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Selvagens por natureza
Autoilusão dá vida aos Homo sapiens globalizados. Vestígios do passado ainda habitam nosso inconsciente. Descobri-los e superá-los é o caminho para extinguir o autoengano

Por Armando Correa de Siqueira Neto

Shutterstock

O homem possui uma imensa dívida consigo mesmo. Trata-se da superação do autoengano, elemento de defesa psíquica que atua em seu socorro cada vez que a verdade se impõe dolorosa. O autoengano provavelmente surgiu nos primórdios do uso do raciocínio, quando o ser humano passou a se perceber sob a luz da razão, levando-o, consequentemente, a sofrer com tal descoberta. Quanto mais adentrava no universo da sapiência, maior era a sua agonia ante a visão animalesca e sombria que tinha de si mesmo. Ele precisou defender-se do mal-estar que lhe invadiu impiedosa e esmagadoramente, desenvolvendo, assim, o jogo da autoilusão; exercitado e aperfeiçoado desde então, chegou à contemporaneidade.

Todavia, ascender ao degrau evolutivo de tal superação requer o rompimento com a etapa infantil na qual grossa parte das pessoas ainda se encontra inconscientemente envolvida, atingindo novo e vital estágio de maturidade. Para tanto, é importante parar de apontar o dedo da culpa para o lado de fora de si e entender definitivamente que há uma responsabilidade pessoal a se assumir integralmente diante das consequências causadas.

Não se pode eliminar, contudo, a autoilusão; dispositivo criado pela sábia natureza. O que se pode fazer é reduzir-lhe a potência por meio da tomada de consciência a seu respeito, minando em graus significativos o seu alcance, penetração e, sobretudo, o controle sobre os pensamentos e emoções, cuja submissão encarcera o ser humano, levando-o a ficar refém inconsciente de si mesmo.
O homem crê inocentemente que consegue se autocompreender baseando-se tão somente no nível de percepção que atingiu. Um erro a ser corrigido. Mesmo depois de milênios de evolução, considerando-se o nosso ancestral, o homem de Cro-magnon, originado entre 90 mil e 40 mil anos atrás, e o uso cada vez maior da nova camada cerebral, o neocórtex, pouco se avançou no terreno da consciência pessoal.

Infelizmente, como dominador o homem soube apenas conter o seu próximo, fazendo-lhe mal em graus que variam da simples retenção ao cruel sadismo e, em certos casos, agindo de modo psicopático por meio de comportamentos caracterizados pela frieza afetiva. Foi justamente quando se deu a civilização que, pelos costumes, leis e amparo religioso o homem passou a escravizar o homem.

"Enquanto a responsabilidade não recair sobre si mesmo, a infantilidade permanecerá disfarçada de azar"

Mesopotâmia, China, Egito, Grécia, Roma, América Pré e Pós-colombiana deram a sua aula de escravização com tenebroso primor registrado inequivocamente pelas obscuras páginas da história. Outros registros macabros de dominação vicejam no século XX: os campos de concentração nazistas e os seus 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, entre tantos outros. Ressalte-se que cada época e local teve sua própria alegação para impor a escravidão ou seus ideais, mas o que se aprecia aqui, todavia, é o fenômeno comum da dominação perpetrado pelo homem.

Dominar a si mesmo, no entanto, faltou em demasia. O autodomínio é uma meta. Mas muita acomodação e má vontade são percebidas em pleno século XXI. O fato é que ainda se vê o ser rude esconder-se atrás da aparência social à espreita de uma oportunidade para mostrar as suas garras afiadas, seja por meio de uma tola desavença, seja por meio de uma discussão no trânsito com estranhos ou nas agressões entranhadas nas relações familiares entre marido e mulher, pais e filhos

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