A mídia na mira da Sociologia Desde o desenvolvimento da sociedade industrial, a mídia, sobretudo a TV, padece de um estudo que revele as transformações ocorridas em todas as formas comunicativas por JULIANA TAVARES fotos PAULO BRASIL
Alberto Abruzzese é um dos mais notáveis pensadores do panorama cultural de estudos da comunicação do mundo. Professor da cátedra de Sociologia da Comunicação da Universidade de Línguas e Comunicação de Milão (IULM) e da Universidade La Sapienza de Roma, Abruzzese esteve recentemente no Brasil a convite do Centro de Pesquisa da Opinião Pública em Contextos Digitais, o Cepop-Atopos (ECA/ USP), para ministrar um curso de pós-graduação sobre a natureza do mundo na época pós-humana. Além disso, ele aproveitou a viagem para divulgar o seu livro O esplendor da TV: origem e destino da linguagem audiovisual, o primeiro traduzido para o português e publicado pela editora Studio Nobel em parceria com o Istituto Europeo di Design.
Nascido em 1942, em Roma, na Itália, Abruzzese vem desenvolvendo uma intensa atividade de pesquisa, em colaboração com centros e institutos italianos e internacionais, entre eles o próprio Atopos, da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, é articulista em vários periódicos (Rinascita, Manifesto, Espresso, Mattino), nos quais aborda temas sobre estratégias expressivas da comunicação e políticas culturais do cinema, da TV e das informações.
Para esta entrevista, que só aconteceu graças à intermediação do doutor em comunicação e professor da ECA, Massimo Di Felice – que fez a vez de tradutor do sociólogo – Abruzzese sugeriu receber a equipe da Sociologia Ciência & Vida no bar de um importante hotel de São Paulo. Entre um gole de café e um sorriso debochado para o tradutor que, cansado, às vezes confundia o português com o italiano, o sociólogo gesticulava ao mesmo tempo em que discorria sobre o seu tema favorito: mídia e sociedade. A verdadeira aula sobre a história da comunicação que se seguiu a partir desta entrevista, mostra o brilhantismo do sociólogo. Confira!
” A partir dos anos 1930, a mídia passou
a ser responsável pela construção das
novas relações e conflitos sociais"
S - Antes de se tornar sociólogo, você se formou em Filosofia e em Letras. Como surgiu o seu lado sociólogo?
Abruzzese: A partir dos meus estudos humanísticos e, portanto, de metodologias ligadas às teorias literárias, à história do espetáculo, semiologia, estética, etc., decidi estudar, há alguns anos, a história da indústria cultural. E isso determinou meu abandono do discurso literário e meu ingresso no âmbito sociológico. O interessante é que, por anos, os textos mais importantes sobre Sociologia da comunicação, no mundo, eram os estudos da Escola de Frankfurt. A Itália, porém, pertencia a uma área acadêmica sociológica que era completamente estranha à cultura da comunicação. Por conta disso, estudar comunicação naquele país não era apenas uma inovação, mas uma atitude repleta do peso da culpa. Um pesquisador como eu se apresentava, naquele momento, como uma contra tendência às disciplinas tradicionais de interesse dos sociólogos e dos próprios estudos da comunicação que, por anos, focou a mídia muito mais que as relações sociais que surgiram a partir dela.
S - Foram nestas relações sociais que surgem por causa dos meios de comunicação que você se baseou para escrever o seu livro O esplendor da TV?
Abruzzese: Meu livro pretendeu abordar os acontecimentos a partir dos anos 1930, quando a mídia passou a ser responsável pela construção das novas relações e conflitos sociais. A proposta foi pensar as experiências midiáticas e as formas tecnológicas do social como um processo histórico, cujos detalhes e especificidades iluminam a perspectiva das análises da news media, dos cyborgs e da computação, bem como os processos de transformação das nossas formas tecnológicas de vida. Afinal, o estudo das origens e do desenvolvimento da mídia é fundamental para se entender as transformações dos sistemas sociais. Com o surgimento das mídias tecnológicas, entre o século XIX e XX, a Sociologia se afastou um pouco daquilo que estava acontecendo no mundo, apesar de ser uma disciplina que nasceu com o surgimento da sociedade industrial e que pretende não só encontrar as regras do sistema social como, também, mudar suas estruturas. Antes disso, a sociedade era um território físico, institucional e muito ligado à cultura de representação.
