A morte de Deus na faixa de GAZA Onde está Deus agora que o mundo materialista sofre, de novo, com mais uma guerra
Eduardo Oyakawa*
Quando nos jardins do Éden o homem exultava em harmonia com todos os outros seres que o enlaçavam e o completavam em inefável entendimento, Deus parecia um desses pais alegres ao ver sua criança brincar feliz no primeiro raio de sol, pela manhã ou na dourada tarde consumando o dia. Profundo era o diálogo entre Deus e o homem porque ambos se reconheciam em cada palavra, em cada escuta, nos gestos, nas pausas necessárias e reconfortantes do silêncio, em cada manifestação de encontro naquele jardim fundado em Cáritas, sob o signo do amor. Havia a cumplicidade entre criador e e criatura.
Se Deus inspirasse o seu espírito na seiva das frutas ou nas águas que verdejavam as plantações, imediatamente o homem se servia daquele presente não apenas para restituir vida à sua própria vida, mas, principalmente, para participar como convidado de honra daquele milagre celestial, aonde fome e saciedade significavam a mesma coisa.Não cabe aqui, no espaço deste artigo, repetir o enredo no qual se decretou o sombrio exílio do homem, pois todos conhecem o enredo suficientemente. Perdido em seu infinito orgulho, o ser humano caminha agora pelo mundo aprisionado por uma natureza desdivinizada, indiferente, impiedosa e cruel. Tornado um ser natural como todos os outros entes à vista, ele constrói sua própria história de zênites e ruínas, celebrando príncipes e reinos, elaborando sua complexa ciência, fundando suas artes, inventando as leis e a política.
Atribuindo à razão o desafio supremo de explicar o mistério de um mundo que ele presume ser o coração de sua gloriosa autonomia e suficiência, o ser humano auto proclama-se homo sapiens. Entretanto, lá no âmago de sua alma, o homem sente-se estranhamente incompleto e ainda que procure preencher o vazio existencial com fáceis e desmedidos aplausos ao seu ego e a sua força e poder, ele sempre incide no mesmo erro: embriagar-se de uma tola vaidade que o leva a aprofundar-se reiteradamente nos abismos do desterro.
Comentou o célebre 'Baal Shem Tov': "assim como uma pequena moeda mantida sobre a face pode impedir-nos de ver uma montanha, assim podem as vaidades da vida impedir-nos de ver a luz infinita..." Eis a terrível solidão da criatura no exílio: estar cego para a sua precária e risível condição de dependência da luz criadora! Mas, se esta solidão é o resultado das penas intrínsecas de quem habita um mundo dessacralizado, vivido como saudade infinita, o quê dizer da solidão divina?
A solidão de Deus é um recolhimento, uma separação, um afastamento do mundo humano. Parece que ele escondeu-se na última nuvem, dando as costas ao projeto humano de suficiência e autonomia. É como se ele dissesse: "Pois bem, ja que não precisam de mim, então que vivam sem a minha presença". Os santos místicos do judaismo e do cristianismo pensam que não, ao contrário, para estes homens piedosos e devotos, Deus precisa do homem tanto quanto a bela composição musical precisa das fugas do silêncio ou a noite, das estrelas que a iluminem...
Neste sentido é possivel dizer que o ser humano é a glória de Deus, que ele precisa do homem para reconhecer-se em sua própria criação. Mas, onde ele se refugiou neste mundo materialista e tecnológico em que vivemos? O messias, dizem os místicos, vive quase invisível entre nós, irreconhecível, trajando roupas simples, morando em lugares ermos e terríveis como a faixa de GAZA...
Não poucas vezes ele habita os corações dos doentes e marginalizados, dos humilhados da terra, dos injustamente encarcerados nos manicômios e prisões. Deus é sensível à angustia inaudível dos jovens nas danceterias e nos prostíbulos. Ele se apieda ate às lagrimas por uma sociedade que renega seus velhos à indigência moral e humana. Ele é o estrangeiro que nos pede ajuda e a quem viramos a face soberbamente. Mas, por que o messias repousa no rosto daqueles que são os ultrajados do mundo e da sociedade?
Como notou Agostinho a doença é a condição do homem religioso, na medida que este percebe que a saúde e a riqueza, a exuberância e a alegria advém da graça divina, e os ricos e poderosos são incapazes de reconhecerem esta contingência da cáritas, do amor, pois estão em estado de sono profundo, alienados pela vaidade da carne e do espírito. Portanto, só se pode reconhecer Deus no mundo, cuidando de seus filhos mais necessitados, provendo-lhes o milagre cotidiano de uma refeição decente, de um trabalho honesto e digno, dando-lhes hospitais, escolas e moradias.
Em nossa época marcada por um extremo individualismo, aonde os seres humanos se transformam em egos gigantescos, buscando sucesso e celebridade, onde a ganância é aplaudida como qualidade plenamente justificável neste mundo, olhar para os pequeninos parece ser uma tolice, um cinismo intolerável. Curiosamente, somente através deles, Deus pode escapar da sua celestial solidão e nos visitar para prometer uma outra vida transfigurada e renovada para além dos antidepressivos, dos suicídios e das guerras.
Em GAZA não matamos apenas covardemente crianças inocentes, matamos a esperança de Deus em nossa própria humanidade.
* Eduardo Oyakawa - sociólogo e professor de Sociologia da religião no curso de Relações Internacionais da ESPM.
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