Tecendo a sociedade A vestimenta, que tem a sua história mesclada à história humana, ganha sentido de moda na Idade Média, modelando a sociedade e criando signos de diferenciação entre classes sociais, étnicas e etárias por ANDERSON FERNANDES DE OLIVEIRA
Desde os primórdios, os seres possuem uma grande necessidade de se comunicar. Os animais precisam, de alguma forma, trocar informações para sua sobrevivência. Com os humanos, isso ganha outras utilizações. A comunicação transcende o básico e o essencial, tornando-se fundamento para nossa sobrevivência. Sem ela, não existe relacionamento.
Para a formação de cultura, a comunicação também é de suma importância, ou seja, não existe sociedade culturalmente formada sem a troca de informação. A comunicação abrange todos os nossos cinco sentidos e, por vezes, é necessária grande cautela para interpretar corretamente o que um indivíduo está tentando transmitir. Mímicos, jornalistas, radialistas, apresentadores, pessoas afônicas e defi cientes auditivas, crianças, bebês, placas, letreiros, quase tudo precisa de sensibilidade para compreender e ser compreendido. Sem reciprocidade, não existe entendimento.
Como parte diária e fundamental da comunicação, a vestimenta, a indumentária, ou, simplesmente, a moda, está presente visualmente em todas as pessoas. Muito elas têm a dizer, ou querem transmitir, usando peças de roupa. O período que vai da metade do século XIV à metade do século XIX é considerado o início da moda, quando mulheres passam a exibir mais seu corpo, evidenciando seu busto, quadris e a curva das ancas. É neste momento que a moda revela seus traços sociais e estéticos trazendo à tona uma diferenciação social, que antes não existia, como podemos ver nos tempos do Egito Antigo, que o mesmo tipo de toga-túnica comum aos dois sexos manteve-se por quase quinze séculos com uma permanência quase absoluta; na Grécia, o peplo (traje feminino de cima), impôs-se das origens até a metade do século VI antes de nossa era; em Roma, o traje masculino - a toga e a túnica - persistiu, com variações de detalhes, dos tempos mais remotos até o fi nal do Império. Mesma estabilidade na China, na Índia, nas civilizações orientais tradicionais, onde o vestir só excepcionalmente admitiu modifi cações: o quimono japonês permaneceu inalterado durante séculos; na China, o traje feminino não sofreu nenhuma verdadeira transformação entre o século XVII e o século XIX.
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No Egito Antigo e na Grécia Antiga, homens e mulheres usavam roupas muito parecidas, sem se importar com o belo ou com a diferenciação de classe e de sexo |
Segundo Caroline Cotta de Mello Freitas-Hupsel, mestre e doutoranda em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofi a, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e professora de Antropologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, deve-se observar que não é somente a roupa que vai defi nir quem é o indivíduo no interior de um grupo ou caracterizar uma posição social; o que também contribuirá para sua aceitação e posicionamento é o movimento que se faz "dentro" das roupas. Isto já ensinava a professora Gilda de Mello Souza, que em 1950 defendeu sua tese de doutorado com o título A moda no século XIX: ensaio de sociologia estética, que somente 30 anos depois foi publicada com o título O espírito das roupas - a moda no século XIX. A publicação tardia ocorreu por ser este um tema muito criticado na época, pois se dizia que não teria relevância social e sociológica.
Foi no fi nal da Idade Média e princípio do Renascimento que os nobres de Borgonha (atual território Francês) começaram a se sentirem incomodados com as cópias que os burgueses faziam de suas roupas. Os burgueses, classe emergente de origem não aristocrática, surgiu durante as Cruzadas, que no início tinham cunho principalmente religioso, mas com o tempo ganharam aspecto econômico e comercial. Isso se deve graças ao contato direto que tinham com o Oriente, com acesso aos inúmeros artigos que o europeu ocidental não conhecia. Estabelecendo contato comercial entre o Oriente e o Ocidente, os burgueses, por meio das Cruzadas, ganharam sustentabilidade fi nanceira para copiar as vestimentas da corte européia.
A CORTE, A CLASSE que possuía maior capital, não gostava dessa cópia e começou a diferenciar suas roupas, surgindo assim um ciclo de criação e cópia. Sempre que isso acontecia, idéias diferentes, advindas da alta sociedade eram aplicadas nas indumentárias, despontando a concepção atual de moda.
