Customização de espaços Novas alternativas em busca de liberdade e qualidade de vida mudam gradativamente e de forma significativa a sociedade moderna por CATHIA ABREU

Quando ouvimos falar em qualidade de vida, tendemos a ligar este conceito a hábitos e atitudes relacionados a alternativas saudáveis.
A customização de espaços é uma dessas "saídas", que algumas pessoas buscam para poder ter mais liberdade e tempo para si. A palavra já diz tudo, pois customizar tem sua raiz na expressão inglesa custom made, que quer dizer sob medida, no verbo to customize, ou seja, adaptar ao gosto pessoal.
Nada mais perfeito no mundo globalizado, em que as mudanças podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, pois as informações circulam sem se apegar ao tempo ou ao espaço. A oportunidade de otimizar seu próprio tempo e adequá-lo conforme as oportunidades que surgem é uma exigência da batida diária de trabalho. Quem não quer ter mais tempo para desenvolver um empreendimento, viajar e trabalhar no que gosta? Mais ainda, ter a liberdade de chegar em casa, depois de um dia frenético no trabalho e simplesmente fazer o que quiser, sem precisar parar e se incomodar com certas tarefas domésticas e de administração que qualquer lar exige?
Por isso, a adequação do nosso gosto ao dia-a-dia e às obrigações cotidianas, hoje, é aplicada em muitos campos, sempre com o foco na felicidade e no bem-estar, principalmente, no trabalho. Mas quando começou essa busca por uma vida em que a preocupação com o próprio gosto passou a ser um conceito?
FOI NA METADE do século XX, por volta dos anos 50, que a expressão "qualidade de vida" passou a ser entendida por estudiosos e sociólogos, como o americano Frederick H. Buttel, ícone da sociologia ambiental. Na época, a discussão acontecia do ponto de vista da ecologia, da relação da sociedade com o ambiente e sua preservação. Mas, ter uma vida com qualidade está associado a múltiplos fatores. Mais tarde, esse entendimento seria estendido para outros campos como a medicina, para pensar a melhoria da saúde pública, e a economia, por meio da associação entre a renda da população e o acesso a benefícios, a exemplo da educação e da possível elevação do padrão de vida dos cidadãos. Mas, para alguns sociólogos, a busca por qualidade de vida não está presa ao tempo e acontece quando um indivíduo ou grupo percebe que pode satisfazer suas necessidades, aproveitando as oportunidades, para assim alcançar um estado de felicidade e a realização pessoal. Implica na oportunidade de fazer escolhas que garantam satisfação em viver. Por isso, a vida com melhor qualidade abrange variadas condições que podem ser usufruídas pelo indivíduo, seus sentimentos e comportamentos relacionados com o cotidiano. Na rota dessa vida, vale também a adaptação dos grupos humanos, em diferentes épocas da vida, de uma ou várias sociedades, de seus valores e ideais, formando novas tendências e comportamentos.
"O tempo fundamental para o indivíduo é
um fato social explicado pelo âmbito das relações sociais"
Tempo livre não escravo
Para o sociólogo Fernando Ponte, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, as diferentes e principais tendências sociais dependem de como funciona um determinado sistema, de suas instituições normativas e do lugar do indivíduo neste contexto. Deve-se levar em conta, principalmente, a evolução da divisão do trabalho social para um estágio mais complexo. O tempo fundamental para o indivíduo, por exemplo, é aquele dedicado à sua função ou a funções exercidas na sociedade, ou seja, o tempo é um fato social que é explicado pelo âmbito das relações sociais - não é uma explicação psicológica e nem econômica. Assim, depende mais das escolhas que as pessoas fazem na relação indivíduo e sociedade, tem relação direta com as ações sociais e, por isso, está ligado a valores. Neste caso, é necessário abstrair-se das determinações externas às escolhas subjetivas. "É preciso situar como o tempo associado à necessidade da produção da vida, enquanto valorização do capital, perde a associação ao sentido pleno do tempo livre, do ócio; assume então um conteúdo relacionado à produtividade, logo, torna os indivíduos instrumentos descartáveis dos meios. É a instrumentalização como condição humana", diz ele.
Quem nunca ouviu, por exemplo, o clichê: "tempo é dinheiro!". Uma alusão ao fato de não se poder perder tempo com assuntos ou com condições que entravem a busca incessante por padrões financeiros elevados. Neste sentido, para o sociólogo Ponte, o tempo não é igual para todos e, certamente, verifica-se como milhões de pessoas não terão tempo para "viver"; são excluídas porque estão sobrando no tempo de produção de valores de troca, que exclui o sentimento de liberdade, muito importante e estreitamente relacionado ao tempo.
Para o jornalista carioca Fernando Paiva, o sentimento de liberdade pode ser o resumo de sua relação com o trabalho. Há seis anos, ele faz parte da equipe de jornalistas da revista Teletime - veículo de comunicação especializado em divulgação no ramo de telecomunicações - e está satisfeito com sua atual situação na empresa. Ele é correspondente no Rio de Janeiro, pois a matriz da revista funciona em São Paulo. Ele trabalha em casa e com toda a liberdade para otimizar seu tempo. "A Teletime foi uma oportunidade de trabalho totalmente nova. Não busquei a revista porque ia trabalhar em casa, embora estivesse muito estressado com o meu trabalho anterior, quando cobria o setor de telecomunicações do Jornal do Comércio", diz ele.
Paiva conta que na época em que o contrataram, a empresa chegou a fazer uma proposta de aluguel de uma sala comercial, mas, para trabalhar sozinho em um escritório, preferiu trabalhar em casa, o que, para ele, foi uma decisão acertada. "Desfruto de uma liberdade que não tinha na redação em que trabalhava. Enquanto espero por uma entrevista, por exemplo, posso ligar a televisão ou ler um livro, atitudes que não poderia tomar se estivesse em um ambiente formal de trabalho. A diferença é que na redação é preciso produzir independentemente do tempo ocioso e mesmo que essa produção não tenha qualidade total", afirma.
A Teletime paga todas as despesas, como custos de transporte e suporte técnico, mas, para o jornalista Paiva, o mais interessante é o tempo livre que tem. "A liberdade para organizar o meu tempo, embora eu tenha que estar disponível em horário comercial para atender a empresa, é a maior vantagem que vejo, pois posso redirecionar minhas horas livres conforme as minhas necessidades", diz.
E com a liberdade que desfruta no trabalho, Fernando Paiva pode, por exemplo, tocar sua banda de rock Luisa mandou um beijo, e até fazer turnês internacionais. Porém, ele dá um conselho para quem pensa em adotar esse estilo de trabalho: "Para trabalhar em casa é preciso ser disciplinado e saber aproveitar o tempo livre para adequar as tarefas pessoais". Contudo, dá a dica e aponta este modelo de trabalho como uma forte tendência para o futuro "A comunicação está cada vez mais disponível em todo lugar. Você pode ir para a praia, levar seu laptop ou celular e trabalhar ali, por exemplo", finaliza.
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