Maternidade em xeque? Livros com títulos provocativos como 40 razões para não ter filhos, empreendimentos comerciais com áreas livres de crianças e clubes para casais sem herdeiros fazem sucesso em países desenvolvidos. Mas até que ponto a maternidade perdeu espaço na vida social? por MARA FIGUEIRA
Kid- free zone. Eis uma expressão cada vez mais empregada nos Estados Unidos. Usada para designar áreas em que crianças não são admitidas, ela tem um sinônimo de utilização também cada vez mais corriqueira em restaurantes, salões de beleza ou mesmo trechos de praias: adults only (somente adultos).
Mas não é apenas em terras americanas que ações desse tipo têm espaço. Os benefícios de uma vida sem crianças, por exemplo, têm sido propagandeados por diversos livros no mundo ocidental e se tornado um sucesso de vendas. Escrito pela psicanalista e economista Corinne Maier, No Kid - 40 razões para não ter filhos (No Kid - Quarante raisons de ne pas avoir d'enfant, no original) já se tornou um best-seller na França, com mais de 45 mil exemplares vendidos, mostrando quão popular pode ser um mercado que também tem, entre seus títulos disponíveis, Child-Free and Loving It (em tradução livre, Livre de filhos e amando isso), da jornalista britânica Nicki Defago.
Cerca de oito mil pessoas já fazem parte do clube canadense No Kidding, movimento que defende a opção de não ter filhos |
Até mesmo clubes e associações voltadas para casais ou solteiros sem fi- lhos têm crescido - e aparecido - em nações como o Canadá e Inglaterra. Cerca de oito mil pessoas, por exemplo, já fazem parte do clube canadense No Kidding (www.nokidding.net), uma idéia do professor de inglês Jerry Steinberg, que conta atualmente com 45 filiais espalhadas por três países: Inglaterra, Estados Unidos e Austrália. A Inglaterra, aliás, também possui a chamada Associação Britânica dos Sem-Filhos (Britain Childfree Association, também intitulada Kidding Aside).
Vendo, nessa tendência, um novo nicho de mercado, corporações e empreendimentos comerciais lançam produtos e fazem adaptações. Segundo a revista Newsweek, que já dedicou espaço ao tema, a montadora japonesa Honda está criando carros em que os assentos de bebês são substituídos por lugares especialmente feitos para abrigar cachorros, uma idéia inspirada pelo crescimento sem precedentes do hábito de ter animais de estimação entre os japoneses, que amargam baixíssimas taxas de fecundidade. Na Terra do Sol Nascente, há cerca de 1,25 filho por mulher, sendo que 56% das mulheres com 30 anos de idade ainda não tiveram filhos, mais que o dobro do percentual registrado em 1985 (24%).
APRESENTAR TAXA de fecundidade total (TFT) abaixo do mínimo para a reposição da população, que é 2,1 filho por mulher, é uma característica de todos os países até aqui citados. Mas será que esse dado, somado aos exemplos listados anteriormente, realmente seria um indício de que está próximo o fim da maternidade, como questionou o colunista do Washington Post, Robert J. Samuelson?
| Filhos: tê-los ou não? A situação no Brasil |
 |
| Fonte: Síntese de Indicadores Sociais 2006, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística |
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil contará, em 2050, com uma população total de quase 260 milhões de habitantes, um crescimento absoluto de mais de 75 milhões de pessoas em relação ao ano de 2005. Por trás desses números gigantescos, porém, a realidade é que a taxa de fecundidade total - o número médio de filhos que uma mulher tem ao final de seu período fértil - tem declinado. Entre 1995 e 2005, ela caiu, por exemplo, de 2,5 para 2,3 filhos por mulher.
O resultado prático dessa média pode ser visto na composição da população. Em 1995, o percentual de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos na população total era de 32,2%. Em 2005, essa participação caiu para 26,5% e, em 2050, as projeções populacionais indicam que a proporção de crianças e adolescentes alcançará 17,8%.
Segundo o IBGE, em 2005 o número de mulheres em idade reprodutiva somava 51,2 milhões de pessoas sendo que, destas, 63% tinham pelo menos um filho nascido vivo. Porém, entre 1995 e 2005, reduziu-se o percentual de casal com filhos. Ele era de 63,7% e passou para 53,3%, na Região Nordeste, mudança também ocorrida no Sudeste. A queda é creditada à redução da fecundidade das mulheres no País como um todo. No período de dez anos estudado pelo IBGE, em lares "chefiados" por homens, observou- se um aumento de 3,6 pontos percentuais das famílias formadas por casal sem filhos. No caso da 'chefia' feminina, também houve um aumento na proporção de casais sem filhos (3,5 pontos percentuais).
|
A questão é complexa, segundo a socióloga Lucila Scavone, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, que se dedica a estudar as relações de gênero na família. Para ela, alguns fatos demonstram que ainda existe, na sociedade em geral, um interesse e um desejo forte por ter filhos. Porém, o processo tem se dado tardiamente e os casais modernos procuram ter um ou dois filhos, diferente da geração dos nossos avós que tinha mais de 3 ou 4 filhos.
 |
| Observa-se que há uma valorização da paternidade: homens começam a exteriorizar o desejo de ser pais e existem os que conseguiram adotar crianças sem a necessidade de uma companheira |
"Nos últimos tempos, observa-se que há uma valorização da paternidade: homens começam a exteriorizar o desejo de ser pais. Hoje existem até vários casos de homens que conseguiram, sozinhos, adotar crianças sem a necessidade de uma companheira. As novas tecnologias, por outro lado, também merecem atenção. A busca por reprodução assistida, por exemplo, aumentou muito no Brasil nos últimos tempos. Existe até mesmo fila de espera para conseguir o procedimento em alguns hospitais públicos de São Paulo (instituições como o Pérola Byington e o Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo, por exemplo). Além disso, é preciso lembrar que a reprodução assistida oferece possibilidades de ter filhos que fogem à lógica convencional. Na Inglaterra, há mulheres que procuraram esse caminho para ter bebês mesmo sendo virgens, assim como casais homossexuais, homens solteiros e mulheres solteiras também podem adotar essa via para realizar o desejo de ter crianças", explica a socióloga. "No entanto, vivemos em uma sociedade com uma infinidade de tendências e uma multiplicidade de escolhas, entre elas, ter ou não filhos. De fato, vemos, sobretudo nos países do hemisfério norte, uma sociedade com cada vez menos crianças, que, por sua vez, também são criadas cada vez mais como adultos. E é normal que também exista uma certa reação, materializada em todos os exemplos citados anteriormente, contra um tipo de sociedade que impõe a reprodução. Trata-se de uma tendência de pessoas que, em outros tempos, não poderiam assumir que não queriam ter filhos por não gostarem de crianças ou por outras razões."
Um dos argumentos é que em uma sociedade mercantilizada, os filhos se tornaram bens muito caros |
Realmente, por séculos, o fato de uma mulher não ter filhos, em geral estava ligado a problemas de saúde, dificilmente estando relacionado com uma opção. O movimento feminista, porém, contribuiu, juntamente com outros fatores, para o questionamento da maternidade. Por isso, muitos estudos feministas escolheram a maternidade para explicar a situação de desigualdade das mulheres em relação aos homens. A mais expressiva expoente intelectual dessa corrente Um dos argumentos é que em uma sociedade mercantilizada, os filhos se tornaram bens muito caros foi Simone de Beauvoir, que, em 1949, publicou sua obra O segundo sexo, em que aponta a maternidade como uma forma de opressão masculina. Beauvoir assumiu que não queria ter filhos, escandalizando a sociedade francesa da época.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >> |