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Dossiê RS
As guerras do Rio Grande do Sul
Em uma região disputada por Espanha e Portugal, os conflitos frequentes, a questão das fronteiras, a geografia local e até mesmo o uso de cavalos nas batalhas deixaram marcas na identidade e na cultura do povo gaúcho

Por Gunter Axt

Durante o período colonial, Espanha e Portugal bateram-se várias vezes pela fixação dos limites de suas possessões no Cone Sul. O ir e vir das fronteiras contribuiu para formar uma sociedade de índole guerreira. Administração, justiça e defesa eram partilhadas entre a monarquia, as câmaras municipais e os poderosos locais. Foi assim que, no Rio Grande do Sul, cada estância converteu-se em um posto avançado ou em uma retaguarda para a ação do Exército.

Os exércitos eram agrupamentos de tropas reunidas por diversos senhores, em geral proprietários de terras, que se conectavam a redes de compromissos clientelísticos, em que espaços público e privado se misturavam. Essa fórmula fica muito evidente durante as guerras civis que sangraram o Rio Grande do Sul, em especial na Revolução Federalista (1893-1895).

A geografia do Estado, combinada a outras particularidades da região, também pode dizer muito sobre os combates que ali ocorreram: a combinação entre áreas planas, uso de cavalos nas batalhas, exércitos formados por civis engajados e carência crônica de meios, contribuiu para dar à guerra gaúcha o caráter de movimento, de guerrilha.

A guerra é mais difícil de ser feita nas regiões montanhosas, pantanosas, de relevo dobrado, de obstáculos físicos de qualquer natureza (cursos d'água não navegáveis, por exemplo). No Rio Grande do Sul, a serra começou a ser ocupada por colonos europeus mais sistematicamente a partir de meados do século XIX. Foi com a Revolução Federalista que a guerra chegou a essa região.

RELIGIÃO E ECONOMIA

Também foi na região serrana, em locais remotos, que floresceram movimentos messiânicos, introduzindo o componente religioso nos conflitos do Sul. Em 1874, a tragédia dos Mucker, e, em 1897, o massacre de Entre Rios, na fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Estado de Santa Catarina. Antes disso, é possível admitir que o conteúdo religioso contribuiu para animar os índios missioneiros contra os exércitos português e espanhol.

Para entender as guerras do Sul, também é preciso relacionar os conflitos com a economia. A fundação da Colônia de Sacramento, por exemplo, está ligada ao desejo dos portugueses de acessar o ciclo virtuoso da prata de Potosí, por meio do comércio e do contrabando. O gado que se espalhou com o tempo pela pampa não apenas seria o motor da economia da Campanha, como daria o sustento à movimentação dos exércitos. A pecuária extensiva oferecia a disponibilidade para que bois fossem abatidos, garantindo sustento aos soldados.

GUERRA DOS FARRAPOS, DE JOSÉ WASTH RODRIGUES
A imagem remonta à Guerra dos Farrapos (Revolução Farroupilha 1835 a 1845), uma das mais importantes do Brasil, que resultou na declaração de independência da província como estado republicano, dando origem à República Rio-Grandense

DO INTERIOR ÀS CIDADES

A maior parte dos conflitos aconteceu no interior do Rio Grande do Sul. As cidades foram em geral poupadas. As grandes exceções talvez tenham sido o cerco de Porto Alegre, durante a Farroupilha (1835-1845), a traição de Bagé, em 1892, e o cerco de Bagé, em 1893. Passo Fundo também parece ter sofrido bastante durante a Revolução Federalista. No entanto, os motins do início do século XX, como os relacionados ao golpe de 1964, concentraram-se em grandes áreas urbanas, alterando o padrão até então registrado.

Quando o Exército brasileiro foi profissionalizado e o armamento se tornou mais sofisticado, com a introdução de metralhadoras, canhões de maior alcance, blindados e jatos de guerra, a partir, sobretudo, da década de 1940, o modelo de guerra praticado no Rio Grande do Sul foi perdendo eficácia. A partir desse avanço, o armamento pesado e sofisticado substituiu o valor do guerreiro individual, que antes marcava as guerras do Sul. Além disso, a sociedade também se modificou. Nas cidades, consolidou-se uma nova burguesia industrial, uma classe trabalhadora e uma classe média, enquanto a burocracia do Estado ganhou força e os chefes rurais perderam importância. O antigo sistema de lealdades recíprocas, próprio de uma sociedade patriarcal e rural, estava em decadência.

O governo que se instalou em 1964 lançou a pá de cal ao investir na desmilitarização das polícias estaduais, que, na prática, deixaram de funcionar como exércitos regionais e assumiram as funções de policiamento ostensivo. Além disso, o regime militar estabeleceu um modelo político centralizado e autoritário, que esvaziou o que restava da soberania dos Estados. O tempo das guerras e revoluções parece ter acabado. Mas o da violência difusa, cotidiana, criminal, parece estar apenas começando.

GUNTER AXT é Doutor em História Social pela USP, pesquisador associado ao Laboratório de Estudos da Intolerância da USP e professor visitante no Institut de la Pensée Contemporaine, Université Paris VII, Denis Diderot.

 

 

 

 

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