Entrevista O percurso de um nacionalista Da compreensão pequeno-burguesa de classe média paulistana à defesa de uma revolução social amparada em Vargas, Jango, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola por YAGO EUZÉBIO BUENO DE PAIVA JUNHO fotos LUIZA SANSÃO
Após o livro Xará de Apipucos, você começa a fazer uma revisão de toda sua formação sociológica uspiana, que culminará no livro O príncipe da moeda. Qual o ponto principal de sua crítica?
Vasconcellos - O meu livro O príncipe da moeda é uma análise dolorosa e simultaneamente catártica sobre o que foi o pensamento sociológico da USP e o estrago antinacional dos dois governos de FHC.
Uma coisa intrigante é como um sociólogo, professor da universidade, no poder torna-se o rei das privatizações. A Sociologia contribuiu para entregar o território ao capital estrangeiro ou a Sociologia não teria nada com o que foi FHC no governo. Eu lembro que uma vez na Paraíba encontrei Florestan Fernandes tomando água de coco na praia. Eu lhe perguntei: então a Sociologia chegou ao poder? Ele me respondeu: não, não foi a Sociologia. Mas foi o quê? Não há nenhuma relação entre a Sociologia do FHC com o governo FHC? Essas perguntas me levaram depois a escrever O príncipe da moeda, cuja ênfase recaiu na repressão ao conceito de imperialismo. O livro de FHC feito com Falleto, muito mal escrito, A teoria da dependência, foi lido na América Latina inteira como se fosse contra a subordinação ao imperialismo, quando na verdade era um livro resignado e conformista que pregava a impossibilidade do País deixar de ser dependente. FHC viu a dependência como um valor positivo, posto que ineliminável, ao contrário de Darcy Ribeiro, que queria passar o País a limpo rompendo com os laços de dependência. Darcy Ribeiro focou toda sua obra no imperialismo e, por isso, não foi presidente da República, enquanto FHC sacou o filão malandro da democracia e chegou ao poder. FHC reproduziu o mote do Pentágono no Cebrap com a antinomia autoritarismo versus democracia. Isso depois de a democracia do dólar ter derrubado João Goulart e instalado a ditadura do capital estrangeiro.
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Você é declaradamente um Vargojangobrizolista. O que isso significa?
Vasconcellos - Eu sou vargodarçajangobrizolista: Vargas, Darcy, Goulart e Brizola. Hoje eu acrescentaria Hugo Chávez. Essa é a política antiimperialista mais vigorosa na América Latina. Tiremos o chapéu para o Leonel Brizola, que na década de 1960 tinha uma abordagem da espoliação internacional mais profunda do que qualquer sociólogo. O pensamento de Leonel Brizola me conduziu ao estudo do getulismo. Em 1945, aos 23 anos, em Porto Alegre, Leonel Brizola percebeu a falsa contradição entre Moscou stalinista e Washington capitalista. Ele não entrou no Partido Comunista e percebeu que havia aspectos progressistas no Estado Novo. Como é que um sujeito revolucionário como Leonel Brizola entraria no PTB getuliano se não houvesse aspectos avançados no Estado Novo, não obstante a questão democrática? Eu me tornei brizolista por ter estudado os discursos de Leonel Brizola, e não por tê-lo conhecido pessoalmente, o que eu vim a fazer somente na década de 1990.
"Tiremos o chapéu para o Leonel Brizola, que na década de 60 tinha uma abordagem da espoliação internacional mais profunda do que qualquer sociólogo"
INTELECTUAL EM TRANSE
Com 27 anos de idade, editorialista do jornal Folha de S.Paulo, Gilberto Felisberto Vasconcellos faz as malas para a França, onde se pós-doutora na École des Hautes Études de Paris, com um estudo sobre a obra de Florestan Fernandes, sob orientação do professor Alain Touraine. De volta ao Brasil, conhece Gilberto Freyre e tem início o seu transe. Durante dez anos refaz seu percurso intelectual: da teoria da dependência ao nacionalismo trabalhista. Nessa trajetória, retoma Oswald de Andrade, demora a obra de Glauber Rocha, se encanta com o folclore de Luís da Câmara Cascudo, estuda os discursos de Leonel Brizola e a obra de Darcy Ribeiro e se torna amigo do físico J. W. Bautista Vidal. Esse é seu Paideuma. |
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Algumas vezes, você diz que é folclorólogo, e não sociólogo. Qual o panorama da Sociologia no Brasil atualmente? Como ela lida com as raízes culturais brasileiras?
