O que os quadrinhos dizem? As histórias em quadrinhos são objetos de leitura de um amplo público e como todo fenômeno social, passaram a ser objeto de estudo da Sociologia e de outras ciências por NILDO VIANA
Das tiras em jornais que marcam sua origem, passando para a conquista do público infantil e juvenil, as histórias em quadrinhos ampliaram cada vez mais seu espaço e aumentou sua variedade e público, chegando até ao público leitor adulto. A Sociologia das histórias em quadrinhos, considerada uma subdivisão da Sociologia da comunicação ou da Sociologia da arte (para aqueles que consideram os quadrinhos como sendo arte), é uma das sociologias especiais menos desenvolvidas. Porém, ela já conta com uma produção de certa forma expressiva e com o apoio de outras ciências e análises, o que lhe possibilita, hoje, se tornar mais consolidada.
As HQ são consideradas como tema infantil, juvenil, não muito sério. São menosprezadas por muitos, que as consideram uma espécie de cultura inferior. Seu "público" é considerado a "massa", que seria amorfa, acrítica, infantil. Sem dúvida, este preconceito tem razões e também conseqüências sociais. A desvaloração das HQ é realizada a partir de uma visão elitista e racionalista. A sociedade contemporânea é dominada pela razão instrumental, uma razão fria que desvaloriza a imaginação, os sentimentos, a fantasia, o inconsciente, pois busca o controle sobre as relações sociais e a natureza e sobre a própria mente humana. Logo, cria uma censura social sobre as formas de manifestações psíquicas não consideradas racionais, o que está de acordo com os interesses do produtivismo e da produção capitalista. O elitismo é produto de setores mais intelectualizados da sociedade que tomam seus valores e gostos como superiores e os demais como inferiores e opõe a "alta cultura" e a "baixa cultura".
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O sociólogo Umberto Eco já afirmava que somente quando o estudo das HQ tivesse superado o estágio "esotérico" é que seria possível entender sua importância |
Este é um dos motivos da desvaloração das HQ, até mesmo enquanto objeto de estudo. O sociólogo Umberto Eco já afirmava que somente quando o estudo das HQ tivesse superado o estágio "esotérico" e o público "culto" resolvesse dar-lhes a mesma atenção que oferece à ópera e outras manifestações culturais "elevadas", é que seria possível entender sua importância (apud Baron-Carvais, 1989). O ilustre sociólogo italiano, um dos mais renomados pesquisadores da chamada "cultura de massas", além de reproduzir a visão dicotômica de um público supostamente "culto" e outro, certamente o seu par negativo, o público "inculto", apela para tal setor da população para haver o reconhecimento das HQ. Vários outros pesquisadores das HQ iniciam suas obras (Baron-Carvais, 1989; Marny, 1970) justificando ou buscando legitimar seu objeto de estudo. Isto revela o que o sociólogo Pierre Bourdieu (2001) denominou "hierarquia social dos objetos de estudo". Sem dúvida, este é um obstáculo para o desenvolvimento da Sociologia das HQ. Apesar disso, alguns sociólogos realizaram estudos sobre os quadrinhos e - somando-se a isso a contribuição de estudos de outras disciplinas - hoje é possível contar com certa produção sobre este fenômeno social.
A abordagem sociológica dos quadrinhos vai centrar sua análise em dois aspectos fundamentais: a produção social e a mensagem que apresenta em suas produções. Há, de forma menos desenvolvida, uma Sociologia dos leitores e da recepção das HQ. Neste sentido, o interessante é discutir como as Histórias em Quadrinhos são constituídas socialmente, e, posteriormente, quais mensagens (valores, concepções, sentimentos, etc.) reproduzem.
