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O amigo certo
A análise sociológica sobre a amizade chega ao contexto histórico ou cultural e mostra a alteração do significado do que seria um 'bom amigo'
por PATRÍCIA PEREIRA

A amizade costuma ser vista como o vínculo mais autêntico. Isso por ser uma relação que pressupõe escolha e não passa por nenhum outro interesse que não seja a afinidade e a vontade de estar junto. A socióloga americana Jan Yager escreveu o livro Bons Amigos Maus Amigos (editora Gente, 2007), lançado no Brasil ano passado. Nele, analisa quando uma amizade é positiva ou negativa. Mas será que existem mesmo fórmulas prontas? Alguns sociólogos e antropólogos explicam que o conceito de amizade e o que se espera de um amigo varia ao longo da vida, de sociedade para sociedade e de uma época para outra. Os únicos quesitos que parecem ser constantes é a necessidade de confiança e de reciprocidade.

Claudia Barcellos Rezende, professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e autora do livro Os Significados da Amizade - Duas visões de O amigo certo pessoa e sociedade (editora FGV, 2002) fez uma pesquisa na década de 1990 para comparar a amizade entre londrinos e entre cariocas. “São duas sociedades que compartilham valores do mundo ocidental e moderno, mas encontrei diferenças razoáveis na definição de amigo e nas relações de amizade”, diz.

O conceito de amizade e o que se espera
de um amigo varia ao longo da vida, de
sociedade para sociedade e de uma época para outra

De acordo com Claudia, o que se entende por um “bom amigo” seria diferente no Rio de Janeiro e em Londres. Na Inglaterra, como as pessoas valorizam na maior parte do tempo a contenção das emoções e a polidez nos contatos, a expressão mais espontânea das emoções fica restrita a um grupo pequeno de pessoas - amigos, amores e relações familiares. Uma grande diferença em relação ao Brasil: “Aqui, a amizade não passa por uma questão de revelação emotiva. As pessoas são espontâneas o tempo todo e com qualquer um. Para o brasileiro, amigo é em quem se pode confiar no sentido de ser uma pessoa que lhe quer bem e não tem a intenção de usar essa amizade para qualquer outro fim”, diz a professora. Ela explica que, na Inglaterra, um bom amigo é aquele em quem posso confiar para revelar minhas emoções mais verdadeiras sem ser rejeitado. “Não passa pela cabeça deles ou não é tão importante a preocupação em saber se o amigo é bem intencionado ou interesseiro, como ocorre no Brasil. São sociedades diferentes na maneira de lidar com as emoções”, completa.

Amizade e família são instituições
que só são passíveis de definição
nos termos de nossa cultura

O papel de um amigo

FOTOS: SHUTTER STOCKOutra diferença apontada por Claudia é no número de amigos. A amizade na Inglaterra é mais restrita e os grupos, mais fechados. “No espaço de trabalho, por exemplo, os ingleses acham difícil de se fazer amizade. Já no Brasil todos têm amigos no trabalho”. A amizade para os brasileiros não fica limitada por um grupo pequeno. “Sabe-se apontar círculos mais amplos e que, além disso, atravessam mais facilmente fronteiras sociais, de classe, de religião e de raça.”

Uma vez que varia de Londres para o Rio de Janeiro, o conceito de amizade também se altera com a história. “Basta pensar nos ‘três mosqueteiros’, por exemplo. Eles eram amigos, mas não para conversar sobre intimidades. O que os unia era a lealdade, a defesa da honra”, diz Claudia.

Já Sônia Maria Giacomini, doutora em Sociologia e professora do Departamento de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), lembra o período medieval, em que, para os cavaleiros, a vida poderia depender do vínculo que se tinha com um amigo. “Neste período, amizade significava proteção e a existência dela era mais pensada entre homens. Mulheres tinham mais relações ligadas ao parentesco do que à amizade. Isso porque viviam inseridas no contexto doméstico familiar.”

 

O antropólogo Edmundo Peggion, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, mostra que a amizade pode ter conceitos completamente estranhos à idéia formal que temos de um amigo. “Um exemplo interessante ocorre entre os povos indígenas do Brasil Central. Os povos falantes das línguas Jê da região possuem uma instituição chamada Amizade Formal.

Quando o jovem passa pelo ritual de iniciação, é associado a um outro rapaz (também iniciando) de sua faixa etária. Ambos vão permanecer próximos e com forte vínculo durante toda a vida. Podem se ajudar nos trabalhos cotidianos, nos roçados e nas caçadas. No entanto, a existência da amizade formal está principalmente ligada à vida ritual.

Durante os rituais, os amigos formais participam juntamente do desenvolvimento das atividades.”

De acordo com Peggion, se entendermos a organização social como a forma de funcionamento da sociedade, podemos considerar que é justamente ela que determina a amizade. “Outras formas de organização social implicam outras formas de amizade. Assim também podemos considerar a idéia de família. Amizade e família são instituições que só são passíveis de definição nos termos de nossa cultura. A cultura é dinâmica e, portanto, a amizade varia conforme o tempo e o momento da cultura”.

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