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Panorama feminino
Mais trabalho, menos filhos
Brasileiras empreendem, conquistam empregos inclusive na velhice, adiantam vida sexual e gravidez; e ainda carecem de informação, comida e assistência médica
por RODRIGO GALLO

Em tempo
Leia com exclusividade no site de Sociologia Ciência & Vida sobre as políticas públicas em relação à taxa de fecundidade no Brasil, como a instalação de máquinas de camisinhas em escolas, e sobre o antagônico crescimento do número de partos por cesarianas no País.
www.saude.gov.br - blog.florianopesaro.com.br
A ÚLTIMA PNDS também aponta que 87,2% das entrevistadas usam algum método contraceptivo para se prevenir de gravidez indesejada, contra 73,1% em 1996 - ao mesmo tempo que a taxa de fecundidade no Brasil caiu sete pontos percentuais nesses dez anos. "Essa é outra mudança interessante, pois pode indicar que as brasileiras estão mais responsáveis e, além disso, a timidez de buscar uma camisinha em um posto é substituída aos poucos pela consciência dos riscos. É um bom indicador de que o País passa mesmo por um processo de desenvolvimento econômico, educacional e social", reflete a socióloga Andréia Vargas.
O sociólogo holandês Evert Ketting também defende essa mesma tese, embora acredite que a mudança deve ser mais acentuada para atingir um nível maior de progresso social. Segundo ele, boa parte dos homens confia à mulher o papel de se proteger durante a relação sexual, tomando pílula, pois é uma espécie de convenção social preestabelecida. Contudo, ele argumenta que isso deve mudar - o que já pode estar ocorrendo, conforme apontam os resultados da pesquisa divulgada em julho.
Segundo Ketting, o poder público deve encontrar formas de projetar e construir centros de orientação sexual exclusivamente voltados para atender os garotos. A idéia é ensiná-los a dividir as responsabilidades com as mulheres, afinal, o filho, em caso de gravidez, também é deles. A questão da falta de escolaridade é outro problema grave que, segundo a pesquisa do Cebrap, leva muitas mulheres a ter uma saúde deficiente, principalmente durante a gravidez. Segundo o levantamento, 10% das 15 mil entrevistadas têm dificuldades de cuidar de si mesmas ou dos filhos por causa da baixa instrução escolar.
Segundo o jornalista e escritor Gilberto Amendola, cerca de 40% das garotas atendidas pela Casa do Adolescente em 2006, separaram-se dos parceiros antes mesmo do nascimento do bebê
À direita. Na ocasião da divulgação da PNDS, o ministro José Gomes Temporão retratou indicadores e disse que ocorreu queda em alguns índices problemáticos nos últimos dez anos

Sem estudo, essas mães enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho, e a baixa renda atrapalha na hora de comprar remédios e comida, por exemplo. Na ocasião da divulgação da PNDS, em julho deste ano, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, no entanto, amenizou o problema, afirmando que, em 1996, esse número era de 28%; e caiu para 10%. Essa retração no indicador ocorreu em dez anos. "Estudos relacionam o aumento da escolaridade e o conseqüente aumento da renda com um impacto direto nas condições de saúde. Está havendo uma ampliação da escolaridade, e isso tem impacto direto na saúde", disse em seu discurso, em Brasília.
Porém, até que esse contingente de mulheres com baixa escolaridade seja definitivamente equacionado, muitas brasileiras e, em conseqüência disso, seus filhos continuam com problemas de saúde associados à falta de instrução formal no Brasil. Um dos principais agravantes diretos disso é que a falta de qualificação profissional interfere na busca por melhores empregos, ou mesmo na hora de conseguir uma promoção no trabalho. Segundo os dados do Cebrap, em 46% dos lares onde as mães não têm estudo há grande insegurança alimentar. No caso de mulheres com 12 anos ou mais de escolaridade, esse tipo de problema cai para 6,2%.
Outra forma de comprovar isso é checando os dados comparativos da pesquisa. O levantamento revelou que 16,6% das crianças com mães sem instrução passavam por problemas crônicos de desnutrição na ocasião das entrevistas. Esse problema não mata o jovem, mas acaba interferindo no desenvolvimento da criança e pode prejudicar a capacidade de aprendizado, concentração e até mesmo a capacidade do organismo de reagir a outras doenças. A baixa saúde financeira leva a uma situação de cuidados médicos e alimentação muitas vezes inadequada. Afinal, nem todas as trabalhadoras ganham cesta básica ou possuem plano de saúde realmente bom.
Ainda faltam cuidados apropriados durante a gravidez, como vacinas antitetânicas essenciais ao parto

Mais um paralelo que pode ser considerado alarmante: 53,1% das crianças com problemas de excesso de peso têm mães sem instrução, ao passo que o percentual no caso de mulheres com estudo cai para 37,8%. Aliás, o problema de peso entre as próprias mulheres foi apontado pelo estudo como um dos pontos mais alarmantes, que pode ter conseqüências para o sistema de saúde a médio e longo prazo. Outra informação que contraria recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere à amamentação. De acordo com a última PNDS, somente 40% das mães amamentam os filhos até os 6 meses, como é indicado. A média de tempo de alimentação exclusivamente por leite materno subiu de um mês, em 1996, para 2,2 meses, em 2006 - um avanço, mas ainda abaixo do ideal. De todo modo, a pesquisa do Cebrap não traz apenas notícias ruins, do ponto de vista alimentar.

REFERÊNCIAS
AMENDOLA, Gilberto. Meninos grávidos: o drama de ser pai adolescente. 1ª ed. São Paulo: Terceiro Tempo, 2006. FREITAS, Luiz Alberto Pinheiro de. Adolescência, família e drogas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

O LEVANTAMENTO concluiu ainda que a desnutrição infantil está em apenas 1,6%, índice abaixo dos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso contribui também para a queda de 44% da mortalidade infantil, de 39 para 22 a cada mil bebês nascidos vivos. É preciso lembrar, contudo, que a diminuição da taxa de natalidade também se reflete nesse indicador. Além disso, a distribuição do índice por regiões no Brasil é notadamente desigual: em estados do Nordeste, chega a 35 óbitos a cada mil nascidos; no Sul, 17. Uma das Metas do Milênio, estipulada pela OMS, é diminuir para 15 mortes por mil até 2015. O Brasil tem chances de conseguir. Mesmo assim, ainda seria mais do que o triplo do índice atual da Dinamarca, que reduziu essa taxa de 4,9 em 2003 para 4,4 este ano - de acordo com dados do Livro dos fatos do mundo (The World Factbook), da Agência de Inteligência Central (Central Intelligence Agency) norte-americana.
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