S - Sendo assim, quando é que ocorre a primeira manifestação expressiva da comunicação moderna?
Abruzzese - A passagem da forma oral para a escrita é uma das mais extraordinárias transformações tecnológicas que ocorreram no mundo, porque permitiu que o pensamento fosse depositado fora do sujeito, deu-lhe liberdade para ultrapassar os limites do tempo e do espaço, tornando-se uma forma específica de poder. Ao lado da música e da pintura, a escrita é, a meu ver, a primeira grande manifestação da comunicação.
S - Das tecnologias que surgiram no final do século XIX, qual representa melhor a formação da sociedade de massa?
Abruzzese - As metrópoles, no início do século XX, foram formadas a partir da mídia de massa. Neste caso, por exemplo, o cinema é a tecnologia que, na época, traduzia tudo o que estava acontecendo na metrópole. E por isso, a partir das projeções, ganhou força ao levar para fora do perímetro urbano a experiência do que acontecia na cidade.
S - Como os pesquisadores avaliam esta época da história?
Abruzzese - Na tentativa de construir uma história social da mídia, é preciso apontar as contribuições principais oferecidas por Marshall McLuhan, que criou a teoria da mediologia, da tecnologia como prótese dos atos humanos. Na época, ele recebeu severas críticas da academia, tal como Walter Benjamin. McLuhan, nos anos 1950, evidenciou as características revolucionárias da publicidade e do meio televisivo, apontando como positivo o desenvolvimento da indústria cultural norte-americana, enquanto a academia enxergava isso com desconfiança. Ele, como Benjamin, forneceu os estímulos para nossa exploração que produziram o nascimento da TV no contexto das comunicações de massa.
S - E por que a academia desconfiou do desenvolvimento da indústria cultural?
Abruzzese - Enquanto as disciplinas institucionais da universidade estavam ligadas à cultura vertical e elitista dominante na modernidade, a cultura da mídia, sobretudo com o avanço tecnológico, passou a produzir um tipo de cultura que vem do povo. Portanto, todas as disciplinas passaram a tentar entender o comportamento contemporâneo sem qualquer referência, o que mostrou a incapacidade e vazio das teorias em relações aos novos comportamentos sociais e mudanças de identidade. Fazer uma história da mídia significava fazer uma história dos diferentes territórios que a humanidade desenvolveu ao longo dos séculos. Se analisarmos friamente, ainda hoje, a cultura da Sociologia, do jornalismo e da política, entre outras, pensa-se que existe uma estrutura social independente, e a mídia é apenas uma ferramenta deste aparato.
S - Que tipo de conseqüência essa forma de enxergar a mídia apenas como uma ferramenta da estrutura social pode trazer para a sociedade?
Abruzzese - Isso produz um efeito duplo: dizer que a mídia é apenas um instrumento de comunicação abre a possibilidade de uma efetiva instrumentalização política da mídia. Por outro lado, essa afirmação supervaloriza a mídia. Tanto é assim que todas as culturas que hoje se sentem em dificuldade tentam ganhar força pela mídia, controlando seus centros de poder ou, ao contrário, criando uma cerca de proteção que dá continuidade à perpetuação da dicotomia entre cultura elitista e cultura popular.
“Se analisarmos friamente, ainda hoje, a cultura
da Sociologia, do jornalismo e da política,
pensa-se que existe uma estrutura social
independente, e a mídia é apenas uma
ferramenta deste aparato ”
S - E de que maneira a mídia afetou as relações sociais?
Abruzzese - Um texto publicado por Joshua Meyrowitz, em 1985, colocou em jogo as qualidades dos meios de comunicação e as qualidades da interação social, fazendo-as convergir na consciência constante de que as formas de comunicação reproduzem a origem do face a face e o evento da performance. Partindo do conceito de situação social, o estudioso preferiu substituir a relação entre lugar e comportamento por aquela que ele considerou a situação social um sistema informativo. Para ele, o enfraquecimento do real e a multiplicação das vozes nos convidam para outras formas de cidadania, que se desenvolvem além do sentido do lugar e das formas sociais territorialmente determinadas e demarcadas. Esses seriam os elementos que estão em jogo na sociedade de massa e não somente seus aspectos instrumentais e de indução criados pela indústria cultural e pela interação midiática de massa. Hoje, não há episódio ou escolha de nossa vida diária e de nosso sistema social que não passe pela TV. Não há estética ou ética, ideologia ou política, paixão ou conflito que não ajam televisivamente.
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