Vasconcellos - Eu estou descrente da categorização sociológica para o entendimento do País. Acho de maior alcance gnosiológico a reflexão vinda do folclore sobre o cotidiano do povo brasileiro. Nisso é que eu me defino folclorólogo, um estudioso do folclore, ainda que não seja refratário a um discurso racional no entendimento da sociedade. O problema é que o aparato administrativo, burocrático e pedagógico das Ciências Sociais é antinacional. Por isso o nacionalismo na cultura brasileira foi tido como algo anti-sociológico, o contrário do que dizia Glauber Rocha, porque o Brasil sempre foi um País cobiçado pelas potências imperialistas, sobretudo agora com o fim do petróleo e a emergência da energia extraída dos vegetais. A loucura é o desencontro da geografia com a história. Quanto mais dramática a ocupação imperialista, maior a repressão contra o discurso nacionalista. Qualquer estudante de Ciências Sociais com 19 ou 20 anos entra na faculdade com ojeriza do nacionalismo, depois aprende que isso é coisa de gagá confinada à década de 1950.
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O autor mais citado em todos os seus livros é o escritor Oswald de Andrade. Por que você foi buscar na literatura oswaldiana a sua fundamentação sociológica?
Vasconcellos - Oswald de Andrade foi o meu autor de cabeceira, hoje estou interessado no Oswald marxista, o que não quer dizer vê-lo apenas como membro do Partido Comunista, que, aliás, não tem sido marxista. O stalinismo vingava plenamente quando ele entrou no PC em 1928, tanto que nunca refletia sobre Trotsky, banido e assassinado pela burocracia stalinista. Oswald de Andrade talvez seja um dos maiores sociólogos brasileiros porque leu com extrema acuidade o livro de Engels, Origem da família, da propriedade privada e do Estado, livro esse que fecundou a antropologia de Darcy Ribeiro. É o mesmo da história hoje com o indo-socialismo, tal qual foi idealizado pelo peruano Mariátegui: a retomada da livre associação indígena, em que o produto não dominava o produtor, em que não havia dinheiro nem supremacia do sexo masculino com a monogamia exigida pela herança paterna, que acabou dando em casal isolado, casa própria, automóvel, TV e prestação. Oswald de Andrade colocou o seguinte desafio para a
Sociologia desde a época de Roger Bastide: a necessidade de superar a tirania fálico-patriarcal mercantil da civilização. É lamentável que as Ciências Sociais nas últimas décadas tenham embarcado em um discurso anti-Eros. Oswald lembrou Engels: na família o homem é o burguês, a mulher representa o proletário. O proletariado brasileiro, sem as idéias de Oswald e Darcy, não romperá com o manto caridoso da catequese jesuítica que dá no Bolsa Família e no Brasil-tíquete.
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Darcy Ribeiro dizia que o Brasil não deu certo, pois não fomos capazes de alcançar nossa aceleração evolutiva. O País ainda pode dar certo?
Vasconcellos - O conceito de aceleração evolutiva de Darcy Ribeiro é contra a participação do capital estrangeiro, que é um agente da modernização reflexa que não estende o progresso para a maioria da população. Nessa modernização vicária e iníqua das multinacionais o povo estará sempre marginalizado, ou seja, uma massa sobrante e estruturalmente inempregável. A única saída é uma revolução social amparada no legado vargojangodarçabrizolista.
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YAGO EUZÉBIO BUENO DE PAIVA JUNHO é sociólogo, professor de Antropologia e Sociologia da Faculdade de Administração e Informática (FAI) e do Instituto Superior de Educação (ISE) e assessor de Planejamento e Desenvolvimento Municipal da Prefeitura de Santa Rita do Sapucaí - MG. Email: yjunho@uol.com.br
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