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Memória
Rússia 1917: uma sociedade em transformação
A Revolução Russa de 1917 é um marco na história da sociedade moderna. Já se passaram 90 anos e continua sendo objeto de calorosos debates
por Nildo Viana

fusão de imagens: rafae la nogueira / wikimedia / shutterstock
Cartaz da Revolução com os dizeres: “Não queremos lutar, mas defenderemos os sovietes!”

A história da sociedade russa está intimamente ligada com a história mundial e sua influência terá alcance igualmente mundial, não somente por meio da chamada bolchevização dos partidos comunistas como também da Guerra Fria, na qual a polarização entre Rússia e EUA mostrava dois modelos de desenvolvimento capitalista diferenciados. Foi geralmente abordada por diversos historiadores, sendo poucos os estudos sociológicos sobre este fenômeno histórico. Nosso objetivo será realizar uma análise deste processo histórico, problematizando o que provocou tal acontecimento histórico e que tipo de sociedade foi constituída após a revolução.

O primeiro ponto a destacar é que a Sociologia tem como um de seus principais temas a mudança social. Os escritos clássicos de Marx, Weber e Durkheim trabalham essa questão. Depois dos clássicos, o tema da mudança social não recebeu grandes estudos, pois a especialização crescente da Sociologia fez com que grande parte dos sociólogos se dedicasse apenas à sociedade moderna e não o seu processo de formação, com raras exceções. Porém, o tema da revolução gerou uma sociologia especial, a Sociologia da revolução, expressa em obras como as de Kurt Lenk, André Decouflé e Umberto Melloti, entre outros.

A sociedade russa, as classes sociais mais ativas eram o campesinato e o proletariado, seguido pela intelectualidade radicalizada

A Revolução Russa de 1917 teve o antecedente histórico da Revolução de 1905, marcada pela ocorrência de novos fenômenos. Este é o caso da espontaneidade revolucionária da classe trabalhadora, bem como a instituição de novas formas de organização, especialmente os sovietes – conselhos operários –, que vão marcar as lutas operárias em diversos países no início do século XX e vão reaparecer em diversas outras oportunidades até os dias de hoje.

Depois de 1905, existiu uma época marcada por conflitos mais amenos, mas a guerra, a fome, e a situação deplorável da maioria da população fez ressurgir os elementos que haviam sido esboçados nessa época. Num contexto marcado por uma situação de vida cada vez mais desfavorável, surge um novo movimento de contestação que irá explodir em fevereiro de 1917. A revolução foi marcada pela espontaneidade revolucionária e pela formação, novamente, de conselhos operários.

A sociedade russa tinha uma população predominantemente, cerca de 70%, camponesa. Havia também uma grande parte da população composta por operários, intelectuais, burocratas. Em menor quantidade, havia burgueses e resquícios da nobreza. Neste contexto, as classes sociais mais ativas eram o campesinato e o proletariado, seguido pela intelectualidade radicalizada e agrupada nos partidos políticos, principalmente os considerados de esquerda (bolcheviques e mencheviques, socialistas revolucionários, e outros partidos e tendências menores). A burguesia russa nascente era não apenas quantitativamente reduzida, como também estava subordinada ao Estado Czarista e ao capital internacional. Não tinha forças para realizar uma revolução burguesa e modernizar o Estado Russo. Os bolcheviques tinham como alvo de sua influência principalmente o proletariado, enquanto que os socialistas revolucionários se voltavam especialmente para o campesinato, que não só era a classe mais numerosa como também já tinha uma longa experiência de lutas sociais e revoltas desde o século XIX. O proletariado, apesar de seu número ser bem mais reduzido do que o campesinato, estava concentrado em cidades mais industrializadas, o que permitia sua união e força coletiva nos maiores centros urbanos.

Um conjunto de acontecimentos fez eclodir a Revolução de Fevereiro que, segundo Carr, derrubou a dinastia Romanov por meio de uma explosão espontânea das massas exasperadas pelas privações da guerra, e desigualdade da repartição dos seus custos (Carr, 1977). O caráter espontâneo da Revolução de Fevereiro surpreendeu até mesmo Lênin que, neste período, estando na Suíça e defendendo que era necessário um partido de vanguarda para organizar a revolução, admitiu: “Em fevereiro de 1917 as massas organizaram os sovietes antes mesmo que algum partido tivesse tido tempo de lançar esta palavra de ordem.

A espontaneidade é um dos elementos fundamentais para entender as tentativas de revoluções proletárias que ocorreram no mundo moderno

O grande gênio criador do povo, temperado pela amarga experiência de 1905, que o tornara consciente, eis o artífice desta forma de poder proletário” (apud. Medvedev, 1978, p. 49).

Assim, a espontaneidade é um dos elementos fundamentais para entender as tentativas de revoluções proletárias que ocorreram no mundo moderno desde a Comuna de Paris de 1871, passando pela Revolução Russa de 1905 e a de Fevereiro de 1917, bem como as tentativas de Revolução na Alemanha de 1919 até 1923, entre diversas outras experiências históricas posteriores. O sociólogo francês André Decouflé vê seus antecedentes em épocas bem mais remotas, tal como as turbas revoltadas que produziram “Cruzadas Populares” antes das cruzadas incentivada pela Igreja Católica. Segundo Decouflé: “no primeiro nível de imediatidade e de cotidianidade, a espontaneidade coletiva pode aparecer como a ‘efervescência social’ em ação, da qual com tanta freqüência falam os sociólogos. O observador destituído de preconceitos partidários registra um número enorme de movimentos revolucionários que surgem bruscamente, sem preparo ou prelúdio especiais e, coisa ainda mais singular, sem líderes” (Decouflé, 1970, p. 73).

A espontaneidade coletiva, segundo este sociólogo, deve ser uma categoria de análise sociológica e retoma as experiências históricas para demonstrar sua emergência e reemergência constante na história da humanidade e, mais especificamente, na história da sociedade moderna: séculos XI e XII: cruzadas populares; século XVII: levantes populares na França; 1789: o Grande Medo, a revolução camponesa, os sans-culottes etc.; 1848: a revolução espontânea de fevereiro, em Paris; 1871: a Comuna de Paris e a primeira experiência de autogoverno proletário; 1900: as greves gerais espontâneas em Andaluzia (Espanha); Rússia, 1905: o nascimento espontâneo dos sovietes de operários e soldados que em fevereiro de 1917 reaparecem espontaneamente: “em fevereiro de 1917, a espontaneidade da Revolução de Petrogrado é apontada por todos os observadores, a começar pelo próprio Trotsky; em cinco dias, a capital imperial é tomada por uma revolução anônima, progredindo pela multiplicação das massas que a ela aderem: operários e operárias, soldados e até burgueses misturados ao povo e quase inconscientes de estar contribuindo para uma revolução.” (Decouflé, 1970, p. 77).

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