A malha social dos acidentes Para presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia, uma teia de relações está por trás das ocorrências no trabalho por JULIANA TAVARES fotos PAULO BRASIL
Uma rápida olhada em sua sala é o suficiente para revelar o amor deste irlandês pelo Brasil. A começar pela ampla vista de sua janela, que apresenta uma São Paulo de contradições. Apesar da proximidade com uma das mais importantes avenidas da cidade, de cima do 23º andar do prédio em que mora, é quase impossível ouvir o barulho do trânsito. Lá dentro, entre as mesas e cadeiras da sala de estar, estão obras de arte, cerâmicas e quadros bem brasileiros, que dividem o espaço com livros e recortes de jornal. Foi com um sorriso cordial e diante de um apanhado de perguntas que o professor do programa de pós-graduação da Unicamp e atual presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), Thomas Patrick Dwyer, recebeu a revista Sociologia Ciência & Vida por mais de uma hora para esta entrevista.
Sua escolha pela Sociologia nasceria durante a faculdade de Administração de Empresas, quando se viu obrigado a trabalhar numa fábrica de automóveis para financiar os estudos. Na labuta do dia-a-dia, Dwyer percebeu não haver qualquer relação entre o que aprendia nos livros sobre gestão e a realidade. Esse “descompasso” entre a teoria e a prática e o desejo de entender os acontecimentos o fez, finalmente, optar pela Sociologia. A idéia de que o erro que leva ao acidente de trabalho é socialmente produzido, o que resulta – nos casos mais extremos – em morte, serviu de tese para o seu doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e se transformou em livro, o Vida e Morte no Trabalho, publicado no final de 2006 no Brasil pela Multi Ação Editora.
Entre idas e vindas ao Brasil, ele acabou se identificando com a população e com os estudantes da área, que lêem em português, espanhol, francês e inglês – o que dá à sociologia brasileira uma face cosmopolita. Mas, mais do que isso, Dwyer entendeu que, como sociólogo, poderia fazer a diferença numa sociedade com tantos desafios quanto a nossa. Nesta entrevista, ele fala sobre a sua obra e dá um panorama da Sociologia – com desafios e tendências para o futuro.
"Prega-se que 85% dos acidentes acontecem por culpa dos indivíduos, sendo, portanto, culpa de condições inseguras ou de atos inseguros" |
Como surgiu o projeto do livro Vida e morte no trabalho?
Dwyer - O motivo, na verdade, foi o que me fez optar por estudar Sociologia. Na época, eu fazia Administração de Empresas na Nova Zelândia e tive de trabalhar numa fábrica de automóveis durante as férias para custear o curso. Lá, eu percebi haver um abismo enorme entre a teoria da gestão e a realidade. Na literatura, prega-se que 85% dos acidentes acontecem por culpa dos indivíduos, sendo, portanto, culpa de condições inseguras ou de atos inseguros. Na minha tese, eu digo que os acidentes são fruto de um sistema de relações sociais de trabalho.
A sua pesquisa revelou que os trabalhadores aceitam permanecer em situações arriscadas, motivados por incentivos, inclusive financeiros. Quais são, afinal, os motivos que levam uma pessoa a se expor a riscos no trabalho?
Dwyer - São três os motivos que levam os trabalhadores a se arriscarem: recompensa, comando e organização. A recompensa diz respeito ao benefício extra oferecido ao trabalhador para que ele aceite uma tarefa de risco. É como um leilão: recebendo mais, você aceita o trabalho, mesmo sabendo que ele é arriscado. Profissionais que seguem esta orientação fatalmente terão taxas de acidentes de trabalho mais altas que os demais. Neste mesmo exemplo está o sujeito que ganha um fixo, mas, para ganhar mais, faz hora extra para garantir a renda, ou ainda a pessoa que é motivada a enfrentar riscos por causa do status: o risco, aqui, significa ser valorizado pelo grupo em que vive. No nível de comando, o arriscarse está relacionado ao autoritarismo do chefe. É a velha história do “ou obedece ou é demitido”. Neste caso, não é raro o trabalhador, sobretudo o mais novato, arriscar-se por falta de experiência, acreditando que o risco é inerente ao exercício da função. Já quando a questão é de organização, os acidentes acontecem porque fatores externos interferem na execução do trabalho. Como quando, num canteiro de obras, um martelo cai na cabeça de alguém que estava passando.
Existe sempre uma tentativa de responsabilizar os indivíduos, como o que aconteceu no caso do acidente com o avião da TAM. Por que é tão difícil apontar o atual sistema de trabalho, como falta de capacidade comunicativa, longas jornadas e excessivas demandas em determinadas situações?
Dwyer - Apesar de ser muito fácil de entender essa relação entre trabalho e desastre, não há qualquer menção a algum desses itens que aponto no meu trabalho nos relatórios de acidentes. Esse tipo de informação fica escondida porque sempre se tenta justificar as causas de um acontecimento deste tipo com dois motivos: tratou-se de um erro humano ou de falhas do sistema. Isso significa que não é uma fatalidade o martelo que caiu na cabeça de alguém enquanto você estava trabalhando num canteiro de obras. Afinal, é obrigação da empreendedora se prevenir para evitar que esse tipo de acidente ocorra.

Sendo assim, seria possível que acidentes terríveis, como os que aconteceram recentemente com os aviões da GOL e da TAM, tivessem sido prevenidos? Ou “desafiar a sorte”, “correr riscos” e “fatalidades” fazem parte das atividades do ser humano?
Dwyer - Não existe um diagnóstico que mostre o que causou o acidente da TAM ou da GOL, mas há hipóteses que são compatíveis, e é preciso esperar pelos resultados. Mas é intolerável haver o sigilo em torno do funcionamento do setor. Numa democracia, esse tipo de informação é pública – e, ao meu ver, esse mistério em torno da aviação é uma das causas deste caos. Nos EUA, todo e qualquer acidente aéreo é público – tanto que quase não há mais registros de problemas aéreos desta dimensão, embora a frota seja muito maior que a brasileira. Os mecanismos de transparência utilizados naquele país são tão grandes que os sindicatos dos pilotos, dos controladores, entre outros, conseguiram chegar num nível altíssimo de qualidade em gestão, apesar de se tratar de uma atividade complexa. Os acidentes com a Chalenger ou a Discovery, por exemplo, deveram-se a uma falha de organização, cujos inquéritos abertos pela Nasa contaram, inclusive, com a ajuda de sociólogos.
De que modo a Sociologia poderia contribuir para a prevenção dos acidentes no trabalho?
Dwyer - Em cada quase acidente, segundo a teoria clássica, se esconde um futuro acidente. Por isso, a partir de estudos e interpretações sobre os processos, os impactos e os desafios, entre eles o da informatização, nas organizações, a Sociologia pode contribuir bastante para o entendimento e a prevenção destes acidentes. Em conjunto com outras disciplinas, como a Administração de Empresas e a Economia, a Sociologia também possibilita a aquisição de um conhecimento que permite aos atores sociais realizarem intervenções de prevenção potencialmente mais eficazes em suas respectivas organizações. Além disso, diferentemente das outras disciplinas, a Sociologia ajuda os atores a refletir sobre o que eles fazem no dia-adia, dando capacidade à sociedade de se autoconhecer, ultrapassando as barreiras do senso comum e das ideologias. Assim sendo, ela é o espelho da sociedade para momentos de incompreensão sobre o comportamento social, e por isso tem a capacidade de fazer um diagnóstico que pode ajudar na tomada de decisão, sobretudo para políticas públicas.
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