Socióloga do mês Neyza Furgler Uma das áreas mais aquecidas do mercado de trabalho do Sociólogo é a de pesquisador de opinião e de mercado. Boa parte desses profissionais atua também em campanhas eleitorais e no marketing político. Nesta edição da revista Sociologia Ciência & Vida abordamos essa área de mercado de trabalho, com a socióloga Neyza Furgler. LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO
Uma das sociólogas mais respeitadas no mercado de pesquisas de opinião, Neyza Furgler foi professora de estatística no Colégio Vocacional Osvaldo Aranha. Trabalhou em pesquisas na Editora Abril Cultural, Divisão de Educação e na área de pesquisa de mídia nas agências de publicidade Lintas, DPZ e CBBA. Seu último emprego, antes de abrir a própria empresa, foi no Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Deixou o cargo de diretora no Ibope para criar o Escritório de Decisão, onde atende clientes que solicitam projetos de pesquisa de mercado, mídia ou opinião pública.
Quem é a socióloga Neyza Furgler?
Desde a época da Faculdade de Filosofia, enveredei para a pesquisa. Pequenas entrevistas para professores, entre eles sociólogas famosas como Marialice Mencarini Foracchi e Ruth Correia Leite Cardoso, abordando temas de interesse acadêmico e, talvez, para fundamentar as teses das mestras. No meu primeiro emprego iniciei um estudo de orçamento familiar nos moldes do existente na época. Com alguns intervalos para ir formando uma família, voltei a trabalhar em uma empresa. Dei aulas de estatística, trabalhei em pesquisa de mídia em agências de publicidade e no Ibope. Atualmente me dedico exclusivamente a minha empresa.
Por que você decidiu cursar Ciências Sociais?
Sempre estudei em escola pública, do primeiro ano de grupo escolar ao último de faculdade. Na época, essas escolas eram referência e centros de excelência de ensino – muito melhores do que as escolas particulares, inclusive a de Botucatu; primeiro a Escola Modelo, depois o Instituto de Educação “Dr. Cardoso de Almeida”. No Curso Normal tive uma ótima professora, Jayr Conti, que estudou em uma das primeiras turmas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, e a incentivadora e principal responsável por minha escolha. Vim para São Paulo sem saber muito bem o que eram Ciências Sociais, mas consegui entrar na Faculdade já na primeira tentativa. No momento de prestar o vestibular, há um leque de opções que podem ser consideradas, mas também algumas restrições, como por exemplo, não ter um maior preparo em ciências exatas para cursar outro tipo de curso, ou domínio de línguas. Estas restrições vão determinando também o que é mais adequado naquele momento e Ciências Sociais era uma das alternativas viáveis.
O que significa para você atuar como socióloga?
Na verdade, atuo como pesquisadora – de mercado, mídia e opinião pública – e fazer pesquisa é uma de nossas atribuições legais como sociólogos que somos. Mas a pesquisa é uma das áreas em que o curso de Ciências Sociais dá um embasamento teórico bastante profundo e necessário para o planejamento e para a análise de pesquisas qualitativas e quantitativas e para o uso de diversas técnicas. Tanto assim que muitos sociólogos trabalham nesta área de pesquisa.
Como a formação na sua graduação pode ajudar nesse trabalho que você desenvolve de planejamento de pesquisas de opinião?
Um dos campos em que mais atuo é a pesquisa de opinião pública, muitas vezes para traçar um diagnóstico de um município ou estado, analisar a imagem de um político que tenha sido eleito para um cargo, conhecer as reivindicações populares mais prementes e que o poder público pode e deve atender. Muitas vezes, a técnica utilizada para se traçar esse diagnóstico é a discussão em grupo, uma reunião de pessoas com características de homogeneidade previamente determinadas e que devem responder a um estímulo de um profissional, o Moderador. Essa técnica também é utilizada em épocas de campanhas eleitorais, para aconselhar a coordenação sobre rumos a tomar. A pesquisa, nesse caso, é fundamental para conhecer o que o eleitor pensa e deseja.
| O profissional precisa ser muito bem treinado e ter cultura política e social para desenvolver um tipo de trabalho que requer discernimento |
Fale de algumas experiências pessoais com campanhas eleitorais, estratégias políticas, assessoramento de campanhas.
O bom de uma campanha eleitoral é poder acompanhá-la desde o início e ter uma boa sintonia com os estrategistas de comunicação e marketing do cliente, no caso, um político candidato a um cargo eletivo. É um constante trabalho que tem de ser rápido e eficiente, visando a vitória. Como o Brasil é grande, tem mais de cinco mil municípios, muitos dos quais de porte médio ou grande, diria que a área de pesquisa qualitativa e quantitativa para assessoramento de campanhas eleitorais, estratégias políticas etc. é um campo em expansão, até porque de dois em dois anos, desde 1988, temos eleições no País. Claro que o profissional precisa ser muito bem treinado e ter cultura política e social para desenvolver um tipo de trabalho que requer discernimento e, nesse sentido, o curso de Ciências Sociais é fundamental para essa formação.
A Lei de nossa profissão não reservou mercado exclusivo para o sociólogo. Como você acha que podemos garantir isso e evitar que tantos outros profissionais disputem nosso espaço de trabalho?
Acho esse um assunto polêmico. Tomando como similar o caso dos jornalistas, pergunto: só alguém formado em jornalismo por uma faculdade pode ser um bom jornalista? Os jornalistas de antigamente, quando ainda não havia no País faculdades específicas, eram muito bons. Muitas vezes nem tinham cursado alguma faculdade, eram formados “na vida”, no jornal ou na revista. Cultura se adquire com uma abertura panorâmica e vontade de aprender, e um bom profissional é aquele que tem respostas mais objetivas e adequadas para o problema que se estuda em um determinado momento. Não sei quais seriam as áreas em que só sociólogos poderiam atuar. Tenho cá minhas dúvidas se uma lei restritiva seria boa ou ruim para nós, sociólogos. Acho que esse é um assunto que deveria ser muito mais debatido entre nós.
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LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO é sociólogo, professor, escritor, arabista e vice-presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). Possui diversos livros e artigos científicos publicados sobre a profissão. EMAIL: lejeunemgxc@uol.com.br |
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