Entrevista Interpretações de Nietzsche mundo afora Em nosso país, Scarlett Marton vê um Nietzsche domesticado e transformado em objeto de consumo, mas acredita ser possível usar sua Filosofia como ferramenta para pensar a sociedade brasileira
Por João e. Neto
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"Em nosso país, tudo se passa como se houvesse uma perene demanda por algo novo, uma constante busca por algo que nos tirasse da mesmice e do marasmo. Nietzsche se apresenta como esse algo novo " |
Não é possível falar sobre a história da pesquisa brasileira acerca da Filosofia nietzschiana sem levarmos em conta o trabalho realizado por Scarlett Marton. Em quase 40 anos de estudo, Marton realizou uma vasta produção sobre o pensamento de Nietzsche. São nove livros e dezenas de artigos dedicados ao tema. Dando continuidade à sua obra, a professora acaba de organizar e publicar um novo livro: Nietzsche, um francês entre os franceses - uma coletânea de textos abordando a recepção francesa do pensamento do filósofo alemão.
Marton também reeditou dois outros títulos: Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos e Extravagâncias, ensaios sobre a Filosofia de Nietzsche, referências quase onipresentes nas teses e dissertações no País e consideradas marcos nos estudos brasileiros sobre Nietzsche. Nesta entrevista, concedida à Filosofia Ciência e Vida, além de abordar seus trabalhos, a professora e filósofa reflete acerca da atual popularidade de Nietzsche. Ela aproveitou para trazer à tona algumas de suas inquietações sobre a sociedade brasileira. Scarlett Marton é professora titular de Filosofia contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), graduou-se em Filosofia na USP, dando continuidade aos seus estudos na Sorbonne (Universidade Paris I).
Defendeu o doutorado e a livre-docência na USP e realizou o Pós-doutorado na École Normale Supérieure de Paris. Marton também é fundadora do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN). Oo GEN é responsável, desde 1996, pela publicação da revista acadêmica Cadernos Nietzsche e pela coleção de livros Sendas e Veredas.
João E. Neto é graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e membro do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN)
FILOSOFIA - Você acaba de lançar um livro sobre a recepção da Filosofia de Nietzsche na França. Pode falar um pouco sobre ele? E o que há de peculiar na interpretação francesa acerca do pensamento nietzschiano?
Scarlett Marton - Eu já havia organizado trabalhos sobre a recepção da Filosofia de Nietzsche na Alemanha, Itália e América do Sul. No meu entender, precisávamos contemplar a cena francesa que também tem se mostrado bastante atuante. Nesse sentido, nos empenhamos em trazer para os pesquisadores brasileiros o que há de mais significativo sobre os estudos nietzschianos na França nos últimos tempos. Para tanto, trouxemos uma coletânea de textos de alguns pesquisadores franceses como: Eric Blondel, Patrick Wotling, Blaise Benoit, Céline Denat e Yannis Constantinidès.
A meu ver, esses comentadores compõem, atualmente, uma escola de interpretação da Filosofia nietzschiana, pois possuem, em comum, uma maneira particular de trabalhar o texto do filósofo. Eles costumam eleger um problema específico e, a partir dele, desenvolvem todo um trabalho reflexivo. É uma metodologia que se afasta completamente de um trabalho de ordem genética. Ou seja, não se leva muito em conta o itinerário que Nietzsche percorreu para chegar a determinado conceito ou obra.
No entender desses estudiosos, essa tarefa já está cumprida e o que importa é pensar questões e problemas pontuais dentro da Filosofia nietzschiana. É interessante notarmos que se chegou a essa escola depois de passarmos, nos anos 1960 e 1970, por outro "Nietzsche francês", o Nietzsche de Foucault, Deleuze e Derrida. Foi a época em que a Filosofia nietzschiana passou a ser utilizada como um instrumento de trabalho.
O lema não era pensar a atualidade do texto nietzschiano, mas a atualidade através do texto nietzschiano. Foi a fase das interpretações, quando Nietzsche era usado para se pensar a realidade vigente. Nas últimas décadas, no entanto, Nietzsche voltou a ser um objeto de estudo por parte de comentadores. De caixa de ferramentas, se converteu em objeto de conhecimento filosófico.
FILOSOFIA - Você pode falar um pouco mais sobre essa tendência francesa que, nas décadas de 1960 e 1970, utilizou o pensamento nietzschiano como caixa de ferramentas para pensar a atualidade?
Marton - Usar a Filosofia de Nietzsche como caixa de ferramentas é dizer que podemos interpretar por intermédio de Nietzsche - e interpretar não é o mesmo que comentar. Comentar é estudar o texto do filósofo e tentar compreender o que ele nos diz. Interpretar, por outro lado, é usar as ideias do pensador para refletir sobre questões efetivas. No caso da França dos anos 1960 e 1970, pensavam-se - pela Filosofia nietzschiana - os acontecimentos de caráter político, social e artístico daquele momento. Refletia-se, por exemplo, acerca das insurreições que estavam acontecendo nas penitenciárias - foi algo que Foucault fez muito.
Pensava-se, também, sobre as comunidades antipsiquiátricas, os filmes de Jean-Luc Godard, a música de John Cage, a Pop art e os happenings - esse tipo de acontecimento artístico que surgiu naquela ocasião. É interessante a gente não deixar de perguntar por qual razão foi justamente nesse momento e por obra desses filósofos que Nietzsche foi apresentado como o filósofo da interpretação e dos intérpretes. E, aqui, eu trago a questão das redes de poder que está presente no meio acadêmico. Imagine você que surgem jovens pensadores que estão em busca de seu lugar ao Sol, em busca de um lugar no meio acadêmico.
Para conquistar esse espaço eles precisavam se diferenciar das gerações anteriores. Nesse sentido, enquanto a geração anterior privilegiava o comentário e tentava estar o mais próximo possível da verdade do texto filosófico, esses jovens pensadores - com a intenção de ganhar um novo espaço na cena acadêmica - vão substituir o comentário pela atitude interpretativa. Essa substituição revela, de alguma maneira, as tensões de relações de forças que estão sempre presentes no meio acadêmico.
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