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Por que uma sociedade mais justa e solidária
Herbert José de Souza, o sociólogo conhecido como Betinho, teve uma trajetória de muitas lutas, projetos, sonhos, desafios e também conquistas que fizeram a diferença
por Dulce Chaves Pandolfi

Ética e democracia

ilustração: rafaela nogueira
Dulce Chaves Pandolfi é pesquisadora do Cpdoc/FG V e diretora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase

Ao longo da vida, Herbert José de Souza, o carismático Betinho, passou por muitas dificuldades e enfrentou muitos desafios. Mas, também, sempre sonhou e lutou muito. De forma incessante e por meio de diferentes frentes de batalha, tentou construir uma sociedade mais justa e solidária. Ainda muito jovem, indignado com seu sofrimento e com as injustiças do mundo, buscou apoio na fé e partiu para a militância política. Costumava dizer que guardava seus sentimentos de frustração para as coisas mais pessoais. Nas causas políticas, ficava indignado. Caso contrário estaria perdido. De fato, a indignação e a esperança, as lutas e os sonhos marcaram profundamente a intensa trajetória daquele, aparentemente, frágil mineiro que nasceu na pequena cidade de Bocaiúva, no dia 3 de novembro de 1935 e morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de agosto de 1997, aos 61 anos de idade, contaminado pelo vírus da Aids.

Betinho foi criado em uma família católica, onde a solidariedade era um forte valor. Sua mãe, dona Maria, era conhecida pelos almoços que diariamente fazia para os amigos dos seus oito filhos. O pai, seu Henrique, no período em que foi dono de padaria em Bocaiúva, costumava distribuir comida para os pobres da cidade. As irmãs mais velhas eram da Ação Católica, um movimento de leigos vinculados aos setores mais progressistas da Igreja, que defendiam uma maior intervenção na realidade social do País. Segundo Betinho, “[...] a influência das minhas irmãs Vanda e Zilah foi fundamental. Elas eram bandeirantes. Um dia, quando eu ainda era menino, fomos visitar um lixão em Belo Horizonte. As pessoas dividiam restos de comida com urubus. Aquilo me marcou muito.”1

A infância de Betinho foi marcada pelas diversas interrupções
nos estudos devido às freqüentes crises de hemofilia

1 - O Estado de São Paulo, 14/12/1996.

A infância de Betinho foi marcada pelas doenças. Hemofílico, várias vezes teve que interromper os estudos devido às freqüentes crises de hemofilia. Dos quinze aos dezoito anos ficou confinado em um quarto da sua casa, em Belo Horizonte, em função de uma forte tuberculose, doença naquela época de difícil cura, sobretudo para um hemofílico. Seu estado de saúde ficou tão grave que chegou a receber a extrema-unção. Nessa espécie de prisão domiciliar, Betinho leu muito e entrou em contato com o humanismo cristão. Além dos romances policiais de Agatha Christie e a obra completa de Dostoiévski, devorou os livros de Teilhard de Chardin, Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e George Bernanos trazidos por suas irmãs. Em 1953, curado da tuberculose, Betinho retomou os estudos e ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC), uma organização estudantil vinculada à Ação Católica. Em pouco tempo, era uma das lideranças mais expressivas do movimento estudantil de Belo Horizonte.

Betinho aliava o engajamento político a uma intensa vida católica. Ia à missa e comungava diariamente. Foi nesse período que conheceu o dominicano Frei Mateus Rocha, assistente da JEC de Belo Horizonte e que se tornou uma espécie de seu “pai espiritual”. Em 1958, ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas onde cursou Administração Pública e Sociologia Política. Passou a militar na Juventude Universitária Católica (JUC), o caminho natural para os estudantes da JEC que ingressavam na universidade.

No início dos anos 60, junto com um grupo de militantes católicos, fundou uma organização política, a Ação Popular (AP), voltada para reformar as estruturas do País. Em 1963, durante o governo João Goulart, já formado em Sociologia, foi assessor do Ministério da Educação e engajou-se na campanha de alfabetização de adultos liderada por Paulo Freire. Foi também assessor da Superintendência de Política Agrária (Supra). Dirigente nacional da AP, Betinho percorria o País de norte a sul e participava ativamente das lutas em prol das chamadas “reformas de base”.