Vivia-se um estágio aristocrático e artesanal da moda, no qual apenas uma parte da elite tinha acesso a uma variedade signifi cativa de vestimentas e monopolizava o poder da criação. Desde então, a moda começa a traçar uma divisão de classe social. Na segunda metade do século XIX, surgem duas vertentes importantes até hoje: a Alta Costura, que cria tendências no mundo todo por meio de suas coleções de alto padrão, tendo seu berço na Europa; e a Confecção, que reproduz as tendências do momento em grande escala, baixo custo e qualidade inferior, popularmente chamada de prêt-à-porter (expressão desenvolvida por J. C. Weill que quer dizer "pronta para usar" - "ready to wear", esta implantada anos depois).
| Moda brasileira |
Um dos primeiros eventos que deram visibilidade à moda brasileira foi o Phytoervas Fashion (1994), que abriu oportunidades a novos estilistas de mostrar suas coleções. Foi dele que ascenderam nomes como Alexandre Herchcovitch e Fause Haten. Na ocasião, as modelos tiveram de vir de fora do país, pois as agências de modelo aqui eram escassas, assim como todo o mercado nesse ramo. O evento também apoiou financeiramente todos os estilistas, para que fossem possíveis as suas estilizações. Dessa forma, alcançou sucesso, crescendo a cada edição. Entretanto, a Phytoervas foi vendida para a Bristol-Myers Squibb, em meados dos anos 1990, e passou a ser patrocinado pelo Shopping Morumbi, ganhando o corpo e o nome de Morumbi Fashion.
Seguindo os mesmos passos das outras edições, também o Morumbi Fashion vingou e ganhou maiores dimensões que o esperado. Acabou conseguindo bancar a si mesmo e caminhar por conta própria, encabeçado pelo produtor Paulo Borges, que queria criar no país um calendário fi xo para todos os desfi les, como em Paris, Milão e Nova York. Em janeiro de 2001, o Morumbi Fashion ganhou o título de "Calendário Ofi cial da Moda Brasileira São Paulo Fashion Week".
Com duas edições anuais, o evento lança tendências nacionais de verão e inverno e tem o retorno de milhões de reais em vendas para os diversos compradores do Brasil e do mundo. Realizado no prédio da Fundação Bienal no Parque Ibirapuera, em São Paulo, o SPFW recebe convidados estrangeiros e correspondentes da imprensa especializada de diversos países: Le Figaro, L'Officiel, Harper's Bazaar, Vogue, New York Times, etc.
Apesar da alavancada nacional sobre o cenário de moda e seus lucros relevantes, Michelle Medrado, cientista social graduada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, professora no Senac e pesquisadora das temáticas de Moda, violência e judiciário, afi rma que é necessário saber que a moda não pode ser compreendida apenas pelo viés econômico, porque ela envolve mecanismos de distinção e gosto. Se a questão é moda, trata-se então de algo que os indivíduos portam, carregados de símbolos e representações, mas portam sobre o seu corpo, imprimindo desse modo a expressão de um valor social construído pelo grupo do qual participa, valor este arquitetado na produção cultural e política que organiza esses corpos.
O maior pólo de moda do Brasil abre espaço também para os estilistas iniciantes e undergrounds, com a Semana de Moda - Casa de Criadores.
O evento vem sendo realizado desde maio de 1997. Na ocasião, havia seis estilistas no projeto, que teve lugar na sede do Fundo Social de Solidariedade de São Paulo, no Parque da Água Branca, e não contou com patrocinador algum. Hoje, o projeto, voltado para os jovens criadores, tem diversos patrocinadores e acontece em locações variadas, quase sempre inusitadas, como o Vale do Anhangabaú, no evento de 1996.
Michelle explica que as necessidades culturais são construídas por muitas vias, como a educação, mas não apenas a educação familiar, mas a educação das construções sociais legitimadas e pautadas pelo conjunto da sociedade, entendidas como regras de convivência defi nidas pela tradição. Desta forma, podemos concluir que o Brasil exporta para o mundo um pouco de cada cultura, afi nal o país é caracterizado como um paraíso tropical, onde convivem em harmonia todas as etnias.

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