Cinema A violência em cartaz O filme Tropa de Elite trouxe à cena pública uma grande discussão acerca do comportamento da corporação e os conflitos violentos que permeiam a sociedade. por Guilhermo Aderaldo

Há algum tempo pudemos ver nos mais variados veículos de comunicação a notícia da distribuição ilegal de cópias do filme Tropa de Elite (2007), de José Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel, recentemente lançado no cinema. A imensa procura pelo filme no mercado negro fez com que, antes mesmo do lançamento na telona, a obra já viesse provocando grandes discussões.
Aliás, o atual cinema brasileiro, em grande medida, tem sido uma das áreas mais reflexivas em relação ao dilema da violência em nossa sociedade. Filmes como O Invasor (2001), Cidade de Deus (2002), e Quanto Vale ou é por quilo? (2005) têm suscitado grandes questionamentos, cada um a sua maneira. Na área documental, não ficamos para trás. Alguns exemplos marcantes são os filmes: Notícias de uma guerra particular (1999), O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas (2000), ônibus 174 (2002), Prisioneiro da grade de ferro (2004).
Os mesmos policiais que matam e torturam sadicamente são os que lutam contra a corrupção |
De todos os exemplos anteriores, certamente, Tropa de Elite foi um dos que mais gerou debates. Seja pelo escândalo da aparição de cópias do filme nas barracas de camelôs e nos programas de troca na internet, seja pelo modo cru através do qual mostra a ação dos policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), o que tem dado margem para acusações como a de que o filme seria “fascista” e faria apologia à violência policial.
No entanto, a questão que perpassa todos esses filmes, bem como o trabalho daqueles que buscam pensar a particularidade da violência no Brasil e, conseqüentemente, deste artigo, parece ser a mesma: em que medida a violência no Brasil se encontra situada ao nível das relações culturais e suas representações? A pergunta é central e Tropa de Elite, sem a menor dúvida, serve como bom filtro para pensá-la.

Algo que surpreende e que tem assustado algumas pessoas ao assistirem Tropa de Elite é uma ambigüidade existente em praticamente todos os planos (por exemplo, entre os universitários que falam de democracia e direitos na universidade e atuam como se seus próprios direitos valessem mais do que o dos outros fora da Instituição), e que fica mais aparente no tocante ao comportamento dos policiais do Bope, uma vez que, os mesmos policiais que matam e torturam sadicamente são os que lutam contra a corrupção e possuem uma auto-coerção moral extremamente rígida.
Trata-se, no fundo, da mesma ambigüidade existente na fala do morador da periferia, que acredita que o sistema judiciário no Brasil é desonesto e mais rigoroso com os pobres e mesmo assim é favorável à pena de morte, ou do líder político que acredita de fato em sua posição como representante do “povo” e acha no seu íntimo que o voto de sua empregada não deveria ter o mesmo peso que o seu.
Para aqueles que se familiarizam com a literatura das Ciências Sociais no tocante aos estudos sobre a violência no Brasil, talvez estas ambigüidades não sejam tão surpreendentes, afinal, não há como tratar este tema sem tocar nesta espécie de curto-circuito mental incorporado pela maioria das pessoas em nosso País.
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| Tropa de Elite foi um dos filmes que mais gerou debates, seja pelo escândalo da aparição de cópias do filme nas barracas de camelôs e nos programas de troca na internet, seja pelo modo cru como mostra a ação dos policiais do Bope |
Mas de onde vem isso? O que isso tem a ver com a violência? E em que medida este comportamento ambíguo pode servir como exemplo da especificidade da violência social no País?
Para responder a estas questões poderíamos partir de vários pontos. Se pegarmos a história brasileira recente, por exemplo, veremos que a democracia é algo extremamente novo e ainda não compreendido pela maioria dos brasileiros, até porque, de certa forma, não vivido na prática.
Após anos de ditadura militar, autoritarismo e falta de liberdade de pensamento, paradoxalmente acompanhados de um considerável crescimento econômico e do desenvolvimento de um mercado consumidor no País1,passamos por uma turbulenta transição e a democracia nos chegou em meio à recessão e ao aumento considerável dos índices brasileiros de violência.
Este árduo processo de incorporação democrática tornou-se extremamente custoso do ponto de vista cultural, afinal, como coloca Luiz Eduardo Soares (2000), consolidou-se no Brasil a primazia do relacional sobre o individual e do hierárquico sobre o igualitário.
Para Soares, este processo confuso de construção da cidadania liga-se à sociedade como uma espécie de Double Bind, ou seja, uma dupla mensagem que, por um lado coloca os indivíduos em um quadro de cidadania legal (você é um cidadão como os demais), e por outro deslegitima na prática esta legalidade (você não é um indivíduo como todos os outros e, portanto, deve colocar-se em seu lugar). Isto, por sua vez, beneficia as elites que “[...] mais uma vez e como sempre [...] aproveitam a ambigüidade a seu favor, enquanto os grupos sociais subalternos introjetam e experimentam a ambivalência como inefetividade da igualdade e a dupla perda de proteção e do sentido de dignidade, que tradicionalmente se associam às posições inferiores na ordem hierárquica”. (SOARES, 2000, p 37)
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