Fonte:
http://www.transparencia.org.br/docs/compravotos2004.pdf
*O cartunista, quadrinista, jornalista e escritor brasileiro, Henrique de Sousa Filho, conhecido como Henfil, foi uma personalidade na luta contra o regime ditatorial do País. Hemofílico como os irmãos Betinho e Chico Mário, contraindo o vírus da AI DS em uma transfusão e faleceu de complicações da doença em 1988. A música é uma homenagem a ele a a Betinho, que na época da composição vivia no exílio.
Militância musical
O bêbado e o equilibrista - (Aldir Blanc e João Bosco)
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco
Louco, o bêbado com chapéu coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil*
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarices
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Logo após o golpe militar de 1964, que derrubou o governo Goulart, Betinho, procurado pelos órgãos da repressão, entrou na clandestinidade. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, teve seu pedido de prisão decretado. Em julho de 1964, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), em documento oficial, solicitava informações que levassem ao paradeiro de “Herbert José de Souza, brasileiro, solteiro, educação nível superior, com os seguintes dados antropométricos: altura: aproximadamente 1,70m; idade: 28 anos; cabelos: castanhos bem claros, ondulados; olhos: castanhos claríssimos (quase ouro); compleição: bem franzino (semi-esquálido); rosto: fino, maçãs salientes, queixo levemente quadrado, olhos grandes, nariz grande e arredondado, sobrancelhas cerradas, barba e bigode raspados; tez: morena clara (de sol); cor: branca. Características: anda levemente curvado, braços exageradamente abertos em relação à horizontal do corpo. É hemofílico. Costuma trajar-se a caráter social (paletó e gravata). Aspecto de pouca saúde. Introvertido.”2 Anos mais tarde, à revelia, Betinho foi condenado a cinco anos de prisão pelo Conselho Permanente de Justiça da Aeronáutica.

Foto: Elza Fiúza / ABr
Apesar da dramaticidade do diagnóstico da AI DS, Betinho declarou-se publicamente portador do vírus e tornou-se um grande ativista na luta para combater o preconceito que envolvia a doença, incentivando ações realizadas até hoje

Apesar de perseguido, não dava tréguas ao regime militar e continuava dirigindo a Ação Popular. Em missão política, viajou para o Uruguai e passou vários meses em Cuba. De volta ao Brasil, foi morar em um bairro operário e trabalhar em uma fábrica em São Paulo. O sociólogo transformou-se em operário. Tentava arregimentar os trabalhadores no ABC paulista para derrubar a ditadura. Na clandestinidade, passou a usar os nomes falsos de Francisco e Wilson. Foi na militância que conheceu Maria Nakano, também da Ação Popular, com quem ficou casado até o final da vida. Em 1971, Betinho fugiu para o Chile, mas Maria permaneceu em São Paulo, em função dos trabalhos políticos que estava desenvolvendo para a AP. Pensaram que jamais iriam se reencontrar. Em 1972, uma grande repressão se abateu sobre a AP e Maria também fugiu para o Chile onde reencontrou Betinho. Foi nesse reencontro que Maria e Betinho ficaram sabendo dos verdadeiros nomes de cada um, mantidos em segredo por conta das perseguições policiais que ambos sofriam no Brasil. Em setembro de 1973, quando um golpe militar derrubou o governo de Salvador Allende, Betinho teve que pedir asilo na embaixada do Panamá.

A criação do Ibase objetivava assessorar e oferecer informações
para os movimentos sociais que estavam
em efervescência no Brasil

Durante o exílio, que se prolongou por oito anos, Betinho, além do Chile, morou no Panamá, Canadá e México. No exterior, a preocupação com o Brasil era constante e as articulações políticas com outros exilados eram intensas. De longe, acompanhava atentamente as lutas que se desenvolviam no Brasil contra a ditadura. Em 1979, anistiado, o “irmão do Henfil” voltou ao Brasil. A canção de João Bosco e Aldir Blanc, O bêbedo e o equilibrista, havia transformado Betinho em um símbolo da luta pela anistia (veja quadro Militância musical).

Em 1981, juntamente com Carlos Alberto Afonso e Marcos Arruda, companheiros do exílio, fundou o Instituto Brasileiro de Análise Sociais e Econômicas (Ibase), com recursos oriundos do exterior, sobretudo de entidades religiosas. O projeto havia sido concebido durante o exílio. O objetivo era criar uma entidade para assessorar e oferecer informações para os movimentos sociais que estavam em efervescência no Brasil. Para produzir argumentos que ajudassem a intervir no debate público, Betinho realizava encontros mensais para discutir a conjuntura. Esses encontros, sempre regados por cerveja gelada, mobilizavam intelectuais e militantes. Os resultados eram colocados no papel, xerocados e repassados para os movimentos sociais, igrejas e universidades. Aos poucos, o Ibase foi se institucionalizando. Além de assessorar os movimentos sociais, era necessário fazer pesquisas, produzir conhecimento para interferir de forma mais qualificada no debate público.

2 - Cópia de documento do Ministério da Marinha, stado-Maior da Armada, Cenimar, datado de 12/07/1964, que integra o dossiê pessoal de Betinho no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Arquivo Herbert de Souza, Cpdoc/FG V.

Betinho costumava dizer que gostava de pensar grande. Por isso, ao longo do período em que esteve à frente do Ibase, em parceria com entidades e representantes da sociedade civil, articulou diversas campanhas para tentar mobilizar a sociedade em torno de questões que fizessem avançar a democracia.


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