Panorama feminino Mais trabalho, menos filhos Brasileiras empreendem, conquistam empregos inclusive na velhice, adiantam vida sexual e gravidez; e ainda carecem de informação, comida e assistência médica por RODRIGO GALLO
Por causa da baixa natalidade, número de trabalhadores aposentados anualmente
não será reposto em um futuro próximo |
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Nesse contexto, a volta dos aposentados ao mercado de trabalho não é má notícia do ponto de vista dos cofres públicos, ainda que insuficiente para sanar o problema. Futuramente, é provável que o contingente de jovens funcionários de empresas de call center ou redes de fast-food seja gradativamente substituído por idosos aposentados. Grandes empresas, como Pizza Hut e Pão de Açúcar, já possuem programas de contratação de mão-de-obra na terceira idade.
No outro extremo da pirâmide etária, as brasileiras têm a primeira relação cada vez mais cedo em praticamente todo o País - 32,6% das entrevistadas, antes de completar 15 anos, contra 11% das garotas nessa faixa etária há dez anos, segundo a Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde. Além disso, o trabalho do Cebrap também mostra que as mulheres estão tendo o primeiro filho cada vez mais cedo. A idade média em que as brasileiras deram à luz o primeiro bebê em 2006 era 21 anos. Em 1996, porém, elas esperavam até os 22 anos e meio. Outro dado a ser considerado é que 53% das crianças nasceram, em 2006, de mães com idade entre 19 e 24 anos. Um dos problemas que a maternidade precoce pode causar é um divórcio igualmente ligeiro.
| Gravidez desinformada |
Mesmo com a criação de políticas públicas destinadas a fortalecer o conceito de planejamento familiar e orientar as mulheres grávidas de forma mais incisiva, ainda há muitas falhas que precisam ser corrigidas. A última Pesquisa Nacional de Demografia em Saúde (PNDS) aponta que 40% das gestantes não são informadas sobre aonde devem ir na hora do parto e, devido a isso, 90% dos bebês acabam nascendo no primeiro hospital procurado - que muitas vezes não tem nem sequer maternidade. Esse problema pode ser atribuído a uma falha na realização do atendimento pré-natal.
Por causa disso, muitas mulheres, sem saber aonde podem ir para dar à luz, acabam se dirigindo para os centros hospitalares mais próximos de casa e, pela falta de tempo hábil para remoção, têm seus filhos ali mesmo, em condições inadequadas. Por outro lado, a PNDS também aponta um dado positivo. A velha tradição de ter filhos em casa, com as mães sendo auxiliadas por parteiras, está praticamente extinta no Brasil. Segundo a pesquisa, 98% dos partos em 2006 ocorreram em hospitais, mesmo em casos de gestantes que moravam na zona rural. O levantamento aponta, por fim, que 61% das gestantes fazem mais de sete consultas médicas durante a gravidez. Já a rotina de vacinação antitetânica como procedimento de atenção pré-natal continua um problema. Aproximadamente 30% das mães não receberam nenhuma dose da vacina, percentual pouco inferior aos 36% de 1996. |
Pesquisa revelou o aumento no total de mulheres que pratica sexo com o uso de camisinha masculina. Porém, ainda há grande número de homens que confia à mulher o papel de se proteger tomando pílula, pois é uma espécie de convenção social preestabelecida |
SEGUNDO O jornalista e escritor Gilberto Amendola, autor do livro Meninos grávidos: o drama de ser pai adolescente, cerca de 40% das garotas atendidas pela Casa do Adolescente em 2006, órgão ligado ao governo de São Paulo para orientar jovens gestantes, separaram-se dos parceiros antes mesmo do nascimento do bebê. Já o sociólogo Floriano Pesaro, ex-secretário de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo, acredita que a gravidez cada vez mais cedo e o início precoce na vida sexual decorrem de outro problema social, muito comum principalmente nas periferias: a falta de opções de lazer para os jovens, como clubes, atividades de recreação e mesmo cursos básicos de informática, por exemplo.
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Para o sociólogo Floriano Pesaro, é comum jovens menos favorecidos pularem etapas no processo de amadurecimento e iniciarem suas relações muito cedo, antes mesmo de terem consciência dos riscos e das responsabilidades
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Pesquisa mostra que mulheres estão
tendo o primeiro filho mais cedo, com
idade
média de 21 anos |
Pesaro acredita que, como o jovem não tem à disposição outras opções para se divertir, acaba pulando etapas no processo de amadurecimento e tem relações muito cedo - às vezes isso ocorre muito antes de o adolescente ter consciência e conhecimento dos riscos e das responsabilidades. A socióloga Nancy das Graças Cardia, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Londres (Inglaterra) e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo, afirma que a falta de aparelhos de lazer é responsável por outro problema na adolescência.
Como muitos pais são obrigados a trabalhar fora, os jovens tendem a ficar na rua, caso não haja outra pessoa para tomar conta deles.
Porém, como não há espaços públicos suficientes para acolher todos esses garotos e garotas, muitos acabam encontrando o caminho das drogas e, em alguns casos, o da violência também. Mesmo com essas dificuldades, os dados da PNDS sugerem que, aos poucos, as pessoas estão ficando mais prevenidas por disporem de mais acesso a informações.
TAMBÉM CRESCEU a oferta de anticoncepcionais e preservativos na rede pública de saúde. E o percentual de mulheres que recorreram a esse sistema triplicou. De acordo com os dados referentes a 2006, 21,3% das entrevistadas na pesquisa afirmaram ter buscado pílulas contraceptivas no Sistema Único de Saúde (SUS). No meio da última década, esse número era de somente 7,8%. Outro dado revelado na última edição da PNDS, do Cebrap, é que tem aumentado o total de mulheres que pratica sexo com parceiros com o uso de camisinha masculina. E mais: diminuiu o número de brasileiras esterilizadas, ao passo que aumentaram as cirurgias em homens, as vasectomias. Esses dados apontam para mudanças bastante definidas no comportamento sexual do povo brasileiro.
"Hoje, as jovens já podem conversar mais abertamente sobre sexo com os pais, embora haja alguns tabus a serem quebrados. No futuro, a tendência é de que cada vez mais as adolescentes recebam orientações sobre métodos contraceptivos em casa e na escola", defende Andréia Vargas. A questão mais importante é que, com o tempo, a responsabilidade pelo sexo seguro, antes considerada uma obrigação exclusiva das mulheres, transfere-se para os homens também. É justamente por isso que eles estão se submetendo mais a vasectomias e usando mais preservativos.
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