco (10,9%), Bahia (10,2%), Espírito Santo (9,7%), Mato Grosso do Sul (8,5%) e Goiás (7,9%). A maior presença católica no Nordeste está ligada a uma dinâmica religiosa do catolicismo tradicional de cunho popular, como as devoções ao Padre Cícero, Frei Damião, Irmã Dulce, etc. A maior presença dos evangélicos no Sudeste reforça a característica dessa religião como expressão de resposta dos centros urbanos. Para Marcelo Camurça, "em termos de um ideal-típico weberiano, a polaridade se expressaria entre um Nordeste tradicional católico e um Rio de Janeiro pluralista e menos católico" (2006, p. 42).
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