Trabalho Incentivos vazios Mudanças na base produtiva levam a transformações da gerência, que cada vez mais se confunde com motivação por SÁVIO CAVALCANTE E SIMONE WOLFF

Os diferentes trabalhos técnico-científicos e administrativos que compõem o corpo gerencial das empresas, como as funções diretamente ligadas ao trabalho intelectual e mais próximas às tarefas de concepção, são produtos históricos das relações de produção capitalistas. Diversas formas de hierarquia e de divisão social do trabalho foram desenvolvidas ao longo da história, em diferentes culturas e sociedades. Contudo, a divisão técnica do trabalho suscitada nos primórdios das relações capitalistas cria uma necessidade de controle específica sobre a força de trabalho coletiva. Este controle pode ser desempenhado tanto pelas máquinas quanto por outros assalariados, no geral, por ambos. É desta tensão que surgem os conflitos que atravessam as funções de gerência.
Respondendo a transformações da base produtiva, as quais, ao complexificarem a produção em larga escala, aumentavam a necessidade do controle “científico” do trabalho, a gerência e os assalariados que dela fazem parte cresceram de forma absoluta e relativa e assumiram uma importância visível em quase toda teoria social, clássica e contemporânea, sobre estrutura e estratificação sociais. O que representavam estes indivíduos que, a partir de critérios variados como tipo de trabalho, renda e status, eram vistos como elemento diferenciado da relação entre capitalistas e operários? Nem proprietários de meios de produção nem trabalhadores manuais, o corpo técnico e administrativo das empresas foi visto, por muitos, como uma “classe média”, um estrato intermediário que possuía interesses próprios e valores específicos1.
Mais do que isso, a partir de uma nova configuração social trazida pela ascensão das técnicas tayloristas e a produção e consumo em massa, impulsionados pela hegemonia do ideário e padrão de acumulação fordistas em boa parte do século XX, esta camada gerencial conheceu seu apogeu material e simbólico, o qual alimentou boa parte do “sonho da classe média”, entre outras coisas, obter as qualidades de um emprego que garantisse estabilidade, ganhos financeiros relativamente elevados, certo grau de autonomia no trabalho, acesso a bens simbólicos privilegiados e uma perspectiva de ascensão individual.
A hegemonia neoliberal consolidada minou as bases supostamente estáveis sobre as quais o corpo gerencial se mantinha |
Ocorre que a empresa que sedimentou este sonho, assim como o capitalismo no qual ela estava envolvida, transformou- se profundamente. Mudanças que vêm se efetivando de forma desigual (mas intensa) entre os países centrais e periféricos desde, principalmente, a década de 1970, inverteram boa parte desta lógica. A reestruturação produtiva e a consolidação da hegemonia neoliberal no campo político do Estado e nas próprias empresas minaram as bases supostamente estáveis sobre as quais o corpo gerencial se mantinha.
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| A informatização do trabalho incidiu também no controle gerencial, que viu várias de suas tarefas serem deslocadas a softwares que sustentam a criação de empresas-rede |
A empresa individual ou familiar, assentada em uma estrutura burocrática verticalizada de inúmeras hierarquias, cedeu lugar à sociedade de ações, ao predomínio dos interesses dos acionistas em detrimento da estabilidade dos funcionários. A informatização do trabalho possibilitada pelas tecnologias microeletrônicas incidiu não somente nas atividades de transformação e serviços, fortemente automatizadas, mas também neste controle gerencial, que viu várias de suas tarefas serem deslocadas a computadores e softwares que sustentavam a criação de empresas- rede.
Uma nova organização dos trabalhos técnicos, de gerenciamento e administração foi sendo efetuada, a qual se baseou no “enxugamento” de postos, funções, atividades e, logicamente, pessoas. Reengenharias, downsizing, terceirizações e flexibilização de direitos foram afetando a gerência que, apesar da boa qualificação e remuneração de vários de seus estratos, passa a conviver também com a marca do aleatório, da instabilidade e da imprevisibilidade2, tal como os demais assalariados inseridos na atual reestruturação produtiva.
Em um dos principais estudos sobre o trabalho no capitalismo, H. Braverman mostrou como o desenvolvimento das gerências processou- se não como necessidade natural do aumento da produtividade, mas como forma histórica de controle do trabalho coletivo dentro dos padrões capitalistas3. Lembra o autor que o verbo to manage (administrar, gerenciar) vem de manus, ou seja, mão em latim. Em sua origem, esta atividade correspondia ao ato de adestrar cavalos, no intuito de fazer praticá-los o manège. Assim como os adestradores buscavam, por meio de rédeas e esporas, impor sua vontade aos animais, a figura dos primeiros capitalistas baseava- se nitidamente nesta idéia de controle sobre o outro: “o controle é, de fato, o conceito fundamental de todos os sistemas gerenciais, como foi reconhecido implícita ou explicitamente por todos os teóricos da gerência”4.
A fonte objetiva desta necessidade reside no lento processo de separação dos produtores diretos em relação aos meios de produção, os quais, gradualmente, perdiam o controle (mesmo que limitado) que tinham no trabalho para os novos proprietários privados de terras, manufaturas, fábricas, indústrias, empresas e escritórios. Em outras palavras, a única forma de acesso aos meios que possibilitavam a obtenção de recursos para a sobrevivência era reduzida à venda de força de trabalho. Processo que denotava, principalmente, duas “perdas” relativas tanto às atividades intelectuais quanto às manuais, isto é, perda do conhecimento sobre o que e como as coisas são produzidas e das habilidades então necessárias. A força física e as habilidades dos trabalhadores foram sendo materializadas nas máquinas enquanto o conhecimento deslocava-se aos cargos gerenciais.

Era este, grosso modo, o projeto de F. W. Taylor ao conceber uma Organização Científica do Trabalho (OCT): deslocar o saber concentrado no chão da produção à gerência, a qual poderia, por ter uma “visão mais ampla” dos processos, otimizar a racionalização e eficiência das tarefas e, com isso, aumentar a produtividade das empresas. A idéia era que com tal racionalização houvesse ganhos materiais para toda a sociedade. Para atingir isto, Taylor, que acreditava ser da natureza do trabalhador uma indolência generalizada, desenvolveu técnicas que se pautavam na cronometragem dos movimentos mais simples de cada operário e na parcelização metódica e acentuada das tarefas, de modo que cada um passasse a exercêlas dentro de um padrão ótimo de tempo e movimentos determinados pela gerência.
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