As HQ tiveram seus primeiros esboços no final do século XIX e início do século XX. Personagens que conseguiram maior reconhecimento como Th e Yelow Kid, Max and Moritz, Krazy Kat, foram as primeiras experiências de uma produção cultural que hoje conta com obras que deixaram de ser apenas infanto-juvenis para atingir também o público adulto. No início as HQ eram tiras diárias em jornais, o que hoje ainda persiste em existir, mas agora de forma marginal, pois o principal veículo de transmissão das HQ passou a ser as Revistas em Quadrinhos, que no Brasil também são chamadas "Gibis", que significa "moleque", e foi o nome da primeira Revista em Quadrinhos lançada no Brasil.
| Produção social das Histórias em Quadrinhos |
O caráter axiológico dos quadrinhos é mais visível em determinados momentos, tal como no período da Segunda Guerra Mundial, onde diversos heróis e super-heróis foram "recrutados" para a guerra contra o nazi-fascismo (Viana, 2005).
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Porém, após a guerra e dificuldades financeiras, mudanças geradas pelo novo período, os quadrinhos passaram a ser condenados pelos setores mais conservadores. É desta época que surge o livro A Sedução dos Inocentes, de Frederich Wertham, uma crítica conservadora aos quadrinhos, e a legislação que busca controlar mais amplamente os quadrinhos. Por detrás da condenação e da censura há a disputa entre tipos de idéias e valores dominantes, mas também certa percepção de que as HQ manifestam não apenas as mensagens intencionais de seus criadores e financiadores, mas outras que são intencionais e é neste processo que se abre espaço para o inconsciente coletivo e a crítica social. Assim, os super-heróis são conservadores, mas abrem espaço para se pensar o extraordinário, a imaginação ultrapassar o realismo cotidiano e permitir o sonho com a liberdade (Viana, 2005). E a forte intervenção estatal irá ser abrandada em 1971, mas não deixará de existir. No entanto, apesar dela, uma produção marcada por elementos "censuráveis" irá continuar sendo produzido, tal como o caso da violência excessiva que se vê em personagens como Badger, o Texugo. Este personagem exerce agressão física o tempo todo, até mesmo por motivos banais, e seu criador, Mike Baron, justifica isso da seguinte forma: "vestir um uniforme e enfrentar o crime? Só mesmo sendo louco! Foi a partir desse pensamento que surgiu Badger, para dar voz ao fascista e ao psicopata que existem dentro de mim".
Também há a manifestação de valores divergentes, tval como os que se opõem aos valores religiosos, como em Authority, no qual um grupo de super-heróis combate além de ditadores e terroristas, o próprio Deus.
São os primeiros super-heróis a apresentar explicitamente a necessidade de mudar o mundo. Aliás, Deus também aparece como vilão em Preacher, história que conta que ele abandonou a humanidade e um pastor - com poderes sobrenaturais - vai atrás dele tomar satisfações. Em ambas as histórias, temas raramente presentes nas HQ são abordados. Para os religiosos, que já começam a reclamar destas produções, já que elas tornam Deus um vilão e inimigo da humanidade, isto pode ser interpretado como "o sinal dos tempos". Porém, para a Sociologia, é expressão das mudanças sociais, que é o que explica os novos quadrinhos deste tipo, no qual o movimento antiglobalização, entre outras manifestações, gera um mercado consumidor e permitem romper parcialmente com a censura moral e política. |
As HQ são produtos constituídos por empresas e criadores que geram determinado contexto social e histórico. Com seus recursos (balão de diálogo, imagens, palavras que expressam sons, etc.) e seqüência expressam uma determinada ficção produzida por indivíduos que são seres sociais que realizam um trabalho coletivo (e neste sentido as HQ tem certa semelhança com o cinema e se distancia de outras formas de arte cuja produção é mais individual), cuja base só pode ser histórica e social. Os primeiros experimentos em quadrinhos foram as tiras cômicas e somente em determinado estágio de seu desenvolvimento que os argumentos se tornaram não apenas cômicos, mas também ligados à aventura e outros gêneros. É a partir de 1920 que os temas familiares e infantis e os desenhos caricaturais são substituídos por desenhos mais realistas e o tema da aventura emerge. O novo gênero produz a renovação dos desenhos. Os caricaturais combinam com a comicidade e com a simplicidade dos temas familiares e infantis, o que não ocorre no caso do novo gênero, que exige, devido suas características próprias, um traço mais realista (Viana, 2005).
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