Teoria na prática Uma denúncia e muitos desdobramentos O caso Roberto Jefferson analisado segundo Teoria da Ação Racional: atitude do ex-deputado expõe as chagas da política brasileira por EVERALDO DA SILVA E NETANIAS DORMUNDO DIAS
Este artigo aborda as premissas da teoria da ação racional levando em consideração as ações e as relações do ex-deputado Roberto Jefferson com o Partido dos Trabalhadores (PT) no primeiro mandato do presidente Lula, em especial quando Jefferson denuncia o “mensalão”. O argumento central é que a teoria da ação racional é insuficiente para explicar as atitudes do ex-deputado quando resolve denunciar os acordos feitos nos porões da política brasileira. Para isso, inicialmente conceitua-se ação racional sua apropriação pela Ciência Econômica e pela Ciência Política e sua limitação explicativa. Observando o discurso do ex-deputado por meio do seu livro – Nervos de Aço – e da entrevista dada ao Programa Canal Livre, mobilizamos a visão weberiana para compreender melhor os atos realizados por Roberto Jeff erson, uma vez que ações dos políticos brasileiros são permeadas de costumes e valores que superam a ótica da ação racional.
O homem maximiza suas deliberações buscando obter os melhores resultados. Assim, estará se realizando plenamente |
Inicialmente, vale explicar que a teoria da utilidade ou escolha racional exerce forte impacto na Ciência Política. Ela busca informar como os atores decidem, propondo explicar a tomada de decisão individual perante várias possibilidades mutuamente exclusivas e tendo a seu favor uma sólida evidência empírica. Então, o homem maximiza suas deliberações buscando obter os melhores resultados, pois, dessa maneira, estará ele se realizando plenamente.
A teoria de escolha racional é extremamente útil, em especial em termos acadêmicos para simplificar o entendimento da economia, por exemplo. Os economistas neoclássicos foram bem sucedidos nessa empreitada, tanto que na maioria dos cursos de economia, a ênfase de ensino é dada dentro do pensamento desses autores.

QUANTO A INTERAÇÕES sociais, a teoria da escolha racional deixa a desejar, pois as decisões humanas não são restritas a duas ou três possibilidades racionalmente pensadas. O ator político não age o tempo inteiro pensando de forma intencional, fazendo cálculos de perdas e ganhos, obtendo informações, sejam elas completas ou incompletas (muitos nem informações têm) e muito menos buscam agir de forma interdependente com os demais atores o tempo todo. Há uma extensa relação de fatores que impossibilita ação 100% racional desses atores.
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| A decisão do ex-deputado Roberto Jefferson de expor a corrupção do governo Lula foi, racionalmente, um suicídio político. Suas motivações são desejos pessoais, atribuídos na obtenção de reconhecimento e poder |
A decisão do ex-deputado Roberto Jefferson de expor1 a corrupção do governo Lula, por exemplo, não obedece a esse modelo, pois racionalmente o que ele fez foi um suicídio político, talvez um modo de pôr fim à própria vida2, pois, ao político, nada é mais importante do que estar no poder. Suas motivações são desejos pessoais, atribuídos na obtenção de reconhecimento e poder. Portanto, suas ações buscam maximizar esses desejos, sendo orientadas unicamente para esse fim. (BAERT, 1997). Tal qual não o fez Jeff erson, que contrariou sua trajetória, até aqui atenta a estes princípios.
Numa breve visão histórica da carreira política do ex-deputado, notamos que ele nunca esteve fora do poder. Eleito, consecutivamente, por seis vezes para a Câmara Federal, seu ponto mais destacável aconteceu quando foi um dos líderes da “tropa de choque” na Câmara Federal durante o governo Fernando Collor e na campanha presidencial do Deputado Ciro Gomes em 2002, aceitando apoiar a candidatura de Lula no segundo turno daquela eleição. Vale lembrar que até aquela data, o ex-deputado considerava os petistas “demônios” da política nacional, tanto que na reunião da executiva nacional do PTB para decidir apoio ao PT no segundo turno da referida eleição, disse Jeff erson: “votei contra o PT e declarei à imprensa logo depois. Isso aí é remédio amargo, tem que tapar o nariz para engolir”. (JEFFERSON, 2006a, p.123).
Quando a mídia demonstrou a corrupção, tudo indicava que o exdeputado, ou o seu partido, seria responsabilizado, e que algumas demissões e sindicâncias seriam suficientes para atender os anseios da sociedade3. Portanto, é de praxe responsabilizar alguém e manter intocável a estrutura política.
Quando a mídia demonstrou a corrupção, tudo indicava que o ex-deputado, ou o seu partido, seria responsabilizado |
Mesmo no contexto social das instituições, não se pode esperar que as pessoas ajam o tempo todo de forma racional, pois os atores mudam de posição, desviam-se das predições racionais. As instituições regulam e direcionam as atitudes dos atores sociais buscando prever suas ações, mas nem sempre isso é possível porque os agentes têm estados mentais, crenças e desejos que não respondem aos estímulos racionalmente. (FEREJOHN; PASQUINO, 2001).
Tal como Roberto Jeff erson, que partiu para o ataque e buscou demonstrar que não tinha nada a ver com a corrupção nos Correios4; afinal os três mil reais, de acordo com ele, não eram para o partido (PTB), mas para o “Senhor Marinho”5. Segundo o ex-deputado (2006a), quando um partido indica alguém para um cargo, esse indicado escolhe dois ou três empresários sérios e responsáveis que estejam em condições de doar recursos ao partido.

Felizmente6, a ação racional do ex-deputado não veio ao encontro das preferências dos atores envolvidos; talvez tenha ocorrido fraqueza ou excesso de vontade por parte do governo, que proporcionou distorções na formação das crenças ou preferências do ator Jeff erson (ELSTER,1994), excesso este representado pelas pressões e fraqueza, pela incapacidade de articular uma saída consensual ao ex-deputado perante a opinião pública.
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